O AUTOR
Carlos Gildemar Pontes é escritor, professor universitário, tradutor, revisor e ghostwriter. É doutor em Letras. Faixa preta de karatê Shotokan
A PUBLICAÇÃO
O livro “Contos Quânticos “, de autoria de Carlos Gildemar Pontes, foi publicado em 2024 pela Expressão Gráfica e editora, com 153 páginas. Textos de apresentação de Rubens Luís Pinto Gurgel do Amaral e Ignácio Ribeiro Pessoa Montenegro Jr. Posfácio de João B. Castro. Capa e contracapa de Herica Nascimento.
CIRCUNSTÂNCIAS
Carlos Gildemar Pontes tem larga e qualificada trajetória na literatura. Ele se aproxima rapidamente das três dezenas de publicações. Contos, crônicas, cordel e poemas, escreve em todas as linguagens— seu “Crítica da Razão Mestiça” tem outro e específico enquadramento na sua bibliografia.
Este “Contos Quânticos” vem atender à sede de seus leitores já regulares e fiéis e manter abertas e azeitadas as comportas e as engrenagens da sua produção criativa.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
O texto de apresentação de Rubens Luís Gurgel do Amaral apresenta com clareza solar as características da obra que devem atrair leitores e críticos, vejamos: “tenho de falar aqui da farta imaginação, da coragem em provocar o leitor, dos momentos de impudicícia, de bebedice, de mergulhos no visceral, no fantástico, no delirante. A dimensão do humano sempre ali …“. Para completar, o mesmo texto diz que o leitor deve “ler e reler, se deixar a esmo ou emoldurar”.
Ignácio Ribeiro Pessoa Montenegro Jr traduz a sua experiência na leitura do livro: “… em meu primeiro dia de férias, e sentir o quanto estava distante do maravilhoso universo que só a literatura, lida em livre cadência, é capaz de nos proporcionar“.
No posfácio, escreve João B. Castro: “em tempos em que ‘somos esmagados pela gravidade dos saberes’, como nos alerta Gildemar, ‘Contos Quânticos’ constrói uma ponte entre energia e matéria, para além da mente concreta do ser humano. Essa ponte brota da alma do poeta, ficcionista e esteta que percebe e sente a dor do mundo… “
O LIVRO
O livro de Carlos Gildemar Pontes se a estrutura em 40 contos, todos eles breves.
O autor aborda os mais diversos temas, universais e rigorosamente humanos. Tratam de Deus, da finitude, viagem no tempo, outras vidas e a interação humana. Nas palavras do próprio autor “são contos que atravessaram anos e podem ser classificados na categoria do fantástico, do maravilhoso, do realismo mágico… agora frequentam as ondas gravitacionais, envoltos na energia que busca reinventar o incriado, pelo simples fato de que a literatura é pulsão de vida“.
CURTAS
“… somos ego-ilhas em busca de pontes…
“… O maquinista acendia o cachimbo e soltava gordas baforadas de fumaça. Como de costume, viajávamos no fumo. Aprendemos com ele a linguagem dos sinais da locomotiva.
“… Eu não precisava me sentir culpado. Eu só precisava compreender por que o povo aceitava tudo sem revolta.
“… Foi assim que meu pai me ensinou a conjugar verbos, com chicote nas mãos. Aprendi a falar com as lágrimas e com os olhos culpados de não ser o homem do chicote.
“… Minha avó dizia que a pior solidão é a de não ter mais o pessoal da sua geração por perto. Pedia a meu avô para que nenhum dos dois ficassem aqui sem o outro.
“… Parece que estamos sendo esmagados pela gravidade dos saberes, restando as imagens de espelhos e os apagamentos das identidades que estamos perdendo numa velocidade…
“… Passou o tempo e tudo se desfez em dor, porque minha mãe sentiu antes a nossa dor, depois sentimos a dor emprestada da nossa mãe.
“… e a gente ia crescendo com uma saudade e um vazio. Às vezes, a saudade era maior que o vazio, e a gente chorava. Às vezes, o vazio era maior que a saudade, e a gente seguia com a dor.
BONS MOMENTOS
“… Índios no Paraíso, negros no inferno e brancos com chicote e o bacamarte nas mãos. Os brancos estupravam as índias e as negras e nós íamos crescendo com a culpa da raça estuprada. Os filhos deste estupro histórico foram se adaptando a uma vida de subserviência e indignação. Carregavam uma culpa de não serem filhos da casa grande, da escola, das roupas limpas, do sorriso com todos os dentes.
“… Saí para pescar cedo, queria trazer o tempero do almoço. Entrei na pequena vereda e senti o cheiro da folhagem respondendo aos primeiros raios de sol. Era cheiro bom de mato verde e de terra virgem, que ainda tinha muita para essas bandas. Pouco mais de dois quilômetros andei e avistei a pedra lisa que eu sentava para pescar. Arrumei tudo como de costume e esperei o vento trazer o rio que se foi na última seca.
“… No caminho do poeta tinha uma musa. Acanhada em seus véus, rezava pela salvação do poeta. Enquanto isso, o poeta queria lamber-lhe a vulva. A musa, ingênua em seu cheiro de mulher no cio, não sabia que aquilo que lhe mordia as entranhas era o cio. E o poeta, lobo do lobo, devorou a musa.
“… Isso tem tudo a ver com Deus. Mas o que é Deus? Quem é Deus? Quando é Deus? Essas perguntas eu me fazia desde o catecismo, ainda hoje uma aula chata com alguém suspeito de não ter descoberto o acaso. E depois Deus esteve presente na minha dúvida, na primeira comunhão…
“… a moda de vestir sobejos de americanos. Eu odeio os americanos por nos darem sobejos, e odeio os pastores que ganham dinheiro com as sobras. Eu odeio os pobres que se vestem de americanos. Depois de pagar a esposa enjoada do pastor, a gente ia pra casa, provar as roupas que minha mãe sempre consertava na sua velha máquina de costura Vigorelli.
“… até que, aos poucos, foram se delineando os grupinhos. De repente, apareceu um homem calmo. Seus olhos brilhavam verdes, lembravam os olhos do Cristo dos quadros das casas dos pobres. O vento logo tomou conta dos seus cabelos e seus passos foram ficando. Falou então de forma sóbria e resoluta. — Trouxe uma ideia do mato, vim para semear a paz, banir as guerras e não às ver jamais