Pré-leitura do livro “História Cantada do Brasil, em 78 Rotações”, de M. A. Nirez

O AUTOR

Nirez, jornalista, historiador e memorialista, cujo nome é Miguel Ângelo de Azevedo está entre os maiores estudiosos da música popular brasileira. Possui um valioso banco de informações e imagens da cidade de Fortaleza. Nasceu em 1934 e trabalhou também como desenhista técnico.

A PUBLICAÇÃO

O livro “História Cantada do Brasil, em 78 Rotações”, de M. A. Azevedo, o Nirez, é edição do Autor, lançado em 2011, com 522 páginas. Compõe a peça o acesso a um arquivo eletrônico com as muitas músicas citadas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Ainda bem jovem Nirez apaixonou-se por música e tornou-se um colecionador de discos de cera, que começaram a ser fabricados no Brasil em 1902 e deixaram de sê-lo em 1964. Como de resto acontece no mundo inteiro, a arte reflete a vida, e a música canta a história de um povo. Nirez conta em prosa, versos e música a história de seis décadas, até 1964. É o rosto do Brasil, o mundo como cenário.

O Autor tinha a intenção de destinar a peça às escolas públicas. O conteúdo foi aprovado em todas as instâncias com louvor. Às exigências de natureza burocrática, entretanto, Nirez não conseguiu atender.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Nirez faz uma pesquisa séria e organiza os fatos com um texto claro e direto, para ser lido com música de qualidade ao fundo, dando ritmo, leveza e beleza à leitura. Uma experiência estética única. Uma exclusiva viagem no tempo e na amplitude da pauta musical.

A pesquisa cobre muitos ângulos e várias perspectivas da história (política, economia, cultura, comportamento etc) e percorre  seis décadas da história brasileira, com um estilo de fazer inveja a muito historiador.

O LIVRO

Um narrador conduz a leitura que flui rápida entre os fatos e os versos, acompanhados ou seguidos das gravações musicais.

Os eventos estão distribuídos por temas: guerras, pestes, secas, pessoas ilustres — entre cientistas, artistas e presidentes da República —, tecnologia de época (automóveis, aviões, meios de comunicação), espaço (cometas, lua) e figuras controversas (Ruy Barbosa, Padre Cícero, Lampião).

Nirez tem a mão firme e hábil para escrever. Seu livro tem beleza, mas não apenas. É instrutivo, tem alma e remete a um jeito de ver o Brasil que faz falta. Merece e precisa ser lido. Mais uma significativa contribuição à cultura com a marca Nirez. 

CURTAS


“Os primeiros automóveis a surgirem na cidade do Rio de Janeiro foram fabricados no final do século XIX e aos poucos foram tomando conta do trânsito. Surge em 1907 a revista “Fon-Fon”, cujo título é a onomatopéia da buzina dos carros da época. Começaram então a acontecer os acidentes e a música popular não poderia ficar silente, e logo em 1907 surge a primeira música referente aos carros. A dupla Os Geraldos, formada pelo cantor Geraldo Magalhães e a cantora Nina Teixeira grava, com acompanhamento de piano, a cançoneta “Os Automóveis”, sem autoria…em 1906…

“O presidente Rodrigues Alves promoveu, então, uma revolução urbana no Rio de Janeiro no início do século XX e declarou que iria acabar com as doenças que traziam desgraça e vergonha para o País: febre amarela, peste bubônica e varíola. Nomeia Oswaldo Cruz  como diretor-geral da Saúde Pública. O objetivo era o de erradicar do Rio de Janeiro a febre amarela, a peste bubônica e a varíola. Ele queria ver a cidade e o porto limpos… A primeira música sobre a peste surgiu antes da campanha de Oswaldo Cruz, “A Peste Bubônica”, de autor ignorado e gravada pelo cantor Cadete… Em 1907 uma música sem autor e sobre uma das pragas, “Febre Amarela”, foi gravada, na voz do cantor Geraldo Magalhães, que usava apenas “Geraldo”, com piano…

“Oswaldo Cruz assumiu pessoalmente a liderança da equipe sanitária, iniciando um rigoroso programa de combate às moléstias, que incluía o isolamento dos doentes e a vacinação obrigatória. Oswaldo instituiu as famosas brigadas de “mata-mosquitos”, guardas sanitários que percorriam as residências eliminando focos do mosquito transmissor da febre amarela – Aeges aegypti. No primeiro semestre de 1903, no Rio de Janeiro, ocorreram 469 óbitos resultantes da febre amarela. No primeiro semestre do ano seguinte foram apenas 39… A primeira música sobre o assunto foi “Rato, Rato!”, cançoneta gravada pelo ator Alfredo Silva…

Gripe Asiática – Em fevereiro de 1957 surgiu uma epidemia de gripe no norte da China que ficou conhecida como “asiática”, que dizimou um milhão de pessoas em todo o mundo. Ela chegou ao Brasil ainda em 1957 de forma benigna, e o tema logo foi aproveitado pelos compositores Altamiro Carrilho  e Miguel Gustavo  que fizeram a marcha “O Preço da Gripe”.

