Pré-leitura do livro A Era do Capitalismo de Vigilância, de Shoshana Zuboff

A AUTORA

Shoshana Zuboff é professora emérita na Harvard Business School, bacharel em filosofia e doutora em psicologia social. Participa do debate público escrevendo artigos em revistas e jornais.

A PUBLICAÇÃO

O livro A ERA DO CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA — a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder, de autoria de Shoshana Zuboff, foi lançado no Brasil pela editora Intrínseca, com 1.013 páginas, em 2021 (dois anos depois de estrear nos EUA).

CIRCUNSTÂNCIAS

Shoshona Zuboff pesquisa o tema do que ela chama de capitalismo de vigilância desde 2006. Em 2011, acidentalmente, perdeu os arquivos da pesquisa e só a retomou anos depois. Nas palavras dela, o livro tem a função de apresentar o que é original, estranho e inimaginável na ação das cinco big techs (Google, Facebook, Microsoft, Amazon e Apple), que ela percebe como uma séria ameaça á soberania individual e ás democracias liberais. Para explicar sua percepção e facilitar a análise pelo leitor, ela usa conceitos como o Grande Outro, a indiferença radical, o fato de que não há precedentes para ajudar na compreensão e mercado de comportamentos futuros.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Capitalismo de vigilância é a forma que as big techs (Google, Facebook, Microsoft, Amazon e Apple) utilizam para colher dados sobre as pessoas em tamanha quantidade, qualidade e profundidade, que as torna capazes de conhecer e até moldar o comportamento atual e futuro das pessoas, numa mudança que pode comprometer a humanidade, na medida em que isso está acontecendo e avançando sem controle de qualquer tipo, sem qualquer limite, sem qualquer reação.

Shishiona Zuboff afirma que estamos num momento de grave mudança de patamar do capitalismo. Ela faz comparações com a mudança que ocorreu com a entrada do automóvel na vida das pessoas, que apenas a compreendiam ingenuamente como uma “carruagem sem cavalos“. E registra como Henry Ford e Thomas Edison trocaram cartas preocupadas com o rumo negativo das transformações para a vida da maioria das pessoas, que teriam seu trabalho explorado. Agora, o salto é maior e mais radical, e de novo não há precedentes para as pessoas entenderem o que está acontecendo e isso justifica a indiferença radical. E o Grande Outro (numa referência indireta ao Big Brother de George Orwell) usa a tecnologia para conhecer (e moldar) o comportamento das pessoas e negociá-lo em mercados futuros.

O LIVRO

A ERA DO CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA é um livro extenso e denso, com mais de mil páginas a exigir atenção, abertura e paciência na leitura. O livro se estrutura em quatro grandes partes, que se desdobram em dezessete capítulos que explicam exaustivamente como o capitalismo de vigilância lançou suas bases e fez as elaborações iniciais, entrando nas nossas vidas e ganhando um poder sem precedentes na história humana. Segue explicando como o poder salta do mundo digital para o mundo real, com predições sobre comportamento das pessoas que se aproximam da certeza. Avança examinando a ascensão do que a autora chama de poder instrumentário e refere-se á sua expressão numa infraestrutura computacional ubíqua, sensata, conectada (que ela chama de Grande Outro) capaz de redesenhar relações sociais e uma visão antidemocrática (segundo salto, agora do mundo real para o social). Na conclusão o livro aponta para um capitalismo que exige liberdade irrestrita e conhecimento total, abandona as reciprocidades do velho capitalismo e impõe uma visão totalizadora.

INSIGHTS

“O capitalismo de vigilância reivindica de forma unilateral a experiência humana como matéria-prima gratuita para a tradução em dados comportamentais.

“Esses produtos de predição são comercializados num novo tipo de mercado para predições comportamentais que chamo de “mercados de comportamentos futuros“…muitas companhias estão ávidas para apostar no nosso comportamento futuro.

“O capitalismo de vigilância vai na direção oposta à do sonho digital dos primeiros tempos…em vez disso, despe a ilusão de que a forma conectada em rede tem algum tipo de conteúdo moral inerente, que estar “conectado“ seja, de alguma forma, intrinsecamente pró-social e inclusivo ou com uma tendência natural à democratização do conhecimento.

“Estavam protegidos pela inerente ilegibilidade dos processos automatizados que comandam, pela ignorância criada por estes e pelo senso de inevitabilidade que fomentam.

“Em sua essência, o capitalismo de vigilância é parasítico e autorreferente…

“Um entorpecimento psíquico nos habitua às realidades de estar sendo seguido, analisado, minerado e modificado.

