O AUTOR
Everardo Norões (nascido em 1944) é escritor e tradutor. Cearense do Crato, viveu em Pernambuco e foi exilado político na França, Argélia e Moçambique. Escreve poemas e contos. Foi traduzido para francês, espanhol, catalão e quíchua. Recebeu o respeitado Prêmio Portugal Telecom de Literatura.
A PUBLICAÇÃO
O livro “Garrafas que sonham macacos”, de Everardo Norões, foi lançado em 2022, com 144 páginas, pela Companhia Editora de Pernambuco – CEPE.
CIRCUNSTÂNCIAS
Everardo Norões, cujos livros costumam trazer poemas ou contos, passou quase uma década só com poesia. De volta, o escritor produziu os dezenove contos deste livro entre os anos de 2019 e 2022, para saciar a sede de seus leitores fiéis. A maioria das histórias são ambientadas no Brasil, mas algumas acontecem no exterior. Regra geral, o autor usa eventos do cotidiano.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
A trajetória literária de Everardo Norões já fez dele uma relevante referência no Brasil e em outros países onde foi traduzido e publicado. Cada lançamento de novo livro reacende o interesse por sua produção. Sua escrita alcançou um nível de amadurecimento e qualidade reservada a poucos autores. E o prazer da leitura é proporcional a seu justo e merecido prestígio.
O LIVRO
O intrigante título que o autor escolheu para a publicação é extraído de um parágrafo de um dos contos, o último. Everardo Ramos faz uma alusão indireta ao clássico As Mil e uma Noites no momento em que um personagem se serve de uma bebida especialmente forte.
O texto de cada um dos dezenove contos recebe o leitor ou leitora com a leveza de uma aproximação gentil e amiga. Abraça-os e os conduz com pleno domínio sobre sua atenção. Os personagens são marcantes, a trama, envolvente e o desfecho, surpreendente, sem recursos a malabarismos.
Leitura cem por cento recomendada.
CURTAS
“Confirmou que até a morte poderia ser tratada como derivada de um conceito matemático.
“… Uma coisa nunca é a mesma de antes, embora a distância afetiva possa se tornar uma presença.
“Um vocábulo com força suficiente para devastar um destino, conjugar desespero e harmonia, a ponto de destruir um homem.
“Os caminhos da floresta nos olham sem serem vistos, atacam-nos nas fronteiras do silêncio e nos deram as palavras no desvão da noite.
“Pus-me à escuta. Súbito, descobri que havia uma espécie de silêncio feito pelo barulho de animais invisíveis. Um silêncio cheio de sons…
“Tinha a certeza de que bicho também sabe gostar, feito gente. Às vezes pode ser melhor do que pessoas…
Eu, já homem; ele, quase sem força, olhando da rede tudo o que passa: gente, bicho ou nuvem.
“Apanhar de chibata só ladrão de bode ou Jesus Cristo no caminho da cruz. Se não for humilhação, é sacrilégio.
“… Vou insistir na cobra, número 9, dezenas de 33 a 36. Há vários dias é o palpite que me chega em sonho
BONS MOMENTOS
“… Nunca pintamos nosso calvário! Costumamos retratar mulatas, coqueiros, dançarinas, frutas, paisagens de pontes corroídas pela ferrugem e pela preguiça. Nenhuma cor de nossos quadros revela o que aconteceu entre nós, nenhum de nossos desenhos simboliza o soar no regaço das coisas. Nossa pintura é cúmplice no esquecimento.
“… Os entrecruzamentos das peças metálicas pareciam-lhe hífens inscritos na paisagem, saltos imobilizados sobre o abismo. Afinal, tudo tem sua própria linguagem. Havia intimidades entre a poesia e a ponte, um romance e o trajeto de uma linha de metrô.
“Na calçada que beira o quebra-mar, os homens passeiam de mão dadas enquanto as mulheres permanecem sentadas na mureta de pedra.
“O que aprendi em sua companhia foi suficiente para construir um personagem enigmático, uma ficção. Além disso, percebi que o convívio com certas pessoas é um “desremédio”…
“Teresa, por exemplo, a dos olhos de china e pele que lembrava os cajus depois da chuva. Ou a mulata da Rua Direita, de encontro com hora marcada, só corpo e silêncio, de quem nem chegara a decorar o nome. Eram sombras das “sombras de um nuncamente “
“Mulheres deviam ser passageiras, como orquídeas, mesmo formato e tempo de floração. Uma vez por ano a exalar um perfume que iria se juntando a outros cheiros até elaborar uma “saudade “.
“Os sinos já não tocavam, mesmo assim continuava a ouvi-los. Repicavam dentro dele, provocando indagações… Imaginava a melodia do sino como uma combinação de um bater de latas e a vibração das cordas de um violino.