Pré-leitura do livro CLAUSTROMAQUIA, de Airton Uchoa

O AUTOR

Airton Uchoa é escritor, leitor e sobrevivente.

A PUBLICAÇÃO

O livro “CLAUSTROMAQUIA – Ou o isolamento social do homônimo Quintino Cunha e seu lento metabolismo”, de autoria de Airton Uchoa, foi lançado em 2021, em edição virtual, com 207 páginas. Ilustrações de Eduardo Francelino.

CIRCUNSTÂNCIAS

Muito já se disse e muito já se escreveu sobre a solidão. Mesmo assim pouco se sabe e pouca gente se sente capaz de viver só, de relacionar-se consigo mesmo, com os pensamentos inoportunos e com as ideias e emoções inconvenientes. Nestes tempos hostis, estranhos e desafiadores, as pessoas foram obrigadas a se isolar, abandonar todas as suas rotinas e conviver com uma ameaça grave. Sem aviso, sem mínima preparação, as pessoas foram jogadas num ambiente de claustro por prazo incerto.

Claustromaquia é um romance incomum sobre a experiência de um certo Quintino Cunha, meio contador, meio escritor, nesse enfrentamento.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Claustromaquia é pura literatura em tempos inusitados, uma trama singular, escrita no fluxo de consciência do protagonista que tem de parar tudo para pensar em tudo, pouco pode mover-se, quase proibido de conviver. A experiência virtual e individual de um claustro real e coletivo (isolamento social), só a pandemia oferece, como este livro.

Para dizer dos muitos méritos da obra, basta registrar que ela foi selecionada em concurso público e já chegou ao cinema.

O LIVRO

Tudo começa com uma curiosa mensagem que chega no celular: “Preciso ir cada vez mais longe”.

O autor marca e conta as horas durante 26 dias, dividindo o tempo com o calendário e o relógio, sem estresse. Textos curtos, afiados, originais, de qualidade alta.

Sócrates, Platão e Aristoteles, entre outros, como Democrito, o Metabolismo e o Paz de Espírito, dialogam com Quintino e trocam suas ideias, todas apresentadas com singular simplicidade, num ritmo quase natural.

Claustromaquia lê-se de um fôlego, mas merece ser sorvido lentamente.

INSIGHTS

“Já declarei que somos um risco mais que potencial uns para os outros; somos uma forma de contágio anterior aos vírus e os vírus mesmos são feitos da matéria que roubam de nós…

“…ninguém estará preparado para o que pode acontecer em 2120. Em 2020 ninguém estava preparado para o novo vírus. Em 1920 ninguém estava preparado para o Influenza.

“É como acontece com os vírus; são guiados apenas por um senso de oportunidade brutal; não podem desperdiçar nenhuma chance.

“Sinto tão pouca falta de pessoas como sinto pouca fome; como pouco e poucas vezes.

“Uma coisa dolorosa, complicada e incompleta. Se chama amor…

“…as pessoas são injustas e capazes de calúnia e difamação até mesmo por tédio.

“Diz Aristóteles, na Política, que o homem que se afasta da sociedade, da pólis, e se isola, como se não dependesse da comunidade humana, só podia estar ou acima dos homens ou abaixo dos homens, ou era um deus ou era uma besta embrutecida.

“Ninguém suporta mesmo quando a gente tem ideias fora do papel; as do papel toleram porque são de papel.

“A vida tem o dom constante da intromissão.

“Minha teoria é a de que causo incômodo por outras razões, e as pessoas simplificam tudo dizendo que sou estranho.

“Se duvidar eu sou até feliz.

“Dormir é inevitável, mas quanto tempo vou demorar até conseguir?

“…não posso editar o que sabem de mim, o que pensam que sabem de mim, o que lembram e o que pensam de mim, o tanto de mim que acabam esquecendo. Como eu poderia transformar isso num livro?

BONS MOMENTOS

“Agorafobia, o medo dos espaços abertos, não é o meu caso. Minha questão é o apreço pelo espaço fechado o mais familiar: claustromania. A questão é que o nome ainda não soa muito bem; claustrofilia não está numa situação muito diferente. Um nome lembra os assassinos compulsivos e o outro os criminosos sexuais, Deus meu. Como é que se joga a sabedoria num mundo que desconhece a interpretação das palavras e das coisas? Pensei em filoclaustria, mas…

“Eu podia até aproveitar o tempo livre e, mesmo, a insônia, pra fazer uma lista dos meus problemas, e a mensagem recebida por engano não era um deles. Uma lista dos meus problemas, um ponto de partida, já até fazia um pouco parte dos meus planos. Tudo bem, era uma lista de impedimentos, mas os impedimentos eu posso chamar de entraves, os entraves de contratempos e os contratempos de problemas. Não significa que depois eu vá fazer uma lista de possíveis soluções. Devo me sentir psicologicamente aliviado apenas elaborando a lista dos problemas. Fazer listas é tão útil, inclusive, que já se justifica por si.

“Eu só não tenho o hábito de pensar nos ausentes; imagino que isso ainda não seja crime. Não desejo o mal de ninguém e não sou eu mesmo uma pessoa má, sei disso o bastante pra não precisar me justificar. Só me acontece de os outros não me fazerem falta; logo, o isolamento social rígido, como chama o governador, tem sobre mim um efeito limitado, se não é mesmo conveniente em muitos pontos.

“E a palavra que eu preciso lembrar eu esqueci. Eu li mesmo isso num livro (era um livro americano, e nele o pai tentava proteger o filho num mundo devastado) e, na hora, achei que não fosse mais que uma frase de efeito: a gente se esquece do que quer lembrar e se lembra do que quer esquecer, não é que funciona de verdade?

“… o que temos que estabelecer é um domínio linguístico do cotidiano: não podendo dominar um mundo imenso, controle bem o seu pequeno espaço, saiba nomear as coisas rotineiras ao seu redor e você nunca ficará sozinho. Nunca? Não, não: sozinho até vai ficar, e é provável que fique, mas sozinho e em paz.

“Se não era medo, era certo egoísmo da minha parte preferir a solidão: eu escolhia a solidão pra não ter que me dedicar nem me sacrificar a ninguém, mas a vida solitária pode se tornar uma coisa triste, era o que raciocinava o meu colega. Era egoísmo da minha parte, ele disse, e riu. Eu pensava nele como Paz de Espírito; foi a primeira pessoa que chamei assim.

“Os anos, por sua vez, não devem se somar de dez em dez para formar as décadas, nem as décadas de dez em dez para formar os séculos, nem os séculos de dez em dez para formar os milênios. A História, se ainda valer a pena contar, que se organize de outro modo. Vita Brevis. Sabemos que é pouco, mas não sabemos quanto é, sabemos que é curto, mas não sabemos quanto dura. O relógio e o calendário, os prazos e as agendas, viram apenas ilusões convenientes num mundo de coisas produtoras de dinheiro, aquilo que impede o caos e o desespero.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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