Pré-leitura do livro “A Noite dos Manequins – contos”, de Eugênio Leandro — por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Eugênio Leandro é escritor, com várias obras publicadas. Eclético, também atua em outros campos artístico-culturais, destacando-se na música, como cantor e compositor, e tem  experiência no teatro, como diretor e como ator. É cearense, nascido em 1958.

A PUBLICAÇÃO

O livro “A Noite dos Manequins – Contos”, de Eugênio Leandro, foi lançado em 2011, pela editora Expressão Gráfica, com 142 páginas e prefácio de Nilto Maciel.

CIRCUNSTÂNCIAS

Eugênio Leandro sempre escreveu. Começou publicando seus contos na imprensa regional. Fez poesia também na literatura infantil e em letras de música. Publicou uma pesquisa biográfica (Cego Oliveira, editado pela Fundação Demócrito Rocha). Em 2011 reuniu contos e disputou o Prêmio Moreira Campos.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

O premiado escritor (e editor) Nilto Maciel refere-se no prefácio à qualidade do livro, ressaltando o desenvolvimento dos personagens, a análise psicológica, a estrutura (início, meio da narrativa e epílogo), a fluidez das histórias, a beleza da narração, entre outros aspectos.  A Noite dos Manequins disputou e venceu o Prêmio Moreira Campos, de Contos, no ano de 2011. O leitor deve colocar sua melhor atenção a cada momento, porque o livro, mercê do estilo singular do autor, costuma puxar a gente para dentro da trama.

O LIVRO

O livro oferece um cardápio de dezoito contos, todos breves (um deles, primor de síntese, surpreende com apenas uma página). As histórias poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo, mas o leitor se sentirá quase sempre, por causa da linguagem, em terras nordestinas, a vida acontecendo no ritmo do calor e das chuvas dos sertões. O título do livro é apanhado de um conto que descreve a paixão incontrolável de um mendigo, com final inesperado.

CURTAS

“O resto foi tudo de uma vez: o vidro quebrando, o grito do guarda, o rádio se espatifando no chão, o disparo e o grito seco de Zeabel…”

“Foi numa dessas manhãs que Sendino se achegou a rondar a casa. A menina o pressentiu e pôs-se em alerta. Chupava as mesmas balas; a igual meninice nos olhos grandes e vivos…”

“O público fervilhou, a respirar pela metade. Matutaram sobre quando novamente se conjugariam tantos elementos no universo, um velho cego, Zamira acabando de parir e um curandeiro…”

“Por aqui, quem tem sapato novo é difícil gostar de ler. Esse, quando compra um livro, é mais pra fazer pose…”

“Aos quatorze anos, a menina causava admiração. Tal surto de formosura a mãe atribuiu aos milagres da quantidade de santos em que se amarrou…”

“Sumi da sala, mas aquela conversa não sumiu do meu juízo. Primeiro, meu pai, mas compadre como é que a gente vai fazer casar um menino dessa idade?…”

BONS MOMENTOS

“Mas Rosamarta era mesmo desmedida. Foi ficando moça a vestir as roupas das irmãs, sem nenhuma licença, pedindo pequenas quantias sem pagar, ao ponto de ser isolada pelos próprios irmãos, todos cercados de cuidados com sua avoança voraz. Não furtava. Simplesmente usufruía como seu, como quem pergunta de quem é esse batom e, quando a gente olha, já está ela com a boca toda pintada.”

“Dez anos em São Paulo e disse que nunca viu mulher como eu, ou então não queria ver. E disse mais ou menos assim, que mulher com esse jeito de sorrir, com essas coxas dessa grossura, com a armação desse colo, eu vim foi pra viver com você, pra comer seus confeitos todo dia.”

“Percival recolheu o chapéu e, com ele, os seus argumentos. Tomou água, tratou dia e hora, três goles de café e saiu para a rodagem que o engoliu com o telengotengo das quinquilharias. A semana passou como um queijo de coalho, podendo-se retalhar a quentura a facão. As duas prepararam a viagem numa lata de biscoitos com um açucarzinho por cima e outra com farinha e alguns bons pedaços de galinha.”

“Espirituosa nas brincadeiras, muitas vezes parava cansada de uma carreira a me pegar, sofregamente, pelos ombros, anunciando minha vez. Numa dessas, para explicar o novo jogo, encostou seu rosto bem perto do meu. Fixei meus olhos no dela, pretos como carnaúba madura. Ah, fiquei meio tonto, hipnotizado, junto com seu hálito de hortelã, sua cara de mormaço. Percebi o quanto era perfeito o desenho de sua boca, o contorno dos lábios…”

“O caçador enxugou o suor da manhã quando seus olhos encontraram as pupilas acesas do seu cão. Percebeu, num átimo, a inveja imperando no bicho que latiu com fúria, partindo para o seu peito. Ficou ali mesmo, estendido na surpresa, sem um chumaço de carne do peito e sem poder ver a satisfação dos cães tomando o rumo de casa, cada qual com a sua caça.”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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