Pré-leitura do livro ´Jornalismo Cultural´, de DANIEL PIZA – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Daniel Piza foi um jornalista e escritor paulista (1970-2011). Editou o caderno de cultura do jornal Gazeta Mercantil (Fim de Semana) por cinco anos e trabalhou também na Folha (Ilustrada) e Estadão (Caderno 2). Publicou livros (incluindo biografias – Machado de Assis, Paulo Francis e Ayrton Sena). Fez jornalismo esportivo e crítica literária e de artes plásticas.

A PUBLICAÇÃO

O livro ´Jornalismo Cultural´, de autoria de Daniel Piza, foi publicado em 2003, pela editora Contexto (Coleção Comunicação), com 143 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Daniel Piza teve longa e qualificada trajetória no jornalismo e na literatura. Lia e escrevia sem parar. Apesar de ter morrido jovem (de um AVC aos 41 anos), deixou dezessete livros e uma marca forte nos cadernos culturais dos três grandes jornais paulistanos. O fato de ter sido uma espécie de pupilo de Paulo Francis (no início da carreira) o distinguiu desde sempre. Este é um dos dezessete livros de Piza, e traz para o papel sua experiência como jornalista na área de cultura.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Este livro reúne informações, análises, opiniões e orientações que abraçam toda a pauta do jornalismo cultural, com equilíbrio entre teoria e prática, história e atualidade. Será leitura útil para profissionais jovens ou para os mais experientes. É um livro de quem sabia e fazia para quem quer saber e fazer. Para quem já sabe e faz, um agradável passeio, mais que boa leitura.

O LIVRO

Daniel Piza viaja no tempo para registrar os fatos e as personalidades que fizeram nascer e prosperar o jornalismo cultural, a começar da Inglaterra do início do século XVIII, fazendo esticadas em vários países (França, Estados Unidos, Áustria, por exemplo) até chegar ao Brasil, onde se aprofunda um pouco mais e onde também baseia sua análise e opiniões. O autor não evita os temas delicados e não foge das ´bolas divididas´. O livro faz inúmeras indicações de livros (nacionais e estrangeiros) e documentos que ele considera indispensáveis aos profissionais do jornalismo cultural. Os textos se apresentam com objetividade e sabor, principalmente porque Piza associa os fatos a nomes e circunstâncias em situações muito bem selecionadas. Ao final, ótima bibliografia para os interessados. E não faltam exemplos clássicos da boa crítica.

INSIGHTS (Curtas)

“Shakespeare em seu tempo, a ópera no século XIX e os romances de Balzac são exemplos de sucesso popular, para muito além dos círculos conhecedores.”

“…anos 60, a década mais memorável do jornalismo cultural brasileiro…”

“Foi só nos anos 80 que os dois jornais paulistas criaram seus cadernos culturais diários, a Ilustrada e o Caderno 2”

“Outra característica dos anos 90 é a presença cada vez maior de assuntos que não fazem parte das chamadas ´sete artes´(literatura, teatro, pintura, música, arquitetura, cinema), como moda, gastronomia e design. ”

“Não tenha medo de perguntar o que quer que seja a quem quer que seja.”

“Não ´compre´  nenhuma versão. Duvide sempre do que ouve e faça contraste com outros pontos de vista”.

“Na Europa, os intelectuais participam da vida pública mais do que nos EUA.”

BONS MOMENTOS (Ideias Centrais)

“Outra perda do jornalismo cultural em meio a essa confusão de valores, além da credibilidade crítica, é sua submissão ao cronograma dos eventos. Lemos muito sobre discos, filmes, livros e outros produtos no momento de sua chegada ao mercado – e, cada vez mais, antes mesmo de sua chegada… No entanto, raramente lemos sobre esses produtos depois que eles tiveram uma “carreira”, pequena que seja, e assim deixamos de refletir sobre o que significaram para o público de fato.”

“O jornalista cultural anda se sentindo pequeno demais diante do gigantismo dos empreendimentos e dos “fenômenos” de audiência. As publicações se concentraram mais e mais em repercutir o possível sucesso de massa de um lançamento e deixaram para o canto as tentativas de resistência – ou então as converteram também em “atrações” com ibope menor mas seguro.”

“Dois dos maiores poetas americanos modernos, que também são dois dos maiores poetas mundiais modernos, foram ainda dois dos maiores críticos do século XX: Ezra Pound (1885-1972) e T.S. Eliot (1888-1965), cujas contribuições à revisão do passado literário e revelação do futuro cultural não cabem neste livro”.

“o jornalismo cultural, dedicado à avaliação de ideias, valores e artes, é produto de uma era que se inicia depois do Renascimento, quando as máquinas começaram a transformar a economia, a imprensa já tinha sido inventada (por Gutemberg em 1450) e o Humanismo se propagara da Itália para toda a Europa, influenciando o teatro de Shakespeare na Inglaterra e a filosofia de Montaigne na França.”

“Quando, por exemplo, Voltaire chegou à Inglaterra em 1726, ficou admirado com o clima de liberdade de expressão vigente na vida pública londrina; mais tarde, declarou que a mentalidade inglesa seria determinante para suas ideias sobre justiça e independência.”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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