Guerra do Contestado – Em 1912 surge, em uma área sertaneja, abrangendo partes do Paraná e Santa Catarina, uma revolta que dura até 1916 e que ficou conhecida como Guerra do Contestado. Era uma comunidade formada por pessoas extremamente pobres, sem terras, com falta de alimentos e que sofriam opressão de dois grandes fazendeiros da vizinhança, empresas norte-americanas que ali operavam, a Brazil Railway, que implantava ali a ferrovia que unia São Paulo… Cadete faz e grava um discurso seguido de modinha sob o título “Paraná”, com acompanhamento de violão em disco da Casa Edison de selo Odeon…

“A música vencedora foi a marcha de Nássara e Cristóvão de Alencar, “A Menina Presidência”, gravada por Sílvio Caldas e Orquestra Odeon em disco Odeon 11.450-a no dia 28 de novembro de 1936, sendo lançado em janeiro de 1937 e era uma composição profética. A melodia inicial é da canção popular “Terezinha de Jesus”:

“A menina Presidência
Vai rifar seu coração

E já tem três pretendentes

Todos três chapéu na mão

E quem será?…

 

A primeira denúncia da inflação em música popular surgiu em 1948, em música cantada no filme “Esta é fina”, da LEB, o samba “Falta Um Zero No Meu Ordenado”, de Ary Barroso e Benedito Lacerda, a única composição da dupla, gravado por Francisco Alves e Orquestra Odeon…

 

“No carnaval do ano seguinte, 1954, o compositor Luiz Assunção fez, para a sua Escola de Samba Luiz Assunção, o samba “Adeus, Praia de Iracema”, que gravou em acetato, constituindo-se o maior sucesso carnavalesco daquele ano em Fortaleza, suplantando todos os outros oriundos do sudeste:

“Adeus, adeus,

Só o nome ficou,

Adeus Praia de Iracema,

Praia dos amores

Que o mar carregou…

“Herivelto Martins e Grande Otelo fazem o samba “Adeus, Mangueira”, uma despedida ao bairro carioca e sua escola de samba, em virtude da mudança da capital para Brasília…


BONS MOMENTOS

 

“No caso da varíola, para enfrentar o problema, tornava-se necessária aplicação de vacinas na população, que não aceitou pacificamente, sendo necessária criação de uma lei que a tornava obrigatória, aumentando a reação. A lei que tornava obrigatória a vacinação do povo foi aprovada no Congresso no dia 31 de outubro de 1904 e no dia cinco de novembro foi criada a Liga contra a Vacina Obrigatória, fazendo com que no dia 10 de novembro, se iniciassem os confrontos entre a população e a policia. O governo federal mandou bombardear os morros do bairro da Saúde, no centro do Rio, considerado o reduto da insurreição. O bairro foi ocupado pela polícia no dia 17, com o apoio do Exército e da Marinha.

“Primeira Guerra – Em visita feita a Saravejo, capital da Bósnia, região que fora anexada ao Império Austro-Húngaro em 1908, o príncipe herdeiro Francisco Ferdinando sofre um atentado que lhe tirou a vida, juntamente com sua esposa. O autor do crime foi um estudante sérvio, nacionalista-terrorista, pertencente ao grupo “Mão Negra”, Gravilo Princip  que lutava pela unificação da Sérvia, que foi responsabilizada pelo assassinato do príncipe, conseqüentemente, os austríacos ordenaram a mobilização de suas forças armadas. Apesar dos esforços de outras potências, especialmente da Grã-Bretanha, em 28 de Julho do mesmo ano, a Áustria declarou guerra à Sérvia. No dia seguinte a Rússia, que se considerava protetora dos sérvios, iniciou a mobilização de suas forças. Em 31 de julho, a Alemanha proclamou estado de guerra e enviou um ultimato à Rússia. Numa rápida sucessão de eventos, em agosto houve a declaração de guerra alemã à Rússia e à França, invadindo a Bélgica. A Inglaterra enviou um ultimato à Alemanha, em protesto contra a violação da neutralidade belga, e declarou guerra à Alemanha. Foi como se um imenso mecanismo político administrativo-militar fosse posto em movimento e ninguém mais poderia controlá-lo. A partir daí, como resultado das alianças militares que já existiam entre as diversas nações, entraram na guerra, ainda em 1914, a Áustria, o Montenegro, a Sérvia e o Japão. Em 1915, a Itália e a Bulgária, em 1916, Portugal e Romênia, em 1917, os EstadosUnidos da América, Cuba, Panamá, Grécia, Sião, Libéria, China e o Brasil…. Marinho de Oliveira e Florizel compuseram a canção patriótica “Partida para a Guerra”, gravada em disco Odeon Record da Casa Edison pelo Bahiano e conjunto…

