PRÉ-LEITURA DO LIVRO “LIVRO SOBRE NADA”, DE MANOEL DE BARROS

O AUTOR

Manoel de Barros (1916-2014), do Mato Grosso, estreou na literatura em 1937, escreveu 25 livros, inclusive 4 infantis, e foi escritor premiado (2 vezes Prêmio Jabuti, 2 vezes da Associação Profissional de Críticos de Arte, entre outros).

A PUBLICAÇÃO

O livro “Livro sobre Nada”, de autoria de Manoel de Barros, destaque da sua extensa produção, lançado em 1996, foi reeditado pela editora Alfaguara em 2016, com 98 páginas, prefácio de Berta Waldman. Sobre o autor o livro traz dezenas de páginas ao final, com manuscritos, fotografias, lista de obras, cronologia da vida e um rol de artigos e livros sobre sua trajetória literária.

CIRCUNSTÂNCIAS

Em 1852, o escritor francês Gustave Flaubert, autor do clássico “Madame Bovary”, disse informalmente a uma amiga que “gostaria de escrever um livro sobre o nada”. Nunca o fez. Manoel de Barros, 144 anos depois, lança o “Livro sobre nada”. Flaubert nunca deu detalhes de seu desejo. Mas a feitura deste livro de Barros, é certo, está acima e além do que se esperaria do estilo rigoroso do francês.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Poeta vitorioso, admirado, lido e citado, sucesso de público e de crítica, Manoel de Barros faz do seu nada um substantivo acontecimento literário. Tão breve quanto intenso.

Do alto de seu prestígio como premiado autor, Manoel de Barros brinca com a palavra e com a lógica, ora torcendo uma, ora distorcendo a outra. Inventa personagens impensáveis e os coloca em diálogos com as pessoas simples do Pantanal (onde viveu como fazendeiro, pecuarista), que podem ser meio loucas, talvez só ingênuas crianças ou apenas uns “bocós”. E entrega um produto cheio de graça, originalidade e beleza.

O LIVRO

O prefácio é uma orientação mínima para o leitor saber o que o espera. Mas nem tudo é explicável, muitas partes do livro podem apenas ser experimentadas, lidas e sentidas. Em seguida há um texto com o título de Pretexto. Só então, o autor abre as quatro partes em que divide o conteúdo central. São elas: 1. A arte de infantilizar formigas; 2. Desejar ser; 3. Livro do nada; 4. Os outros: o melhor de mim sou eles. E os títulos cumprem bem a missão de abrir os olhos e estimular o interesse do leitor. Agora é só tomar a mão de Manoel de Barros e aproveitar o prazer e a delícia da viagem.

CURTAS

“Não gosto de palavra acostumada.

“Não saio de dentro de mim nem pra pescar.

“Aonde eu não estou as palavras me acham.

“Tem mais presença em mim o que me falta.

“Eu fiz o nada aparecer.

“O pai trouxe do campo um filhote de urubu. Ele é branco e já fede.

“Do lugar onde estou já fui embora.

BONS MOMENTOS

“As coisas tinham para nós uma desutilidade poética.
Nos fundos do quintal era muito riquíssimo o nosso dessaber.
A gente inventou um truque para fabricar brinquedos com palavras.
O truque era só virar bocó.
Como dizer: eu pendurei um bem-te-vi no sol…
O que disse Bugrinha: Por dentro de nossa casa passou um rio inventado….

“… Ele queria o livro que não tem quase tema e se sustente só pelo estilo. Mas o nada do meu livro é nada mesmo. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio, um abridor de amanhecer, pessoa apropriada para pedras, o parafuso de veludo, etc. etc. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora…

“Bola-Sete é filósofo de beco.
Marimbondo faz casa no seu grenho — ele nem zine.
Eu queria fazer a biografia do orvalho — me disse.
E dos becos também.
É preciso refazer os becos, Senhor!
O beco é uma instituição que une o escuro do homem com a indigência do lugar.
O beco é um lugar que eleva o homem até o seu melhor aniquilamento…

“… Ando cheio de lodo pelas juntas como os velhos navios naufragados.
Não sirvo mais pra pessoa.
Sou uma ruína concupiscente.
Crescem ortigas sobre meus ombros.
Nascem goteiras por todo canto.
Entram morcegos aranhas gafanhotos na minha alma…

“…Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo)…

“…Não tenho pretensões de conquistar a inglória perfeita.
Os loucos me interpretam.
A minha direção é a pessoa do vento.
Meus rumos não têm termômetro.
De tarde arborizo pássaros.
De noite os sapos me pulam.
Não tenho carne de água.
Eu pertenço de andar atoamente…

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.