Pré-leitura do livro “História da Literatura de Cordel”, de Carlos Dantas

O AUTOR 

Carlos Dantas, paraibano nascido em 1965, cearense por adoção, tem Licenciatura Plena em Letras pela Uece e mestrado e doutorado pela Universidade de Santiago de Compostela, da Espanha. É escritor e editor. 

A PUBLICAÇÃO 

O livro “História da Literatura de Cordel: Período de Formação”, de autoria de Carlos Dantas, teve sua segunda edição lançada em 2020, pela editora Máquina de Ler, com 372 páginas. 

CIRCUNSTÂNCIAS 

Carlos Dantas estendeu seus estudos sobre literatura até o Cordel, com foco no período de formação. Pesquisou as origens (e influências) possíveis e mais alegadas fora e dentro do Brasil. Localizou na serra do Teixeira (fronteira comum ao Ceará, Pernambuco e Paraíba) o núcleo vital. Foi tema de sua tese de doutorado, que se transforma neste livro. 

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO 

O escritor Carlos Dantas produziu um marcante livro sobre a arte popular. Em torno do cordel, ele coloca as cantorias (de viola), as emboladas (com pandeiro), e vai conversando com o leitor sobre as pelejas, os desafios, o repentismo, joga luz no debate sobre as origens e a marcha curiosíssima da evolução cultural, sem evitar os aspectos delicados, como os interesses envolvidos, a exemplo do financiamento do artista, da promoção comercial, dos arranjos sociais, das conveniências políticas. 

O livro tem sólido suporte científico, mas mantém a leveza da boa prosa. Informa, analisa e toma posição. A leitura instrui  sem deixar de ser prazerosa.   

O LIVRO

No Brasil, as cantorias de viola (e as emboladas, os desafios…) prosperam na segunda metade do século XIX e os nomes mais decisivos da manifestação cultural (como a família Nunes-Batista) destacam-se por décadas, entrando no século XX, atravessando gerações. 

O sertão nordestino é o território onde essa “literatura oral” se enraiza e se diversifica até chegar ao cordel e, num circuito virtuoso, ir e voltar no tempo, e influenciarem umas às outras, em formas e estilos.

O texto é naturalmente didático e vai contando histórias gerais e particulares. O pano de fundo, sem pieguice, é uma terra pobre, de vida difícil e de gente criativa. Não se trata de livro dirigido a especialistas. É literatura de alta qualidade, amigável e acessível a quem gosta de música, poesia e história. 

BONS MOMENTOS

“Foi dentro desse ambiente rural, marcado pelas lides do gado e da agricultura ainda rudimentar e de subsistência que a cantoria surgiu e se desenvolveu cumprindo uma importante função social na medida em que era mais do que um simples divertimento.. era a própria expressão em linguagem simples e despojada de requintes, mas rica em conteúdo cultural, da vida e dos sentimentos de todo um povo., era a memória secular que teimava em permanecer viva. O canto, seja ele de natureza épica ou lírica, seja em prosa ou em verso, sempre cumpriu o papel de guardião de tradições de todos os povos. Por isso, o cantador era respeitado e aclamado entre o povo, pois a ele estava reservada a nobre função de preservar, através do seu canto, os mitos, as lendas e as histórias herdadas dos seus antepassados. 

“Em termos sociológicos, podemos dizer que a Cantoria de viola alcançou um ‘capital simbólico´em comparação com a Embolada, fazendo com que esta ocupasse espaços sociais de menor prestígio, como as feiras públicas e os mercados populares; ao contrário, aquela ocupou espaços mais sofisticados, como as fazendas e as casas de aficionados, palcos especialmente destinados aos artistas profissionais, ou até  teatros e salas de espetáculo; o que não quer dizer que não se possa encontrar tanto cantadores como emboladores ocupando um mesmo espaço, como nas feiras públicas e praias do litoral nordestino. 

