POR UMA ALMA ESTÉTICA

 

Todos os esforços para implementar um parâmetro crítico sobre a obra literária esbarra sempre na vinculação desta a uma corrente filosófica ou científica, estrangeira, que ora tende para a subjetivação, distanciando-a do texto, ora para sua oclusão, como se fosse um corpo fechado, sem ligações contextuais. Tanto uma corrente quanto outra não dão conta do objeto artístico em si, criando distância entre a crítica e o púbico leitor, visto que a crítica pouco influencia na reação do público. 

A literatura brasileira não pode ser rebocada por convenções externas nem por ausência de um estatuto que afirma a sua particularidade. Essa particularidade está em Alencar, Lima Barreto, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Patativa do Assaré, Manoel de Barros, Thiago de Melo, Mário Quintana, Leandro Gomes de Barros, dentre tantos, espalhado pelo Brasil e com uma dicção própria, externando o sentimento e a alma de um povo. Com toda reverência a Dostoievski, Balzac e Machado, eu quero dizer outras coisas. Falar outras vozes. Passar da leitura ao divertimento da descoberta, sem me amarrar a teorias segmentadas e ovacionadas por papagaios e camaleões, apesar de admirar suas capacidades miméticas. 

Quero ser o Aristóteles de mim mesmo. O terapeuta sem Foucault. O antropófago de minhas vísceras. Talvez, só assim, possa enxergar o novo mundo no rastro dos meus fantasmas escritores. A literatura brasileira precisa ser abrasileirada e isso é urgente. Vamos reinventar nossa estética sem Caminha, Escola de Frankfurt, New Criticism, Estruturalistas etc. Ser bruzundanga cansa.  Olhar para dentro e descobrir que tudo está em nós. Uma alta ciência e filosofia que ainda não demos nome precisa ser vivida e dita como experiência estética. 

Eu sou a patente da minha alma.

 

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza – Ceará. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor em Letras UERN. Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 25 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014 – Ensaios; Poesia na bagagem, 2018 – Poesia; O olhar tardio de Maria, 2019 – Conto; Crítica da razão mestiça, 2021 – Ensaio, dentre outros. Vencedor de Prêmios Literários nacionais e regionais. Contato: [email protected]

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