Pré-leitura do livro “Camisa de Força Ideológica”, de André Lara Resende

O AUTOR

André Lara Resende nasceu em 1951, é doutor em Economia e participou da concepção do Plano Real, tendo trabalhado por 30 anos no mercado financeiro. Publicou cinco livros.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Camisa de Força Ideológica – a crise da macroeconomia”, de autoria de André Lara Resende, foi publicado em 2022, pela editora Portifolio, com 95 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

André Lara Resende tem uma formação sólida o bastante para questionar os consensos que o mercado financeiro e os países mais ricos “vendem” ao mundo como a única tradução possível da teoria econômica, mas que, na verdade apenas convém a seus interesses e a suas conveniências. No foco estão o papel do Estado no desenvolvimento de uma nação e a teoria monetária (onde ponteiam os bancos centrais e os conceitos de dívida , crédito e moeda). O livro, em forma de ensaio, joga luz sobre estas questões e contradições e reflete sobre o economista profissional.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

A macroeconomia entra no debate público há séculos como se fosse ciência exata, baseada puramente na racionalidade e livre de qualquer viés ideológico. Até empenha-se em dizer que tudo confirma, através de equações e modelos matemáticos.

As pessoas que estudam a questão, e mesmo aquelas que apenas tendem ao bom senso, percebem que os fatos históricos desmentem cabalmente os dogmas tão repetidos histórica e cotidianamente.

Este livro dá uma contribuição objetiva, valorizando este relevante debate, mostrando que há mais do que um viés, há uma camisa de força ideológica.

Leitura mais que recomendável para economistas, políticos e jornalistas.

O LIVRO

André Lara Resende vai direto ao ponto e expõe com clareza as contradições entre o discurso e as práticas, os grandes prevalecendo sobre os pequenos, os poderosos sobre os frágeis. De saída, o leitor é esclarecido sobre o que vai encontrar. O texto consegue ser acessível, mesmo quando se refere à teoria econômica, basta a leitura atenta.

Sim, há referências a moeda, crédito, dívida pública, juros, bancos e bancos centrais. Alguma compreensão mínima sobre estas questões ajudará o leitor. Da mesma maneira alguma informação preliminar sobre a crise bancária de 2008 e a da pandemia é fundamental.

O autor quebra paradigmas, por exemplo quando diz que a moeda equivale a um título de dívida pública (no contexto da Nova Teoria Monetária, significa que o Estado pode emitir moeda sem provocar inflação). Ou quando explica que toda a estratégia dos protagonistas do mercado visa conter o Estado, limitando deliberadamente sua ação de desenvolvimento.

INSIGHTS

“Porque pretende organizar a atividade humana, a teoria econômica é inevitavelmente ideológica. Suas histórias procuram ordenar a sociedade segundo valores e interesses não explícitos.

“…deveria ter ficado evidente que moeda é dívida. É uma perpetuidade que não paga juros, mas de toda forma é dívida pública.

“…a dívida pública é hoje a moeda que paga juros.

“Nas sociedades contemporâneas, a teoria monetária hegemônica é um arcabouço conceitual cujo objetivo é restringir e direcionar o poder estatal, agora em benefício do capitalismo financeiro.

“Só o Estado é capaz de criar poder aquisitivo sem poupança prévia. No mundo contemporâneo, só ele e seus concessionários, os bancos com acesso ao banco central, podem criar poder aquisitivo não lastreado em ativo existente.

“Não é a expansão dos depósitos que leva os bancos a conceder crédito, mas a decisão de conceder crédito que expande a moeda. A expansão da moeda então retorna, parcialmente, como depósito.

“Luís XIV não tinha água encanada nem luz elétrica, muito menos acesso à internet. Dependendo do valor atribuído a tais comodidades, podemos nos considerar mais ricos do que os reis do Século das Luzes.

IDEIAS CENTRAIS

“Durante séculos, a exigência de lastro metálico para a cunhagem de moedas foi uma forma de restringir a criação de poder aquisitivo ao bel-prazer do poder central. Ao obrigar o Estado emissor a acumular ouro e prata para gastar, restringia-se sua faculdade de criar poder aquisitivo de forma discricionária, mas também a produção e o comércio, travado pela iliquidez e pela falta de crédito. A solução do padrão-ouro, ao combinar a moeda metálica do poder central com o crédito bancário livre de exigência de lastro, manteve a restrição sobre a emissão primária e a faculdade do Estado de criar poder aquisitivo, mas deixou irrestrita a expansão do crédito bancário. Estava resolvida a tensão entre a necessidade de restringir o abuso de poder do Estado e a iliquidez crônica das economias medievais.

“Neste início de século XXI, depois da crise financeira de 2008 e da pandemia de 2020, não há mais como invocar a teoria econômica para, em nome de um conhecimento científico, impor um limite à faculdade do Estado de dar crédito e criar poder aquisitivo. Tal limite é necessariamente um limite político, expresso na legislação e no desenho institucional, que deve ao mesmo tempo impedir o abuso, tanto pelo Estado como pelo sistema bancário, mas não restringir o bom uso de tão poderoso instrumento.

“…o capitalismo financeiro, associado à revolução informática, está à frente de uma nova era de igualmente extraordinários ganhos de produtividade e concentração de riqueza. Neste início do século XXI, as contradições de uma relação incestuosa entre uma tecnocracia a serviço do capitalismo financeiro e os ocupantes do Estado, políticos eleitos e servidores públicos atingiram um ponto de ruptura que ameaça a viabilidade das democracias representativas das economias capitalistas contemporâneas.

“A alta dos juros agrava o desequilíbrio fiscal, como reconhece a própria macro convencional; é distributivamente regressiva e pode elevar as expectativas de inflação, como sustenta a conjectura neofischeriana. Há razões para crer que a alta dos juros, independentemente do efeito sobre as expectativas, eleva também a própria inflação.

“É possível ser capitalista iliberal e liberal anticapitalista? A resposta, claramente, é sim. Embora haja uma tendência a associar liberalismo e capitalismo, a verdade é que o capitalismo pode perfeitamente ser iliberal. A China é hoje a demonstração cabal do sucesso do capitalismo autoritário e antiliberal…a questão mais relevante é saber se a democracia é compatível com a boa governança do Estado no capitalismo contemporâneo…

“A democracia não é, como sustenta Ortega Y Gasset de acordo com a definição clássica, o poder exercido pela coletividade dos cidadãos, mas um arranjo institucional pelo qual indivíduos garantem o controle do Estado e do poder decisório através da competição por votos. As eleições não têm como objetivo escolher representantes da opinião e da vontade da população sobre diferentes temas e propostas, mas sim a escolha de indivíduos que controlarão o Estado e tomarão decisões por conta própria.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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