Pré-leitura do livro “Anos de chumbo e outros contos “, de Chico Buarque

O AUTOR

Chico Buarque é carioca nascido em 1944. Compositor, cantor e ficcionista, compôs centenas de músicas, escreveu quatro peças de teatro e lançou nove livros. Em 2019, venceu o Prêmio Camões pelo conjunto da obra.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Anos de Chumbo e outros contos“, de Chico Buarque, foi lançado em 2021, pela editora Companhia das Letras, com 108 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Em função de seu posicionamento político, sempre se espera que Chico jogue alguma luz sobre a realidade brasileira. Há um ano ele lançou “Essa Gente“, livro em que só pontualmente ele fez referências ao momento do país. De novo a expectativa para o novo livro. Neste “Anos de chumbo“, o escritor avança na leitura que faz e embora não seja explícito (pelo menos em termos políticos), esculpe com senso agudo perfis brasileiros, mesmo que ele tenha espaço curtíssimo para expor sua visão ampla e profunda. Os textos são leves, mas a tragédia está lá, nas linhas e entrelinhas.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Chico Buarque aperfeiçoa e refina seu estilo. Neste livro ele sintetiza o comportamento brasileiro em personagens e eventos de oito contos. Descreve o cotidiano de pessoas comuns e situações aparentemente banais, usando uma linguagem que quase anestesia o leitor, para mostrar absurdos e aberrações das relações e de comportamentos que, de forma estranha, vão se tornando toleráveis, e não pararão de acelerar rumo a algum abismo que não parece estar longe.

O LIVRO

O livro se compõe de oito contos independentes. Cada leitor fará a conexão que lhe parecer adequada, ou não fazer nenhuma. A grande e evidente conexão é com o Brasil dos dias correntes. Um dos contos, por exemplo, relata um evento ocorrido num aeroporto, tendo como personagem central um “grande artista“, mas pouco fala do artista. No conto, a palavra “ódio“ só aparece uma vez, mas a palavra raiva aparece oito vezes, e a palavra canalha, quatorze. Noutro conto, a relação de duas famílias de militares é colocada como espelho do trabalho dos dois oficiais e há consequências do desnível hierárquico entre eles. Clarice Lispector inspira um dos contos, assim como uma moradora de rua que se refere a um planeta distante chamado Labosta.

Não espere o leitor nenhuma linguagem grave ou situação dramática. O texto do autor tudo suaviza, e mesmo diante de alguma monstruosidade, pode haver um certo humor, alguma ironia. O estilo do autor é o que o livro tem de belo.

CURTAS
“Sugeriu que eu desse mais um mergulho e me acompanhou até a beira da água, molhando a sola do seu tênis plataforma. Quando saí do mar ele disse que sentiu uma vontade de comer meu rabinho.

“As outras três ou quatro pessoas que estavam por perto não haveriam de ter notado seu gesto, pois num banheiro masculino ninguém se olha.

“Sem saber o que fazer, o grande artista se olhou no espelho bem no momento em que estava envelhecendo.

“Já era noite quando foi despertado pela raiva. A raiva que ele vinha abafando até então retornou em seu pior estágio, o de raiva fermentada.

“Não uma sombra no chão ou na parede, mas sentada para o jantar, vendo televisão, abrindo a geladeira. Uma sombra avulsa, sem um corpo que a justifique.

“O que não falta por aí é gente com instinto de polícia.
“Com a violência reinante nas ruas, é claro que andam armados, para o caso de se defrontarem com delinquentes.

“Estar em silêncio com Clarice Lispector não diferia muito de ler Clarice Lispector, só que era um modo mais intenso de o fazer, para quem como ele tinha os livros dela em permanência na cabeça.

BONS MOMENTOS

“Agora, pelo que entendi, o major defendia uma drástica redução das despesas com alimentação, vestuário e atendimento médico dos detentos. Para tanto, meu pai deveria se ater aos interrogatórios efetivamente úteis aos serviços de inteligência. Não havia por que gastar tempo e recursos com prisioneiros inflexíveis, como que feitos de estanho, nem com aqueles que já tinham dado o que tinham para dar, aos que enlouqueceram, os que viraram zumbis. Eram todos velhos conhecidos do meu pai, que tinha como que se afeiçoado ao sofrimento deles.

“Houve ainda um quiprocó, pois a editora deu por falta da primeira parte do material enviado, sem atinar que o romance principiava de fato com uma vírgula: mais tarde telefonaram para cobrar a última página, porque o romance terminava com dois-pontos. Não, não se decidira ainda entre dois títulos, só lhe revelava em sigilo que o romance falava de um casal profundamente apaixonado, sem pressa de consumar o seu amor.

“Não acreditei que a Cida viesse com conversa de extraterrestre, mas segundo ela o Ló vinha realmente de outra constelação, de um tal planeta chamado Labosta. O Ló até lhe ensinava palavras na língua de Labosta, para quando eles finalmente pudessem se estabelecer por lá. Outro dia ele lhe trouxe do planeta um anel de compromisso, para que ela não botasse chifre nele durante suas ausências. As joias que ele lhe dava estavam guardadas na sua caixa de sapatos, que depois de muita relutância e mediante uma nota de cinquenta, ela me abriu. Eu nada disse, mas ela ficou ofendida com a minha cara, era a cara de quem vê um punhado de areia e brita no fundo de uma caixa.

“Costumo namorá-la em casa de tarde, à saída da escola, quando o meu primo vai para o curso supletivo em que ela o matriculou. Á noitinha caminhamos de mãos dadas cinco quadras até a entrada do prédio onde mora seu outro namorado. Ela sempre sugere que eu dê uma subida, mas prefiro não ver os dois juntos, mesmo tendo aprendido a não ser possessivo. Compreendo sua afeição por ele, que é um homem mais velho, professor de história e militante de movimentos sociais. É ele quem conta a ela, que por sua vez me conta, dos grupos armados que ao cair da noite saem vestidos de branco em expedições punitivas pelas ruas do bairro.

“O xerife, na língua dos policiais, é o maior arrebentador de pregas dos moleques que baixam no distrito. De volta em casa, é óbvio que não menciono o xerife para minha mãe, mas caio no choro ao contar os tapas que tomei na cara. Quanto aos primos, vi quando ficaram nus e apanharam com barras de ferro na sola dos pés, mas não sei explicar por que não foram soltos comigo; por sorte, minha mãe tem um amigo delegado que vai resgatá-los no dia seguinte.

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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