“No universo da oralidade, um autor é simplesmente todo aquele que canta-recita uma história ou um poema. Tanto um contador de história como um cantador de viola manejam um amplo repertório de narrativas e estruturas rítmicas que podem ser utilizadas de maneiras as mais diversas, podendo ser refeitas e reordenadas… Passada a performance, todo esse repertório retorna (renovado e enriquecido) ao patrimônio coletivo da comunidade na qual foi gerado. As histórias em versos inventadas pelos cantadores para serem cantadas antes ou depois dos desafios também faziam parte desse repertório coletivo, eram anônimos (os versos). Não passava pela cabeça de ninguém arvorar-se em proprietário ou autor (em sentido moderno) dessas histórias. 

“As ofensas e sátiras eram parte importante da cantoria. Ridicularizando-se um ao outro, sobrevalorizando os defeitos físicos e morais do oponente, numa espécie de caricatura verbal jocosa e satírica, divertiam o público, fazendo do riso uma válvula de escape ás agruras da difícil vida no sertão. Por isso nenhum fazendeiro proibia essas festas ocasionais; ao contrário, estimulava-as, pois sabia da sua importante função social na comunidade. Particularmente essa faceta satírica será amplamente aproveitada pelo cordel. 

“Dentre esses discípulos, destacamos dois (cantadores): Inácio da Catingueira e Romano da Mãe-d‘água. O primeiro era negro e escravo, o segundo, mulato e proprietário de terra. Ao digladiarem os dois em desafio, a qualidade e a força poética  desses vates sertanejos foram tantas que permaneceram para sempre na alma e nos corações dos seus admiradores e apologistas, fazendo com que esse desafio ganhasse foros de lenda ou mito. 

“…qualquer pessoa que viaje pelo Nordeste ou frequente a feira de São Conrado, no Rio de Janeiro; ou até mesmo o Largo da Concórdia, onde se situa a feira do bairro do Brás, em São Paulo, por exemplo, facilmente reconhece uns “livrinhos gozados” de poucas páginas, capas coloridas e ilustrações toscas como um tipo de publicação nordestina. É justamente por essas características extremas do suporte que a maioria das pessoas distinguem a literatura de cordel, sendo a sua “marca registrada”. 

“As histórias orais em seu conjunto fornecem  elementos importantes denotadores dos gostos estéticos dos leitores populares, assim como do seu imaginário. A presença de seres míticos, reinos encantados e instrumentos mágicos na tessitura dessas narrativas são denotadores de sua destinação oral…Esse imaginário povoado de elementos sobrenaturais, de reis e rainhas, príncipes e princesas, presentes também no cordel, fez com que ele fosse considerado pelos folcloristas como literatura oral. E mais, esse imaginário pretensamente medieval acenou falsamente para uma suposta origem ibérica do cordel.

CURTAS

“Todos (ou quase todos) os poetas escreveram pelejas, colocando-se ou não como protagonistas. Tendência que, aliás, continua até os dias de hoje com as pelejas virtuais. 

“Voltando à função formativa e informativa, muitos poetas aproveitaram os Desafios para “cantar ciência” nos folhetos, vangloriando-se de conhecimentos muitas vezes meramente enciclopédicos. 

“Na serra do Teixeira surgiram os cantadores mais afamados, os quais, constituindo-se como “mestres”, conseguiram aprimorar as técnicas de improvisação herdadas pela tradição, ensinando-as a seus discípulos…

“Não é á toa que o povo selecionou o boi para representar as suas aspirações de liberdade: como o boi, animal dócil e subjugado pelo sistema pastoril, o povo identifica-se com ele, libertando-o e inventando bravuras e façanhas impossíveis, tudo aquilo que eles mesmos gostariam de fazer.

“Portugueses, judeus, árabes, ciganos, africanos e índios nos legaram a sua cultura material e simbólica. O mérito dos Nunes-Batista foi desenvolver esse amplo repertório cultural, passando-o de geração a geração. 

“O ‘Coco de Embolada´ou simplesmente ´embolada´, ao contrário da Cantoria de viola, não possui o prestígio da sua congênere, detentora de adeptos e cultuadores por todo o Nordeste. O Coco é um tipo de poesia popular improvisada semelhante à Cantoria…

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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