Pré-leitura do livro “Biografia do Abismo”, de Thomas Traumann e Felipe Melo

OS AUTORES

Felipe Melo é doutor em ciência política, mestre em estatística, professor universitário e escritor, além de fundador e diretor da Quaest, empresa de pesquisa;

Thomas Traumann é mestre em ciência política e jornalista, tendo sido porta-voz da presidência da República e ministro da Comunicação. É também escritor.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Biografia do Abismo”, de autoria de Felipe Melo e Thomas Traumann, foi publicado em 2023, pela editora Harper Collins, com 248 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Durante seis eleições presidenciais, desde 1994 até 2014, o Brasil assistiu disputas diretas e acirradas entre candidatos progressistas e conservadores do PT e do PSDB, em ambiente democrático civilizado. Nunca houve violência, fanatismo e ódio, muito menos golpismo. Desde o pós-eleitoral de 2014 o clima foi azedando, e na eleição de 2018 instalou-se o discurso da “polarização”, com um dos lados restringindo o debate a temas como aborto, armas, comunismo, sempre atacando a política, demonizando os políticos e enfraquecendo as instituições. Os autores mostram esse processo que se agudiza até 2022, indo além da polarização. É a calcificação, um nível extremo de radicalização. E o comportamento agressivo, de ódio, se espraia nas diversas esferas da vida social, até entre amigos e familiares.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Os autores são altamente qualificados como cientistas políticos e analistas da cena brasileira. E dominam os campos do jornalismo e da pesquisa social e política. Com rigor acadêmico, mas sem fugir da boa técnica do texto jornalístico, o livro oferece discussão e opinião sobre tema complexo, delicado e ainda “quente”.

Este comportamento é relativamente recente, não é exclusivo do Brasil e desafia estudiosos. Este livro é uma contribuição oportuna e relevante à compreensão da grave ameaça que representam atores sem respeito à democracia, sem apego à civilidade e sem compromisso com a verdade.

INSIGHTS

“O Brasil da polarização extrema se aproximou do abismo de um conflito sem volta nas depredações de 2023.

“A Justiça e o Ministério Público desperdiçaram a oportunidade de aprimorar o combate à corrupção ao transformar a investigação da Lava Jato numa caça às bruxas partidário.

“Não há inocentes nas instituições brasileiras, e os ingredientes que levaram a política ao descrédito a partir de 2013 seguem todos vivos, destilando a frustração e o ressentimento de milhões de eleitores.

“O grau de instransigência na sociedade só chegou a este ponto por causa da participação ativa de empresas, escolas, jornais, TVs e corporações das redes sociais.

“Um presidente que se coloca contra a vacina merece uma avaliação distinta e mais severa que um homem comum que acredita que Bill Gates vai inocular um vírus no seu organismo, escreveu o jornalista Fernando Gabeira.

“Numa sociedade calcificada, toda decisão polarizada incentiva uma reação. Como na terceira Lei de Newton, a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade em sentido oposto.

IDEIAS CENTRAIS

“O abismo é o mal a ser enfrentado, mas também é o risco de nos tornarmos justamente aquilo que combatemos. O monstro é o outro, mas também pode ser um espelho das nossas atitudes. O abismo com que a sociedade brasileira se defronta hoje pode ser a sensação quase niilista de que não existe saída para esse impasse, de que uma reconciliação nacional é impossível. Ou pode ser o grande desafio a ser enfrentado e superado. Este livro é a biografia do abismo.

“A opinião pública brasileira passa por uma crescente bolhificação, isto é, um processo no qual os brasileiros estabelecem contato quase exclusivo com pessoas que pensam de maneira similar sobre política, formando as chamadas “bolhas”. A bolhificação da política é consequência de um novo ecossistema de comunicação enviesado…

“Viver em um país no qual a política transbordou é complexo. Lidar com a intolerância requer boa vontade, esse sentimento tão raro no Brasil de hoje, é uma convergência sobre os limites de até que ponto o antagonismo é aceitável.

“Em uma sociedade calcificada, o cálculo aritmético de dois mais dois perde parte do seu sentido. Um candidato pode não se eleger para fazer valer a política pública ‘a’ ou ‘b’, mas apenas para impedir que o adversário faça ‘x’ ou ‘y’. Um país que se mantém assim será incapaz de enfrentar os problemas econômicos, climáticos e sociais do seu tempo.

“Em novembro de 2010, como conta o filho primogênito Flávio no livro ‘Mito ou Verdade’, Bolsonaro recebeu de assessores os vídeos de um debate na Câmara dos Deputados sobre um projeto do Ministério da Educação para o combate ao preconceito nas escolas. Bolsonaro foi o primeiro a enxergar a oportunidade nas cartilhas que seriam enviadas a professores. Batizou o material de ‘kit-gay’, acusou o PT de ‘incentivar o homossexualismo’ nas crianças e impor a ideologia de gênero nas salas de aula. A denúncia o tornou popular entre os religiosos conservadores, o aproximou da bancada evangélica e tornou seu discurso virulento frequente em programas sensacionalistas, como Superpop e Pânico na TV.

“A eleição presidencial de 2022 ressaltou vários medos e inseguranças presentes na sociedade brasileira. Ao contrário dos pleitos anteriores, o resultado não foi decidido por temores sobre a capacidade do candidato X em tocar bem a economia, controlar a inflação ou gerar empregos. Foram os medos de que o eleito em outubro de 2022 mudaria a legislação sobre o aborto, fecharia as igrejas, destruiria a floresta amazônica, interviria no Supremo Tribunal Federal, censuraria as redes sociais ou restringiria os direitos das minorias que ressaltaram o caráter de tudo-ou-nada da eleição. Muitos eleitores votaram como se sua sobrevivência estivesse sob ameaça.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.