“Eles sabem tudo sobre nós, ao passo que suas operações são programadas para não serem conhecidas por nós…eles predizem nosso futuro a fim de gerar ganhos para os outros, não para nós.

“A tecnologia é uma expressão de outros interesses (os interesses do capital), e na nossa época é o capital de vigilância que comanda o meio digital e dirige nossa trajetória rumo ao futuro.

“O totalitarismo foi uma transformação do Estado num projeto de posse total. O instrumentarismo e sua materialização no Grande Outro sinalizam a transformação do mercado num projeto de certeza total, uma empreitada que é inimaginável fora do meio digital e da lógica do capitalismo de vigilância.

“O capitalismo de vigilância é mais bem descrito como um golpe vindo de cima, não como uma derrubada do Estado, mas sim uma derrubada da soberania das pessoas e uma força proeminente na perigosa tendência rumo à desconsolidação que agora ameaça as democracias liberais ocidentais.

“O único objetivo racional é a busca de produtos que capturem “todo mundo“, e não “os melhores produtos“.

IDEIAS CENTRAIS

“O Google foi o pioneiro do capitalismo de vigilância na concepção e na prática, nos recursos inesgotáveis para pesquisa e desenvolvimento, além de pioneiro em experimentação e implementação, porém não é mais o único ator seguindo esse caminho. O capitalismo de vigilância logo se espalhou para o Facebook e depois para a Microsoft. Há provas sugerindo que a Amazon se voltou para essa direção, que é um desafio constante para a Apple… Capitalistas de vigilância logo perceberam que podiam fazer qualquer coisa que quisessem, e foi o que de fato aconteceu. Eles se apresentam como defensores de direitos e emancipação, apelando para e explorando ansiedades contemporâneas, enquanto a verdadeira ação ficava escondida nos bastidores.

“Os capitalistas de vigilância descobriram que os dados comportamentais mais preditivos provêm da intervenção no jogo de modo a incentivar, persuadir, sintonizar e arrebanhar comportamento em busca de resultados lucrativos. Pressões de natureza competitiva provocaram a mudança, na qual processos de máquina automatizados não só conhecem nosso comportamento, como também moldam nosso comportamento em escala. Com tal orientação, transformando conhecimento em poder, não basta mais automatizar o fluxo de informações sobre nós — a meta agora é nos automatizar.

“Uma explicação para os muitos triunfos do capitalismo de vigilância para sobre todas as outras — ele não tem precedentes. Aquilo que não tem precedentes é necessariamente irreconhecível. Quando nos deparamos com algo sem precedentes, nós o interpretamos de modo automático através da lente das categorias familiares, tornando invisível dessa maneira justamente aquilo para o qual não há precedentes. Um exemplo clássico é a noção da “carruagem sem cavalos“, à qual as pessoas recorriam quando confrontadas com o fato sem precedentes do surgimento do automóvel.

“Com o fim das ameaças fascista e socialista, a ideologia neoliberal espertamente conseguiu redefinir o moderno Estado democrático como uma fonte renovada de coletivismo contra o qual resistir por todo e qualquer meio. De fato, a evisceração do duplo movimento foi promovida em nome da derrota dos supostos riscos coletivistas da “democracia excessiva“. Agora a colmeia imita o “O Estado das formigas“, que até mesmo Hayek, que desprezava a democracia, ridicularizou como incompatível com a liberdade humana. A convergência de liberdade e conhecimento transforma capitalistas de vigilância em autointitulados senhores da sociedade. Do seu lugar no alto da divisão de aprendizagem, um privilegiado sacerdócio de “sintonizadores“ governa a colmeia conectada, cultivando-a como uma fonte de contínuo provimento de matéria-prima.

“A tarefa do jornalista é produzir notícias e análises que separem a verdade da mentira. Essa rejeição da equivalência define a razão de ser do jornalismo, bem como suas reciprocidades orgânicas com seus leitores. Entretanto, sob o capitalismo de vigilância, tais reciprocidades são apagadas. Um exemplo de consequência disso foi a decisão do Facebook de padronizar a apresentação do conteúdo de seu Feed de notícias de modo que “todas as histórias de notícias parecessem entre si…“

“Eles descobriram que na preparação para a eleição americana de 2016 houve 760 milhões de casos de um usuário lendo mentiras orquestradas on-line, ou cerca de três episódios do tipo para cada adulto americano. Contudo, como a indiferença radical haveria de predizer, as fake news e outras formas de corrupção da informação têm sido características perenes dos ambientes on-line do Google e do Facebook. Há incontáveis exemplos de desinformação que sobreviveram e até mesmo prosperaram porque atendiam a imperativos econômicos.

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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