“Segunda Guerra- A Alemanha fora derrotada na Primeira Guerra e perdeu muitos de seus territórios e possessões e sonhava reaver parte deles. Adolfo Hitler, chegando ao poder, estabeleceu um estado totalitário nazista ao mesmo tempo em que Benito Mussolini, na Itália, fundou o Partido Fascista, exercendo também um governo totalitário. A maneira que os dois paises encontraram de sair da crise reinante na época, foi a industrialização, principalmente a indústria bélica. Por outro lado, na Ásia, o Japão, liderado pelo imperador Hiroíto tinha desejos expansionistas e se uniram então os três liderando outras paises formando o chamado eixo Roma-Berlim-Tóquio. Na Primeira Guerra Mundial o Japão era aliado dos ocidentais, mas na Segunda Guerra, por estar em guerra coma China e esta ter o apoio dos aliados ocidentais, ele preferiu aliar-se ao bloco do eixo Roma-Berlim… Mas a música popular brasileira, bem antes do início do conflito, já previa os acontecimentos e lançava em música suas sátiras. Alvarenga fez a embolada “Tempos de Guerra”, gravada por ele próprio com acompanhamento de “Sua Gente”, em disco Odeon 11.632-b do dia 14 de junho de 1938… O cearense Humberto Teixeira, flautista, compositor e letrista em parceria com Caio Lemos produziram o dobrado “Pelo Brasil, Pela Vitória”, que foi gravado pelo cantor mineiro Moraes Neto com Fon-Fon e Sua Orquestra, em disco Odeon…

A Gripe Espanhola (influenza) – Em 1918 houve uma pandemia mundial, talvez oriunda da Grande Guerra, de uma gripe, a influenza, que matou centenas de pessoas no Brasil, entre elas vultos importantes como o presidente Rodrigues Alves, que tinha sido eleito pela segunda vez mas faleceu sem tomar posse. Estranhamente nenhuma música foi gravada sobre o episódio, embora no carnaval de 1918 tenha surgido a canção “A Influenza Espanhola”, versos do cantor Bahiano para serem cantados na melodia do samba “Caiçara”…

“Guerra da Lagosta – Uma embarcação da Marinha do Brasil, orientada por pescadores brasileiros, flagrou barcos de pesca franceses pescando lagostas na costa de Pernambuco, clandestinamente. A imprensa francesa saiu em defesa dos pescadores franceses, chegando a um debate se lagosta era peixe ou crustáceo. A crise chegou a arranhar as relações diplomáticas… George Washington fez a “Marcha da Lagosta” e deu para Isnard Simone gravar em disco Copacabana…

“O cometa Halley foi o primeiro a ser reconhecido como periódico, sendo sua órbita calculada pela primeira vez pelo astrônomo e matemático Edmund Halley em 1705. O cometa havia sido observado na Europa em 1472 pelo astrônomo alemão Regiomontano. As observações de dados mostram que o cometa foi observado pela primeira vez no ano 239 dC. Em suas observações, Edmund Halley comprovou que as características do cometa coincidiam com as descritas em 1602 e também com as de 1531, descritas por Petrus Apianus e 1607 observadas por Johannes Kepler. Halley concluiu que correspondiam ao mesmo objeto celeste, que retornava a cada 76 anos. Em 1910 a Terra atravessou a cauda do Cometa Halley que foi clareada como o dia e sua volta foi esperada com grande ansiedade em 1986 o que foi um fiasco…Em 1912, surge um lundu, sem autoria, que é gravado por Eduardo das Neves, o “Palhaço Negro”, com violão, em disco Odeon Record da Casa Edison nº 108.673, com o título de “Lundu Gostoso”, que faz referência ao Cometa Haley. Na gravação no lugar da pronúncia “Rálei” é dito “Alêi”…

Fim do Mundo – Houve uma anunciada “grande tempestade magnética que interromperia as comunicações, influiria nas correntes elétricas, causaria tempestades, chuvas, furacões, ciclones” que aconteceria no dia 21 de fevereiro de 1938 e na verdade aconteceram apenas alguns fenômenos já comuns em outras tempestades oriundas das manchas solares. O anúncio da tempestade levou o povo a acreditar que o mundo corria perigo e que poderia acabar naquele ano ao passar da tempestade. Passado o susto, o baiano Assis Valente fez o samba-choro “E O Mundo Não se Acabou”, gravado por Carmen Miranda…

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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