Pré-leitura do livro ‘Dona Guidinha do Poço’, de Oliveira Paiva

O AUTOR

Oliveira Paiva nasceu em 1861 e morreu aos 31 anos (tuberculose). Escreveu dois romances e um livro de contos, publicados muito depois, em 1952 (Dona Guidinha do Poço), 1961 (A Afilhada) e 1976 (“Contos”). Foi jornalista e esteve no serviço público.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Dona Guidinha do Poço”, de autoria de Oliveira Paiva, foi publicado apenas em 1952, quando a crítica literária Lucia Miguel Pereira conseguiu localizar todo o texto (só parte dele o autor havia publicado em jornais de seu tempo, como era comum, então). Nasce como um clássico. Abre a Coleção Romances do Brasil, da editora Saraiva, com 256 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Oliveira Paiva inspirou-se num fato real noticiado e realizou pesquisas até fechar a história incomum de uma fazendeira. Escreveu o livro e foi publicando capítulos em sequência no jornal A Quinzena. Adoeceu e morreu antes de completar. Deixou com amigos a obra completa, e ela foi passando por várias mãos ao longo de sessenta anos.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Oliveira Paiva fez uma obra impactante na última década do século XIX, entre o realismo e o naturalismo. Estilo absolutamente original, texto inovador e de muita personalidade para um autor estreante. A trama de eventos do livro ‘Dona Guidinha do Poço’ era chocante para os padrões da época. Mas a leitura era leve, cheia de beleza, até nas agruras da vida sertaneja, castigada pela seca, pelo preconceito e pela violência.

O LIVRO

No momento em que foi escrito o livro, o padrão da vida nas fazendas era o poder absoluto dos ‘coronéis’ e a completa submissão das mulheres. Dona Guidinha do Poço, querendo, se encaixaria no desenho da época, mas não se submete. Ela pode agir como e parecer submissa, tanto quanto pode se revoltar e quebrar paradigmas. Guidinha até pode trair e mandar matar, se for o caso.

No livro, uma outra mulher recebe destaque, Lalinha, jovem, bela e de comportamento tradicional. Entre os homens, também dois principais, um maduro e típico coronel nordestino e um jovem inexperiente, mas ousado.

Oliveira Paiva joga com essas figuras um jogo de espelhos, de contrastes e de disputas.

Ao fundo, num ritmo suave, a realidade do sertão, a natureza. O texto único e belo de Oliveira Paiva costura tudo, sem deixar de fazer sua leitura crítica da sociedade.

CURTAS

“Margarida era como um palácio cuja fachada principal desse para um abismo”.

“Vejam se é possível em tão pouca terra, com tão pouca rama e pouca água, ter o bastante para tanta boca”.

“A pobreza faz preto ao branco. É que o senhor nunca soube o que é ser pobre”.

“Carolina e as cunhãs distribuíam aluá em cuias e aguardente em xícaras, mas havia dois copos da fazenda para as pessoas de certa ordem.”

“A piedade e o misticismo saíam da rocha e da planta, da rês e do vaqueiro, do vale que pede a contrição e do morro que inspira a reza. “

“Mercado sem normas! Preços extravagantes, negocinho de beira de estrada, comércio de corda ao pescoço.”

“Toda vez que há Congos o rei é preso, toda vez que há eleição o governo ganha”.

“Dê cabo de mim ou dele: um de nós deve desaparecer.”

“O que os olhos não veem o coração não sente”.

BONS MOMENTOS

“E aí está o nosso mal, replicava o sacerdote. O cearense só acha bom o que é de fora. A freguesia tem aqui muito rapaz bom e trabalhador, que vive sabe Deus como, e nenhum rico se lembra de ajudá-lo. Venha, porém, um de fora…venha um de fora, Deus me perdoe, e dão-se-lhe até…as mulheres.

“Essa matéria é delicadíssima. É preciso o maior cuidado contra o demônio da suspeita. Eu acho que, não tendo você uma prova inconcussa de infidelidade, não tem o direito de amuar-se por esse modo, assim do pé pra mão. Com prudência e sabedoria, tudo você poderá conseguir…E, meu amigo, o matrimônio é um sacramento, o que Deus junta o homem não separa. ..

“A Guida tinha isso consigo: toda vez que a possuía o patético, o trágico, o irremediável, um pranto oculto lhe trazia a nadar nas lágrimas sufocadas do íntimo a imagem da santa menina, mas dentro, no ser, no sangue, no pulso, quer dormindo, já acordada, ou nos trabalhos de casa, ou nas diversões do campo, ou nos ócios da vida rica.

“Mordia-a a saudade. Mas é um engano querer-se que sejam veementes, vulcânicos, assoberbantes, certos sentimentos. As aflições verdadeiras, legítimas, têm por cunho a brandura, um certo estado crônico; são como uma doença que se sofre em um órgão essencial à vida, mas que não nos perturba essa mesma vida, não no-la impede, que às vezes parece até não existir, e que só uma vez por outra nos avisa que estamos minados por ela, sem remédio.

“Lalinha vivia da própria seiva, da própria beleza, vivia de desabrochar. Mas a necessidade, demônio onipotente, começava a minar-lhe o ser com as infiltrações do amor, sutis, deliciosas, infernalmente celestiais. A menina vadiava com este sentimento como a criança com um punhal.

“Apois o diabo não diz que um dia um sapo magnitizou a muié no açude e qui a muié caiu pra trás? Ah! cabra, tu é mesmo mais é um cururu dos inferno! Ainda bem qui tu diz que quem matá sapo mate bem morto, porque senão o sapo vai secando e a gente também…Haverá de te dá o bicho da itiriça! Diabo qui ti mata, língua de briga! Mais quem fô neném que s’ingane contigo: pelos picos se vê a altura do monte. Este diabo come a pobe da Seá Dona Guidinha do Poço por um pé!

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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