PRÉ-LEITURA DO LIVRO “GRANDE IMPRENSA – JORNALISMO, FORTUNA E PODER NO BRASIL, DE HENRIQUE MOREIRA

O AUTOR

Henrique Moreira é carioca nascido em 1958. Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação. Trabalhou 30 anos em assessoria na área e atualmente é professor universitário.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Grande Imprensa – Jornalismo, Fortuna e Poder no Brasil”, de autoria de Henrique Moreira, foi lançado em 2020, pela Appris Editora, com 176 páginas. Prefácio de Luíz Martins da Silva.

CIRCUNSTÂNCIAS

O livro parte de uma pesquisa realizada pelo autor para um trabalho de obtenção de título de pós-graduação em Comunicação. Os estudos cobrem 200 anos de história do jornalismo brasileiro, com oportunas e pertinentes referências ao jornalismo estrangeiro, norte-americano principalmente. Apesar de estar baseado no rigor acadêmico, o autor fez um livro agradável de ler, graças a seu texto leve e acessível.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

A maioria dos livros não-didáticos sobre jornalismo é dedicada à história de um ou outro veículo ou à biografia de um ou outro jornalista de destaque. Este livro é cem por cento sobre jornalismo. Não há culto a personalidades ou a “cases”. O autor demonstra absoluto domínio do tema, inclusive alcançando a questão da gestão e da sustentação financeira. Além, disso tem muita informação de qualidade em suas poucas páginas.

O LIVRO

O livro se estrutura em sete capítulos breves, de certa forma seguindo um roteiro acadêmico, só que com texto amigável, prazeroso.

O primeiro deles traz uma curiosa definição para a evolução da imprensa brasileira desde 1808 até os dias recentes. A imprensa teria nascido “acorrentada”, passa a “desbocada” e depois “apaixonada” — são dezessete as classificações, uma para cada período, com uma lista de características de cada uma.

Dois outros capítulos são destinados a informar sobre os dois maiores conglomerados nacionais de jornalismo: os Diários Associados e a Rede Globo.

No mais, há a exposição da tese de que “mudanças estruturais” aconteceram na transição do jornalismo partidário para o jornalismo de informação.

É um trabalho sério, de qualidade.

INSIGHTS

“… Em busca de sustentação econômica, o jornalismo no Brasil descobre, a partir daquele momento, o homem comum, o cidadão envolvido com os problemas do cotidiano, ruas esburacadas, transporte publico deficiente, doenças e epidemias sem controle. 

“… A maioria dos moradores ada então capital federal era formada por pessoas pobres, analfabetas, subempregadas, habitando moradias precárias nos cortiços espalhados pelo centro da cidade. 

“… No que se refere aos jornalistas, pudemos perceber que, àquela altura, tinham em comum a origem e a formação bacharelesca, eram `brasileiros amigos da nação e da pátria´ buscando, por meio do jornalismo, destacar-se politicamente e obter, dessa forma, algum tipo de vantagem. 

“… Passa a vigorar uma clara divisão de tarefas entre repórteres, redatores e revisores, numa especialização que atende às exigências de um novo modelo de gestão inspirado na Administração Científica.

“…Há, ainda, a presença de conglomerados internacionais, que se dá por meio de acordos legais (a partir da regulamentação da entrada do capital estrangeiro nas empresas midiáticas, em 2002, no governo FHC) ou por arranjos comerciais de caráter nebuloso…

“…e essa é a primeira das consequências trazidas pelo novo paradigma: a drástica redução do numero de jornais em circulação…

IDEIAS CENTRAIS

“… Quando nos dispusemos a estudar a transição do jornalismo partidário para o jornalismo de informação, tendo como referência as mudancas estruturais que se sucedem ao longo da história do nosso jornalismo, tínhamos consciência de que, para que esta pesquisa alcançasse seus objetivos, seria necessário construir um dispositivo analítico que contemplasse a diversidade e a subjetividade dos fenômenos dos quais buscávamos nos aproximar.

“… Foi a partir dessas mudanças sociais, técnicas e profissionais que surgiram no Brasil as condições essenciais para a implantação de um jornalismo economicamente viável, organizado em bases empresariais, com uma maior independência em relação ao poder politico e que viria dar origem aos primeiros conglomerados de midia no Brasik, os Diarios Associados e o Grupo Globo. 

“… Ao contrário do que ocorreu na América do Norte, o fluxo migratório dos ultimas décadas do século XIX nao criou as condições para o surgimento, no Brasil, de uma classe média  capaz de sustentar um mercado consumidor de noticias. O processo de urbanização no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, não se constituiu num elemento de estímulo ao crescimento da imprensa com a mesma intensidade observada nos Estados Unidos. 

“… Naquele momento ficava evidente que para ganhar dinheiro com o jornalismo era preciso, a exemplo do que ocorrera nos paises centrais, afastá-lo da luta politico-partidária, usar uma linguagem mais acessível e, antes de tudo, saciar a curiosidade do público. Era preciso, ainda, investir na rápida evolução da tecnologia para melhorar o processo de produção, aumentar as tiragens e ampliar o lucro. 

“… E a consequência mais dramática imposta por esse novo modelo foi a redução do número de jornais em circulação no país. A partir de um determinado momento, quando esse novo paradigma se consolida, já não há mais espaço para empresas que não atendem às novas exigências mercadológicas,
técnicas e econômicas. A concentração midiática que advém desse arranjo reflete, também, o alcance do novo caráter oligopolista da nossa economia, que afetaria os jornais obrigando-os a assumir a condição de grande empresa, constituída e orientada para o resultado financeiro. 

“… Um documentário produzido pela rede britânica Channel Four, em 1993, dirigido pelo documentarista Simon Hartog, ‘Beyond Citizen Kane’, retrata Roberto Marinho como uma figura poderosa, personagem importante no cenário político brasikleiro pós-golpe militar de 1964 e dá a entender que o predomínio da TV Globo no ambiente midiático brasileiro fazia parte de um projeto de modernização e integração nacional bancado pela ditadura militar com capital norte-americano, notadamente o dinheiro investido pelo grupo norte-americano Time Life na consolidação da TV Globo. 

“… A força e o alcance do império construído por Assis Chateaubriand mudaram, definitivamente, a face do jornalismo brasileiro. A diversificação dos investimentos e das fontes de receita geradas pelas empresas do grupo deram a Chateaubriand uma força até então inimaginável…Em apenas três décadas, o império construído por Chateaubriand cobriria praticamente todo o pais. Os jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão que formavam os ‘Diários Associados’ exerciam enorme influência sobre a opinião pública e davam ao seu fundador um prestígio que usava para aumentar seu poder. 

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.