Pré-leitura do livro “Luzia-Homem”, de Domingos Olímpio

O AUTOR

Domingos Olímpio (1851-1906) foi jornalista, advogado, diplomata, parlamentar e escritor.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Luzia-Homem”, de autoria de Domingos Olímpio, foi publicado em 1903, no Rio de Janeiro, em capítulos, num jornal. Teve inúmeras edições o livro, uma delas da Martin Claret, com 264 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Única, Luzia é uma personagem tão bela e tão forte, que sozinha justificaria o livro. E entra sem favor na galeria das mulheres mais marcantes da literatura. Domingos Olímpio foi mais longe e compôs uma história de amor e violência, cheia de emoções e surpresas, com outras mulheres (duas delas, idosas, todas oprimidas, cada uma reagindo a seu modo) e homens vigorosos (para o bem e para o mal) que saltam das páginas. Tudo isso num ambiente de seca, com a natureza mostrando quanto pode ser brutal, desumana, cruel.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

A crueza da realidade cearense dos últimos anos do século XIX está exposta. A natureza e as pessoas mostram a violência de que são capazes em tempos que pedem solidariedade. Desvios de dinheiro público e corrupção policial estão presentes. A justiça é lenta. As cadeias da época já são infernais. A fé e a superstição andam de mãos dadas. O machismo e o assédio às mulheres são a regra. Luzia-Homem é um túnel do tempo rumo ao Ceará, exatamente à Sobral de ontem, e ajuda a entender quem somos hoje. E porquê.

O LIVRO

O livro está estruturado em 26 capítulos breves.

Tudo o que acontece é consequência ou desdobramento de uma grande seca. Morte e migração dividem e destroem famílias. A fome e a miséria estão nas estradas e periferias das cidades. As pessoas estão marcadas no corpo e na alma.

Luzia é uma mulher jovem e bonita que, desde a adolescência, tem a atitude forte dos homens e se veste como eles, trabalha como eles. Ao mesmo tempo permanece pura e vulnerável, apesar da coragem.

Ela gosta de um homem e é grosseiramente assediada por um outro, que é membro da polícia. Este arma uma cilada para levar o outro à prisão. Tudo para ter o caminho livre para Luzia.

BONS MOMENTOS

“…Luzia de pé, em plena nudez, entornava sobre a cabeça cuícas d’água que lhe escorria pelo corpo reluzente, um primor de linhas rigorosas, como pintava a superstição do povo, o das mães-d’água lendárias, estremecendo em arrepios à líquida carícia, e abrigado em manto da espessa cabeleira anelada que lhe tocava os finos tornozelos…

“Desde menina fui acostumada a andar vestida com roupa de homem para poder ajudar meu pai no serviço. Pastoreava o gado, cavava bebedouros e cacimbas, vaquejava a cavalo com ele, fazia todos os serviços da fazenda, até o de foice e machado na derrubada dos roçados. Só deixei de usar camisa e ceroula e andar encoirada quando já era moça demais, até por obra dos dezoito anos.

“… não se conformava com os modos retraídos e a impassível frieza da mulher-homem, resistência passiva e calma, ante a qual se amesquinhava a sua fama e sentia arranhado o amor-próprio de vitorioso em fáceis conquistas. Sempre que a encontrava, dirigia-lhe, com saudações reverentes, palavras de ternura e erotismos incontinentes, olhares e gestos de desejos mal sofreados. E, tão frequentes se tornaram esses meios de obsessão, que um dia a moça os rebateu secamente, com firmeza inelutável…

“Aquele homem de maus bofes era um perigo. E surgiam histórias de crimes, anedotas grotescas, revelação de casos repugnantes, verdadeiros ou inventados pela fantasia do populacho nos excessos de saborear a vingança, denegrindo-lhe a reputação e deturpando-o para transformá-lo de pelintra quente e apaixonado em reles monstro horripilante…

“Não me importava de ser presa, nem tenho a vida para negócio… desgraça por desgraça… Ah! minha camarada, já sofri tudo de ruim deste mundo, passei por vexames e desgostos… Só lhe contando isso por miúdo… Deixe estar que os desaforos daquele cabra miserável não caíram no chão. Paga-me mais cedo ou mais tarde…

“Sentia-se incapaz de amar; carecia-lhe a fraqueza sublime, essa languidez atributiva da função da mulher no amor, a passividade pudica ou aviltante da fêmea submissa ao macho, forte e dominador, irresistível, como aprendera na intuitiva lição da natureza, essa comovente timidez da novilha ante a investida brutal do touro lascivo, sem prévios afagos sedutores, sem carícias de beijos correspondidos, como nos idílios das rolas mimosas. Não, não fora destinada à submissão.

INSIGHTS

“Não sou mais moça, confesso a minha desgraça, mas não me sujo com semelhante desalmado.

“Tiravam, de graça, o retrato da gente, com uma geringonça que parecia arte do demônio. Apontavam para a gente o óculo de uma caixinha parecida com uma gaita de foles e a cara da gente, o corpo e a vestimenta saíam pintados, escarrados e cuspidos num vidro…

“O fato é que há no oco deste mundo velho muita coisa , que nem doutores, nem padres conhecem.

“A miséria entra pelas gretas das fechaduras, empesta o ar e tira o juízo.

“É pena, você, uma moça branca, andar assim na vida.

“Há malefício para abrandar coração, curar ciúmes e até para produzir moléstias. Lá em casa havia um velho que curava bicheiras dos bezerros pelo rasto…

“Você não sabe de quanto o bicho mulher é capaz, quando vira a cabeça.

“O mundo e a pobreza estragam a gente.

“Felizes os irracionais, porque não duvidam.

“Andamos vagando pelo sertão como casados, até que o perdi. Morreu de bexiga, o pobre.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.