Pré-leitura do livro ERA UMA VEZ O BRASIL… 1928 – 1968, de Dalton Rosado

O AUTOR

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participa do debate público escrevendo artigos na imprensa tradicional e em blogs independentes. Foi secretário de finanças de Fortaleza em 1985.
A PUBLICAÇÃO
O livro ERA UMA VEZ O BRASIL…1928 – 1968, de autoria de Dalton Rosado, foi publicado pela Editora Prêmius, em 2019, com 619 páginas.
CIRCUNSTÂNCIAS
O desafio de expor a formação da identidade brasileira está sempre aberto,  e pesquisadores ilustres já construíram a trilha mais larga, olhando para séculos de história, analisando e avaliando eventos marcantes, decisivos. Aí estão Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque, Raymundo Faoro, Celso Furtado e Darcy Ribeiro, para citar apenas os clássicos, pois a lista é enorme entre os que pesquisam e escrevem impondo-se os limites do rigor científico.
ERA UMA VEZ O BRASIL…foge desse padrão ao selecionar um tempo histórico recente, ao limitar o período a apenas quarenta anos, ao circunscrever a pesquisa (e o próprio texto) á linguagem jornalística e sobre tudo isso aplicar um olhar da própria época em que os fatos acontecem. Com todas essas restrições que o autor se impõe, mesmo assim, o livro cresce e ganha em substância. E assim contribui para responder ao desafio que as circunstâncias atuais indicam continuar cada vez mais aberto.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Ao se apresentar como uma obra escrita no limite entre a realidade e a ficção, o livro ERA UMA VEZ O BRASIL…abraça o leitor e obriga-o a refletir sobre onde estão as linhas demarcatórias de uma e de outra. E cada um pode fazer sua livre escolha e traçar as próprias divisões, embora os fatos sejam evidentes, porque apresentados com dados e detalhes que não deixam margem a dúvidas. Quando Dalton Rosado escolheu colocar lado a lado a música e a política para contar a história recente e expor a alma brasileira, seguindo a trajetória de cada uma das duas, deu ao livro uma originalidade e uma leveza únicas.
A leitura pode até fazer sofrer com os percalços políticos que ora atrasaram, ora fizeram o país avançar, mas o espírito vai se refescar e se deliciar em cada momento musical. Sim, porque parece que o livro canta.

O LIVRO

ERA UMA VEZ O BRASIL…1928-1968 começa com as articulações que vão desaguar na Revolução de 1930 e segue em ritmo bem compassado até 1968, quando o país se fecha. O autor vai selecionando fatos e relatando-os de forma direta, enxuta, sem proselitismos partidários e sem preferências artísticas. A música e a politica andam, avançam, dançam juntas. Todas as conexões indispensáveis com os eventos internacionais são feitas, o espírito de cada tempo se faz presente. Os fatos se superpõem e o leitor é levado a frequentar a redação de um jornal onde são articulados e interpretados (todos os eventos) por ângulos diversos. Um personagem criado pelo autor, um jornalista que cobre a área cultural (com absoluto destaque para a música), dá uma dimensão humana a tudo, mas as coisas para ele não terminam bem.

A estrutura do livro é simples, um ano, um capítulo.

