Pré-leitura do livro ‘Confidências Literárias’, de Clauder Arcanjo

O AUTOR

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Entre contos, crônicas, romance, novela, poemas, discursos e aforismos, publicou doze livros.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Confidências Literárias”, de autoria de Clauder Arcanjo, foi lançado em 2021, pela editora Sarau das Letras, com 178 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Fora de sua terra e distante de sua família, em função do trabalho no início da pandemia, “confinado” num quarto de hotel, o autor, “tomado de emoção…escrevendo para não enlouquecer”, produziu textos tensos, intensos, dolorosa e bela prosa poética, um evento tão coletivo quanto solitário, na forma de diálogos íntimos e abertos entre leitor e escritor, vinte e três são eles, únicos todos.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Uma frase (ou mesmo uma só palavra) trocada com Clarice pode acender uma fogueira dentro de cada um — afinal, “o inumano é o melhor nosso, é a coisa, a parte coisa da gente”. Agora multiplique este pequeno clarão por vinte e três ao quadrado e coloque aceleradores e exponenciadores de emoção e de poesia, e o leitor terá uma noção da beleza silenciosa do livro de Clauder Arcanjo.

O LIVRO

O livro está estruturado em vinte e dois capítulos breves, cada um deles dedicado a um outro escritor. O diálogo leitor-escritor, de altíssimo nível de qualidade literária, se estabelece e tem potência e profundidade para emocionar mesmo o mais frio leitor. A seleção feita dos 22 é muito feliz, entre nacionais e estrangeiros, com expressivo número de mulheres. E os textos em verso e prosa selecionados para a troca de confidências são tão inquietantes quanto inspiradores.

CURTAS

“Rei não fui, engenheiro me fizeram, poeta me iludi.

“A vida teima em me filosofar. Mas não me entregarei fácil, estejam certos.

“Perdoe-me, mas não se ama medindo o que se diz ou escreve.

“A boa causa de mim se perdeu.

“Os versos perfeitos, suprema utopia, não podem fenecer. Uma vida sem tradução é letra-terra-morta.

“Você, leitor de fraque e cartola, saiba que meus poemas estão expostos, há quarenta dias, ao sol e à chuva. E ninguém, a caráter, os lê para mim.

“O fruto nos encanta e contenta, no entanto somente a semente nos eterniza. Com a sua morte, eis o milagre: frutifica-se em vera eucaristia, para uma nova vida: pão de Deus.

“A literatura é um tributo à loucura de si mesmo.

BONS MOMENTOS

“Os poetas caminham por entre a selva de tanto silêncio, a ouvirem o pranto-soluço dos esquecidos. Por entre os lamentos, com o sangue dos inocentes do bico da pena, de mãos feridas em solidariedade às dores alheias, eles (re)inventam o perfume da beleza, como bálsamo para as feridas do mundo. Rogando a Deus que, dali em diante, o milagre habite-nos em forma de gestos-rosas, a reflorarem nas nossas mãos de vidro.

“Foi o suficiente, bastando um soluço para que haja existência. Basta um suspiro para que se instale o amor. Basta um grito malposto para que se instale a dor. A aflição do esquecimento, do abandono, do desamor. E, se ao final, tudo lhe faltar: soluce, suspire, grite. Mas não desista do rego da flor.

“Sempre acredito no milagre da noite. Apesar do seu escuro e nebuloso destino, no seu colo sempre me incendeio de inspiração; e as estrofes nascem, vozes a gravitarem diante dos astros na minha vigília. Ladino, finjo não entender tal clamor para, logo cedo, ver luzir no pálido borrão da mesa da manhã. Entre xícaras e frutas, entre pães e outras ofertas. Poema, café completo.

“Quando me banhava no rio Acaraú, suas margens prenhes de oiticicas, sentia-me em parte herói-criança, em parte mesquinho e reles ribeirinho. Contudo, ao mergulhar nas águas em remanso, florava em mim a flor da mágica alegria, enquanto naufragava, no sossego do meu corpo, a avareza que recobria os meus tacanhos dias. Na manhã em que me encantei com a poesia, acreditem, o rio para mim se fez um poema épico infindo.

“Como escrevinhador de província, a montar nesses fiapos de utópicas nuvens, rabisco meu verbo e agarro-me à ilusão de que, caso outros encante, esses se compadeçam de meu povo e tornem-lhes a lida menos injusta e cruel.

“Homens de valia poucos havia. Senhores de simples ações e olhos luzeiros, a iluminarem de esperança a provinciana terra com sua palavra magra, todavia vera e sincera. Entre eles, disfarçados como pragas malsãs, miserentos embusteiros, malditos a se cumularem de dinheiro e a se empobrecerem de dignidade. Em Licânia, alguns malsinados alcançavam a “fama” de doutores ou de rotundos coronéis. Para o povo nenhum engano: bosta pura, muita pose e pouco mel.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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