Pré-leitura do livro FUTEBOL E DITADURA, organizado por Paulo Verlaine e Guilherme Rodrigues

OS AUTORES

São organizadores do livro o jornalista Paulo Verlaine, então coordenador de Acervo e Memória da Associação 64/68 Anistia e Guilherme Rodrigues, coordenador de marketing e projetos do Centro Cultural Ceará Sporting Club.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Futebol e Ditadura – a história de Nando – o primeiro jogador anistiado do Brasil” foi lançado em 2011, pela Editora Littere, com 188 páginas, prefácio de Paulo Verlaine, orelhas por Evandro Leitão (então presidente do Ceará Sporting) e Vera Felicio (do centro cultural).

O livro traz artigos em forma de depoimentos de Adelita Carleial, Airton de Farias, Antonio Pedroso Jr, Cecília Coimbra, Célio Albuquerque, Djacyr Souza, Evaldo Lima, Francis Vale, Guilherme Rodrigues, Iata Anderson, José Machado Bezerra, Juca Kfouri, Luiz Carlos Antero, Maria do Carmo Moreira Serra Azul, Mariana Lobo, Mário Albuquerque, Pedro Albuquerque, Raimundo Fagner e Sérgio Redes.

CIRCUNSTÂNCIAS

Em 1968, ano da decretação do AI-5, quando a ditadura escalou ao máximo a violência, atuava no futebol cearense o jogador Nando (irmão de três outros jogadores, Zico, Edu e Antunes). Atraído por um time português, transferiu-se para Lisboa. A polícia política de lá, conectada com a brasileira, começou uma perseguição de lances dramáticos. O livro relata tudo e faz uma ampla leitura política da conexão esporte-poder.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

O livro traz o caso particular de Nando e o insere na dura realidade brasileira dos anos de chumbo, com uma abordagem ao mesmo tempo política e humana.

Abusos e absurdos cometidos por autoridades e instituições brasileiras contra cidadãos (e cidadãs) brasileiros são relatados e analisados. Embora haja análises de alto nível teórico, o texto é jornalístico e acessível.

O Ceará Sporting Club deve ser aplaudido por essa iniciativa. Este livro é uma contribuição relevante para a história, precisa e merece ser lido, lembrado e citado.

O LIVRO

O livro Futebol e Ditadura é um importante registro histórico de como a quebra da normalidade democrática traz violência para toda a sociedade, alcançando até o futebol, seja para usar como propaganda de governo, visando legitimar até regimes autoritários, seja para dar espaço para bestas humanas que se comprazem em torturar e matar.

Jogadores, jornalistas, artistas, professores, historiadores e gestores públicos e privados, vítimas diretas ou indiretas, dão seu testemunho aberto sobre a estupidez da violência física e sobre a violência da estupidez política.

O Ceará Sporting Club deve ser aplaudido por essa iniciativa.

CURTAS (INSIGHTS)

“Nem Freud conseguiria definir o caráter de um repressor e de um torturador.

“Os crimes cometidos pela ditadura civil-militar que controlou o Brasil por mais de 20 anos permaneceram desconhecidos e os documentos que comprovam essas atrocidades continuam em segredo, assim como os testemunhos daqueles que cometeram tais crimes.

“A ditadura militar perdurou em nosso país por mais de duas décadas, e tantas infelicidades trouxe à nossa gente e aos que se insurgiram contra seus atos, que, martirizados nos cárceres, afastados de suas famílias, impedidos de viver normalmente, foram submetidos a torturas, prisões, constrangimentos e toda sorte de arbítrio.

“Sabe-se que é forte o conservadorismo nas hostes dirigentes de clubes de futebol, assim como o raio de liberdade dos jogadores na expressão livre de suas opiniões é muito estreito.

“O que a arte tem a ver com futebol, ditadura e direitos humanos? Tem coisas que só se pode entender pela lente da arte. E a relação entre futebol e ditadura é uma delas. Não dá pra entender — e sentir — senão pela arte.

“Em Fortaleza, os dois principais estádios foram construídos em épocas ditatoriais.

IDEIAS CENTRAIS (BONS MOMENTOS)

“Por que relacionar o esporte com a divulgação política de governos ditatoriais? No caso brasileiro, os militares procuraram estender seus domínios também pela cultura, facilitados pela paixão pelo esporte de milhões de torcedores, esportistas unidos pela veneração aos Canarinhos, que traziam as cores dos símbolos que representavam a pátria. Esse tipo de manifestação cultural, conveniente e sem contestação, interessava à ditadura militar, que via nesse nacionalismo exaltado e acrítico a formação do cidadão pacato e sem consciência política.

“Enquanto esporte coletivo, o futebol é sinônimo de fôlego, perseverança, respiração e transpiração. Contudo, o futebol também é luta de classes, catarse e poesia que surgem dos pés sonhadores do menino pobre para criar uma forma transcendente de arte corporal, com potencial para intervir nas lides políticas ou para transformar elementos da sociedade em que está inserida.

“No Brasil, o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), muito próximo do nazi-fascismo europeu, utilizou o futebol como elemento para forjar a identidade e o orgulho nacionais, articulando a comunicação entre as elites e a massa da população, através da imprensa, do rádio e do cinema. Foi o período de início da construção das grandes arenas esportivas.

“Os atores e algozes do nazismo brasileiro continuam aí, na mídia, no Congresso, nas várias esferas do poder, aguardando, travestidos de cordeiros, para dar o bote, como cobras traiçoeiras, às vezes não se contendo e mostrando os dentes com veneno, promovendo a discórdia, a divisão o individualismo, corrompendo, se vendendo, entregando, chamando a solidariedade e a cooperação de corporativismo, desmoralizando o que é coletivo e enaltecendo o que é privado, fazendo parecer ruim o que é correto.

“Em 1978, o jogador Reinaldo, do Atlético Mineiro, havia sido chamado para a seleção, após se tornar o recordista em gols no campeonato brasileiro, quando deu uma entrevista ao jornal de oposição chamado Movimento, a favor da anistia, da assembleia constituinte e das eleições diretas. Dias depois, na apresentação da seleção ao presidente da República, Reinaldo foi interpelado pelo próprio Geisel que, de dedo em riste, disse que o que cabe ao jogador de futebol era apenas jogar futebol, nada mais. O incidente causou comoção na seleção…

“Vi algumas pessoas sendo presas e colocadas no banco de trás dos carros que partiam tão logo atingiam sua ocupação máxima. Não vi violência maior do que essa, tampouco vi agressões, mas vi diversas prisões, gritos, confusão e correria. Quando já andávamos na direção de casa, pararam perto de nós os “tomara que chova” (os caminhões do Exército de carroceria aberta em que a tropa viajava à mercê do tempo), logo um fedor horrível de urina e suor tomou conta da esquina onde estávamos…

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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