INSIGHTS (Curtas)
“O aspirante a Maestro (se forma no próximo ano) Eleazar de Carvalho, um cearense que segue a tradição do seu conterrâneo Alberto Nepomuceno, estreou sua primeira ópera intitulada “O Descobrimento do Brasil“, encenada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
“Os paulistas querem o poder para si, os tenentes também, e usam o Getúlio. O Getúlio quer se perpetuar no poder e usa os tenentes, e isso vai até o dia em que eles se desentenderem.
“O Brasil foi o primeiro país do mundo a abolir a monarquia pela direita, ou seja, por militares conservadores…
“Eu acho que ele vai para onde as pressões diante do seu interesse de se manter no poder indicarem. Getúlio não vive sem o poder…Getúlio, antes de ser nazi-fascista, é getulista, mas se for do seu interesse, pode até virar comunista …
“A verdade é que pela primeira vez na América Latina tivemos um movimento revolucionário armado de conteúdo socialista que saiu vitorioso. Isso já é histórico.
“Assinado dia 23 de agosto deste ano o tratado de não agressão mútua entre Hitler, pela Alemanha, e Stalin, pela Rússia, após ocupar sem resistência a Áustria e a Tchecoslováquia…
“É ditadura mesmo, e das mais arbitrárias, porque conta com apoio popular.
IDEIAS CENTRAIS (Bons Momentos)
“Digam como enquadrar melodicamente nos ritmos conhecidos uma música linda como “Chão de Estrelas“, tanto do ponto de vista poético quanto melódico. Não há nada igual. Ela tem um pouco de valsa, mas não é valsa. Tem um pouco de samba (se quisermos apressar o seu andamento), mas não é samba. E tem um pouco da dramaticidade do tango, mas não é tango. No fim mistura tudo e se torna algo genuinamente brasileiro.
“Existem hoje no mundo três grandes projetos políticos em curso. O primeiro é o nazi-fascista ítalo-alemão, de cunho ditatorial, racista, xenófobo, de ultradireita, que deseja um capitalismo forte apenas para seus nacionais e que o mundo seja submetido aos seus interesses. O segundo, de natureza comunista, patrocinado pela Rússia, também de cunho ditatorial, estatizante, marxista-leninista, que pretende representar o interesse do proletariado, mas que tem a mesma pretensão de submeter o mundo a seus critérios que afirmam ser socializantes. O terceiro é o projeto tradicional do liberalismo burguês imperialista que disputa a hegemonia mundial. Todos eles querem aparecer como salvadores da pátria…
“Neste ano de 1928, nos luxuosos salões do Hotel Copacabana Palace, que já funciona desde 13.08.1923, quando foi inaugurado e onde os grã-finos se divertem. comem ou jogam no cassino, o Presidente Washington Luís foi atingido por um tiro dado por sua amante francesa durante uma briga. O Presidente foi socorrido pelo médico Francisco de Castro e se divulgou que sofrera uma crise de apendicite.
“Em 03 de dezembro de 1928, hospedou-se no Hotel Copacabana Palace, em profunda crise de depressão, o internacionalmente conhecido inventor do avião Alberto Santos Dumont que voltara ao Brasil a bordo do navio Cap Arcona e vários intelectuais e amigos do inventor pretendiam fazer mensagem de boas-vindas em um paraquedas e estavam todos a bordo de um hidroavião batizado com o nome do Pai da Aviação. Depois de uma manobra desastrada, o avião que jogaria pétalas de flores em seu barco bateu nas águas da Baía de Guanabara e explodiu, matando seus doze ocupantes, entre eles vários amigos de Santos Dumont.
“Pixinguinha: — Sambista é considerado malandro e ainda é preso por vadiagem, tido como capadócio. Outro dia prenderam o pandeiro do João da Baiana como se o pandeiro fosse uma arma, coloque isso no jornal. A polícia está dando batidas no Morro e prendendo a crioulada que tem calos nos dedos. Eles afirmam que quem tem calos nos dedos é malandro tocador de violão, eles dizem que tocar samba é pior do que ser comunista.
“A alegria e a esperança da música desses moços nos ajuda a resistir e a acreditar no futuro, e deles ainda se espera muito mais, pois só estão no começo, embora esse começo já tenha sido avassalador. O sambalanço de um Jorge Ben, a singeleza do afro-samba de protesto de Nara Leão, a alegria de Jair Rodrigues, a voz incomparável de Elis Regina, o drama de Maria Bethânia, o samba urbano e existencialista de Chico Buarque, a inventividade de Edu Lobo, a afinação de Cynara e Cybele, o contundente protesto de Geraldo Vandré, o tropicalismo de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes, Torquato Neto, Capinam e a iniciante Gal Costa, o samba vanguardista de Beth Carvalho, a pilantragem de Wilson Simonal, o panfleto melódico de Gonzaguinha, a força da voz pungente de Milton Nascimento vinda das montanhas de Minas Gerais são um sopro de vida nos nossos corações apertados nestes tempos de resistência á opressão, ao pensar e ao agir. Eles ficarão, e aqueles outros “no passaran“…

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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