Pré-leitura do livro ‘A Razão de Acácio’, de Clauder Arcanjo

O AUTOR

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Entre contos, crônicas, romance, novela, poemas, discursos e aforismos, publicou treze livros.

A PUBLICAÇÃO

O livro ‘A Razão de Acácio’, de autoria de Clauder Arcanjo, foi publicado em 2022 pela editora Letras Selvagens, com 168 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

A relação entre o escritor Clauder Arcanjo e o seu personagem Companheiro Acácio inspira e dá vida e substância mais que suficientes a um livro. E assim acontece nos primeiros capítulos que são postados semanalmente num jornal digital. Conversas encantadoras entre amantes sinceros e dedicados da boa arte de escrever. O ritmo é deliciosamente lento.

E acontece a pandemia. Nada será como antes. E a vida invade a arte. E o livro absorve o drama, só que o tempera com leveza, ironia e humor em boa medida. O ritmo muda, muda o cenário. E a pequena cidade do interior Licânia se transforma num teatro aberto, retrato em miniatura de um Brasil inacreditável, fantástico, surreal.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

A trajetória de Clauder Arcanjo na literatura já o eleva e distingue. A Razão de Acácio é mais um passo no caminho sólido de um autor que vai se fazendo pleno. Não são muitos os escritores que ousam avançar no campo da crônica do cotidiano e fazem uma crítica das circunstâncias (incluindo a estrutura de poder) usando o humor. O Brasil ridículo dos dias atuais também aparece em Licânia.

O LIVRO

O leitor encontrará neste A Razão de Acácio, ao longo de brevíssimos 39 capítulos, personagens fascinantes, um deles, o próprio autor.

Companheiro Acácio, que dá título ao livro, é o esquisito sujeito que lê muito, escreve bem, cita com aprumo, faz crítica literária honesta e sabe usar as palavras como flores ou punhais. Perdoa o erro, mas é intolerante com o clichê e despreza a mediocridade. Acácio é o amigo literário perfeito, porque implacável.

Nabuco é figura menos central, mas está sempre bem posicionado. Pensa o tempo todo, fala com os olhos e, eloquente, sempre é ouvido. Não é um personagem comum. É quase selvagem. Não é fácil enfrentá-lo — ele usa garras, age como um felino. A leitura sobe um tom cada vez que ele entra na história.

A Razão de Acácio acontece num mundo próprio, no limite invisível entre realidade e invenção. Viaja da capital para o sertão. Clauder sopra a alma de cada novo personagem e os torna reais. Tão reais são alguns que você os encontrará na mesa do café da livraria, outros jamais pisarão tal chão. E seguimos o texto deslizando uma trilha de significativas descobertas, diálogos cheios de intriga, desdobramentos e desfechos impensáveis.

CURTAS

“Às vezes me inquiro se a proximidade da morte me fará um homem melhor. Certas coisas só o tempo me trará a resposta. Habemus tempore.

“Já capei três, e dois a mais não me pesará na conta.Quem quer ser o primeiro? …gritei, levando a mão a um dos bolsos da calça…

“Neste instante, Nabuco arregalou-me o olhar. No fundo, a pupila rubra, como se marcada pela raiva do discípulo fiel, ao pressentir o desrespeito ao venerado mestre.

“Acho que alguém invadiu nossas redes sociais, passarei o caso para investigação, mais uma quebra de sigilo, por parte do Supremo.

“A literatura, Clauder Arcanjo, resistiria sem a droga da vaidade? Escrever não seria, antes de tudo, um ato de exibicionismo pessoal? Se eu quero ser aprendiz e humilde, não seria o caso de parar de escrever?

“O maior tributo a um grande mestre é não imitá-lo, toda imitação no campo das Letras cheira a fraude literária.

“Por enquanto, acredite em mim. Ou se não, vá para a baixa da égua, leitor descrente de uma figa!

BONS MOMENTOS

“Nisso, achega-se de nós um “promissor talento literário”, festejado por onze entre dez blogueiros culturais da Loura Desposada do Sol; e, sem meias palavras, mas com meias verdades, se dirige ao Companheiro Acácio, com uma presunção de vencedor do Nobel:
— Meu novo livro já nasce clássico, antes mesmo de ser publicado; sabia, mestre Acácio? Foram as palavras do meu editor — asseverou, em tom altissonante.
Foi a gota da água; Companheiro Acácio pede-nos licença e se levanta. Em seguida, alega o início de uma crise de enxaqueca e me deixa, sozinho, com a vaidade daquele novo Baudelaire cearense.

“ — Acácio, você bem sabe que eu sou um tremendo bobalhão! — assumi, sem perda de tempo. — Tenho melhorado com o seu convívio inteligente, porém a herança que carrego dos meus livros de autoajuda, das novelas de rádio, dos conselhos de botequim, dos filósofos de fancaria, dos poetas de mau tino, dos políticos afeitos ao bom discurso e ao mau exemplo… são tão fortes quanto eu. E despontam nas minhas palavras, tal qual uma cola difícil de me livrar. Desculpe-me, amigo. Desculpe-me, mais uma vez.

“Em muitas situações, o silêncio professa mais solidariedade que o palavreado oco e, no mais das vezes, descabido.
Pouco depois, Acácio ainda abraçado comigo, senti-o em soluço de dor. Seguiram-se lágrimas.
Acácio chorava, e eu chorei também. Dois amigos, em plena manhã de sábado, a debulharem um choro convulso.

“No início acorreram-lhe, numa sequência de imagens rápidas, os felinos já louvados (e decantados) na literatura: Julio Cortázar, com sua gatinha Flanelle; Balzac e sua gata inglesa; as reflexões do gato Murr, de E.T.A. Hoffmann, e sua paixão pela bichana Miesmies; o gato de rua chamado Bob, de James Bowen; os bichanos selvagens da África do Sul, de Doris Lessing; o Rahul, de Lígia Fagundes Telles; sem deixar de mencionar os de Clarice Lispector. A todos e a todas, Nabuco queria superar. Na inteligência, na arte filosófica, no conhecimento, na sagacidade, na erudição e — por que não? — na elegância e no protagonismo frente à “ridícula condição humana”.

“ — Estou mais sóbrio do que o Santo Papa, Clauder Arcanjo. Acredite. Continuando, na madrugada passada eu captei mensagens em ondas marcianas a cruzarem o céu licaniense. E estou assustado com o que pude decifrar: vários dos nossos já foram abduzidos, os corpos ainda andam por aqui, no entanto todos eles a serviço de um império intergaláctico…

“ — Apesar de toda a nossa convivência, és um homem preso ao ocasional. Apesar de todas as nossas tardes e noites de exercício da boa maiêutica, Clauder Arcanjo, sofres com a tirania do supérfluo. Navegamos juntos nas águas da filosofia e da grande literatura, lembra?, e permaneces como um náufrago comum. A venerares a ponta do iceberg, enquanto o invisível aos olhos nos ameaça abaixo do nível do mar da trivialidade.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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