Pré-leitura do livro “A Metáfora do Sol”, de DIMAS MACEDO

O AUTOR

Dimas Macedo é poeta, jurista e crítico literário. Professor da UFC.

A PUBLICAÇÃO

O livro “ A Metáfora do Sol”, de autoria de Dimas Macedo, teve sua quinta edição lançada em 2014, cinco anos depois do lançamento, pela Expressão Gráfica e Editora, com 146 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Dimas Macedo participou ativamente do debate público nos desafiadores anos 1980 (quando o Brasil e o Ceará experimentaram mudanças e transformações radicais). A Literatura e a Política, campos naturais de fermentação de ideias e de confronto de posicionamentos, foram temas para ensaios e reflexões publicados na imprensa pelo poeta e jurista entre 1984 e 1989. Vinte e três anos depois estão neste livro que já esgotou quatro edições.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Dimas Macedo tem sólida trajetória na literatura, escrevendo ensaios, fazendo crítica literária e produzindo a melhor poesia da terra —  mais de trinta publicações.

Recolhendo trechos de um comentário de Sânzio Azevedo, este livro junta a teoria política e o fazer literário e os coloca sob o olhar questionador do historiador e do sociólogo presentes em Dimas.

Na palavra de Pedro Gurjão, Dimas Macedo reflete sobre os descaminhos pelos quais enveredou a derrota do pensamento e contempla o desespero de um mundo mutilado pela violência das visões parciais. 

Já no início, avaliando a obra de Albert Camus,  o leitor sentirá o acerto da expressão “metáfora do sol”, que titula o livro, e o sentimento permanecerá até a última página.

O LIVRO

O livro está dividido em duas partes: Recortes Literários, a primeira, e Reflexões Políticas.

A parte dedicada à literatura é composta de oito textos independentes. Dois deles destacam a literatura regional e oferecem dela um raro e rico panorama histórico com nomes, datas, estilos e aproximações para uma abordagem crítica, apresentados de forma acessível, didática, estimulante da leitura. Mulheres têm um capítulo só pra elas. 

A segunda parte se compõe de nove textos (também não relacionados entre si, o que permite leitura  em qualquer sequência) que devem ser conectados à  ebulição política nacional e regional dos anos 1980, mas o autor consegue se manter acima das circunstâncias e tratar os temas mais delicados dentro do bom senso e, no limite do possível, sem datar nem fulanizar sua análise, sempre usando precisas  referências teóricas.  Assim, o interesse sobre as questões tratadas permanece décadas depois, atestando o acerto da pauta e a densidade do conteúdo.

Não espere o leitor, entretanto, encontrar neste livro o poeta e suas paixões. A conversa é com o intelectual que, também  na crítica literária e na análise política, toca a  sensibilidade social.

CURTAS

“… o escritor de hoje, por ser um agente social consciente e empreendedor, sem querer toma conhecimento das carências de que se ressente o mundo e, por isto mesmo, frequentemente as transfere para sua atividade de escritor.

“… o que me fascina não é a esperança de que no futuro serei vagamente lembrado ou aplaudido, mas a certeza de que no presente estou comprometido com minha consciência de produtor cultural, com a minha militância de escritor exilado no espaço literário de uma Província ainda mergulhada entre os domínios do colonialismo cultural.

“Patativa é a grande voz social da poesia cearense.

“Não pode mais é o homem se declarar um ser desprovido de compromissos para com o desenrolar da tragédia social que lhe dilacera a sensibilidade e lhe emoldura a exasperação.

“… o coronelismo nordestino também desfrutou de fases distintas de declínio e de apogeu. Contudo, ao contrário de outras práticas políticas oligarcas, o que se pode dizer é que ele ainda não assistiu à sua superação.

