PORTA ESTREITA

Uma das passagens mais conhecidas e centrais do pensamento cristão encontra-se nos capítulos 5, 6 e 7 do livro de Mateus, nos quais estão contidos ensinamentos consagrados de Jesus de Nazaré, de quem celebramos o Natal no último dia 25 de dezembro, como as Bem-aventuranças, a oração do Pai-Nosso, a Regra de Ouro, as orientações sobre justiça, oração, jejum e coerência entre palavra e ação.

Por exemplo, na advertência sobre a hipocrisia: “Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, e não vês a trave no teu? E dirás a teu irmão: deixa-me tirar o cisco do teu olho, e não enxergas a trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás claramente para tirar o cisco do olho do teu irmão”. (Mt 7, 3-5).

Portanto, não se trata apenas de exortações morais, mas de uma reconfiguração da maneira de existir no mundo. Nos tempos atuais, marcados pela brutalização de palavras e gestos, pela mercantilização da vida, pela sacralização do mercado, pela naturalização da desigualdade, o Discurso da Montanha reaparece como uma afirmação incômoda, crítica e libertadora, confrontando diretamente a normalização da barbárie em curso.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, os que choram, os mansos, os humildes, não são consolos espirituais para injustiçados e empobrecidos pelo sistema econômico, mas denúncias abertas de um modelo social que produz iniquidades de toda ordem. Jesus de Nazaré desloca o centro da história: os oprimidos são declarados sujeitos do Reino por ele anunciado. E pergunta: por que há pobres? Quem se beneficia das desigualdades? Quem é silenciado e descartado? Ele cria um movimento de despertar das consciências para questionar os poderosos e incomodar os saciados.

Noutra passagem do Discurso da Montanha, ele proclama: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ele. Estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, e são poucos os que o encontram”. (Mt 7, 13-14).

Seu olhar não é moralista nem intimista. Trata-se de uma visão estrutural na qual fala não de pecados privados, mas de caminhos históricos como forma a organizar as relações humanas, cuja opção preferencial pelos pobres apresenta-se como chave hermenêutica da fé em seu Deus o qual se revela a partir das vítimas históricas.

Em nosso entender, a porta larga não é simplesmente o vício, mas o caminho egoísta que reproduz as estruturas de dominação, exclusão e morte, expressão de uma fé que legitima o mundo da forma como ele se apresenta e está organizado, o lugar da normalização do inaceitável.

E a porta estreita é o espaço do estranhamento ético, do desencaixe, do não-ajuste ao mundo, o local onde a realidade deixa de ser óbvia para voltar a ser problemática. A porta é estreita porque obriga a romper com privilégios, a tomar partido num mundo estruturado pela desigualdade, a renunciar à neutralidade tranquilizante para assumir o agir profético questionador.

Como anota Ortega y Gasset com sua noção de homem-massa, este tipo não é apenas alguém sem pensamento crítico, mas também profundamente reconciliado com o mundo tal como está, emocionalmente adaptado à injustiça, espiritualmente anestesiado pela doutrinação simplista e rasa que recebe e professa. A porta larga não exige travessia, responsabilidade, ruptura e conversão. Ela oferece espiritualidade sem transcendência, ética sem alteridade, liberdade sem responsabilidade, fé sem cruz. E é isso que Jesus de Nazaré chama de perdição: a perda da capacidade de se indignar e se deslocar.

Se agregarmos outra simbólica, a da porta e do muro, podemos definir que o muro, a exemplo da porta larga, é uma espécie de negação: nega a passagem, nega o encontro, nega a continuidade do espaço. Vide os muros recentes construídos pela extrema-direita internacional nas pessoas de Benjamin Netanyahu e Donald Trump, como barreiras de impedimento às pessoas da Cisjordânia e do México, respectivamente. Portanto, o muro institui uma diferença absoluta: aqui versus lá, dentro versus fora, nós versus eles, permitido versus proibido. O muro produz uma identidade por exclusão, uma forma espacial de produção de ódio e de medo.

A porta, por sua vez, é a negação da negação. Ela não destrói o muro, mas o fende, o interrompe, o relativiza, tornando-se uma possibilidade. Ela não é dentro nem fora, é entre, instituindo um evento, uma decisão, uma passagem, um tempo. Onde há porta, há movimento, há história.

Num viés dialético, o muro é a condição da forma, sem muro não há casa, nem cidade, ou seja, identidade. Por sua vez, a porta é a condição de sentido, sem porta não há relação, nem história. A porta põe o ser em movimento. O muro cria o espaço, a porta cria o tempo; o muro cria o dentro, a porta cria o encontro. Um mundo só de muros, é um mundo de prisões; um mundo só de portas, é um mundo sem abrigo. O humano nasce exatamente da tensão entre muro e porta.

Na perspectiva do filósofo francês Alain Badiou (1937), toda realidade social é uma situação: um conjunto organizado do que conta, do que é reconhecido e do que pode aparecer. O Estado da situação é o que conta as partes da situação, o que regula, classifica, administra e controla. O muro corresponde exatamente ao Estado da situação. O muro diz: isto conta, isto não conta; isto pertence, isto não pertence; isto está adequado, isto excede. O muro não é só obstáculo físico, mas o dispositivo que faz com que certas coisas não apareçam como existentes.

Mas o núcleo do pensamento de Badiou é o acontecimento (evento), aquilo que irrompe sem ser dedutível das regras da situação. O evento é imprevisível, sem lugar legítimo prévio na contagem do Estado da situação. O evento não destrói a situação, ele a fende, como uma porta ontológica aberta ao mundo do ser. Mas o evento só se torna verdade se houver um sujeito de fidelidade que o sustente. Desta forma, a porta não é só apenas abertura, mas convocação. Ao aparecer, a porta precisa de alguém que a atravesse e mantenha aberta a possibilidade que inaugurou. Sem fidelidade, a porta se fecha transformando-se em muro. A porta exige o sujeito, o muro dispensa-o. A porta exige do sujeito decisão e perseverança.

Badiou conclui que as verdades surgem a partir de quatro conhecimentos básicos do humano: O amor, que rompe o muro do eu e do idêntico; A ciência, que rompe o muro do saber estabelecido; A arte, que rompe o muro do gosto e da forma consagrada; A política, que rompe o muro da ordem social naturalizada.Cada verdade é uma porta que não existia antes. O muro diz: isto é tudo o que há. A porta diz: há mais do que isto. Ser fiel a uma verdade é manter uma porta aberta rompendo o muro do mundo existente.

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