BONS MOMENTOS

“Numa província como o Ceará,  onde, não raro, os críticos literários, ou se mostram alienados para as questões fundamentais da literatura, ou, tolhidos por um discurso reacionário, se limitam a referendar as formalidades tradicionais, é de admirar a audácia com que Dulce Maria Viana (1945) investe na tarefa de interpretação do texto literário, tomando-o a partir de uma perspectiva interdisciplinar.

“A crítica literário, antes de buscar na obra do escritor os elementos que informam sua visão de mundo, nela deve perquirir os critérios da literariedade e os recortes da vida social que lhes são inerentes. Sem essas exigências, as formas de desleitura da realidade e dos contextos históricos não funcionam senão como canais vazios de significado, o que implica na interpretação deformada da obra literária, inclusive pelo próprio leitor.

“No caso específico da cultura literária brasileira, eu mencionaria a insensatez com que os órgãos públicos oficiais se têm voltado a examinar a periferia e a marginalidade da nossa literatura,  esquecendo-se os seus agentes que o verdadeiro marginal é o intelectual que se acovarda nas asas do poder, para ele usufruir as benesses, e em contrapartida, lhe desservir na orientação de possíveis caminhos alternativos.

“Depois de Juvenal Galeno, é correto afirmar, nenhum outro momento da poesia cearense foi assim tão comprometido com as desgraças e os infortúnios das maiorias espoliados pela estratificação das posturas burguesas. Nenhum outro escritor cearense, de forma tão persistente e resoluta, foi mais longe que Juvenal Galeno na tentativa de restaurar as verdadeiras bases sociais da nossa tão decantada literatura, nem, por outro lado, conseguiu ultrapassar o conteúdo revolucionário da sua projeção de escritor.

“Mas não podemos esquecer, sob nenhum pretexto, de que o ciclo do Algodão e a opressão da grande propriedade fundiária, que o misticismo religioso e a saga do cangaço, na região do Cariri, e que a corrupção política e a fraude dos grandes impérios econômicos cearenses tiveram, respectivamente, em João Clímaco Bezerra, Fran Martins e Jáder de Carvalho os seus representantes literários mais altos.

“E como ponto de partida e chegada dessa investigação, aponto a Região do Cariri não pelo fato de ali se haver instalado uma verdadeira república confederada de coronéis, mas por ter sido o Cariri o palco do chamado ciclo das deposições, em que a força do bacamarte substitui a legitimidade das eleições e em que o poder das oligarquias falou mais alto do que qualquer outra forma de patrimonialismo e reivindicação.

“Quando nos omitimos, politicamente nos posicionamos a favor de determinadas propostas que talvez jamais ousássemos encampar. Por outro lado, fugindo da participação, sem querer bloqueamos a instauração do conflito e, por conseguinte, negamos o poder da dialética e da transformação, para, em seu lugar, soerguer as bandeiras do conservadorismo e da reação mistificadora. Assim sendo só resta ao homem se decidir pelo processo de participação…

“Sabemos que é monstruosa a superpopulação das nossas prisões; sabemos que nem sempre é dado ao preso conhecer as condições sob as quais terá que cumprir sua pena; sabemos ainda que não existem nos presídios condições técnicas suficientes que possibilitem à sua administração e aos próprios detentos atualizarem-se para reivindicar aos Conselhos Penitenciários ou ao Juízo das Execuções Criminais o cristalino direito ao livramento condicional. Nestas condições vive o sentenciado uma existência torturada, sem direito a voz e sem direito a ouvir e ser ouvido…

“E se o fenômeno do justo e do jurídico se apresenta assim considerado, torna-se possível concluir que a ideia de justiça (e de legitimidade do direito) não deixa de configurar, para a ideologia das classes oprimidas, um poderoso instrumento de controle político e social, a serviço da circulação das elites e de suas formas de alienação, suportes discursivos a partir dos quais as classes dominantes consolidam as suas bases de sustentação, passando, assim, a teoria da justiça, a revestir uma abordagem de legitimação, tomando como ponto de partida a ideologia das classes hegemônica tradicionais.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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