Por um Tribunal do Genocídio já!!!

Quem matou quase 3 milhões de pessoas num espaço de um ano? O coronavírus ou o capitalismo? Não há outra resposta senão aquela que diz: a conjunção dos dois fatores.

É claro que uma pandemia, em qualquer modo de relação social, provoca mortes; mas sob o capitalismo as mortes se potencializam.

Calcula-se que cerca de 3,4 bilhões de pessoas, que correspondem a cerca de 45% da população mundial já vivia com menos de US$ 5,5 por dia, que transformados em nossa moeda equivaleria a cerca de R$ 30,00 por dia, antes da pandemia, o que já demonstra a nível de pobreza mundial dos excluídos do sistema.

A pandemia acresceu cerca de meio bilhão de pessoas a esta estatística, ou seja, com este acréscimo, 52% da população mundial já vive em estado de pobreza; como se trata de um cálculo médio, dentre estes estão aqueles que vivem estado de miséria absoluta.

A população que vive em estado de miséria absoluta deixou de ser interessante para o capitalismo simplesmente porque não produz valor, mas consome valor sem produzi-lo, e isto significa que representam um custo social para o Estado, cidadela armada por leis e armas do capitalismo.

Podemos concluir, portanto, que as milhões de mortes da crise sanitária tem, também, um sentido de assassinato premeditado de contingentes populacionais considerados descartáveis pela lógica insana e assassina do capital (ainda que o coronavírus não seja seletivo socialmente e mate, também, membros da elite beneficiária de sua lógica social segregacionista, mesmo que tenha mais recursos e morra em menor percentagem; aceitam isto, pois para eles, nem tudo é perfeito).

Aliás, concretiza-se nos dias atuais a frase de Robert Kurz no livro “Dinheiro sem valor”, quando ale afirma que “os sanguinários sacerdotes dos astecas eram inofensivos o amigáveis em comparação com os burocratas do sacrifício ao fetiche do capital global no seu limite histórico.”

Ora, é claro que a falência do Estado, que já ocorre por conta da necessidade de cumprimento de suas obrigações teleológicas fundamentais quais sejam:

– manutenção da cara estrutura institucional dos poderes da república (basta compararmos no Brasil o salário de um magistrado em relação ao salário mínimo de um trabalhador empregado) e das forças armadas;

– e gastos com infraestrutura de indução ao desenvolvimento econômico (estradas, pontes, energia, abastecimento de água, etc.) e financiamento e socorro empresarial estratégico em situações de crise financeira aguda (como no caso do subprime em 2008/2009, e que agora se repete com Joe Biden e seus trilhões de dólares tirados da cartola mágica do Federal Reserve, o Banco Central deles);

O atendimento das demandas sociais básicas (educação e saúde) representam, para o capital, as despesas secundárias que servem para dourar a pílula do discurso sobre a essencialidade do Estado; algo assim como os gastos com a necessidade da zeladora que varre as dependências de uma indústria ou serve cafezinho, sem contribuir diretamente para a extração de mais valia na produção de mercadorias.

Para o capital as demandas sociais a serem atendidas pelo Estado, são um mal necessário, ou dito de outra forma, são custos secundários que servem para a manutenção de um me-engana-que-eu-gosto que faz com que a população cada vez mais clame pela existência institucional, juntamente com o capital, daquilo que também a oprime: o Estado.

A falência estatal generalizada decorre do descompasso entre a necessidade de cumprimento de suas funções acima elencadas, precipuamente capitalistas, e a depressão econômica causada pela dessubstancialização do valor decorrente da deterioração da massa global de acumulação real do capital “válido” advindo da produção de mercadorias, em face da obsolescência de sua substância vital: o trabalho abstrato.

A propriedade, medida monetariamente, é um acúmulo de horas de trabalho abstrato nela coagulado; e sem tal mensuração, como tudo tende a acontecer na atualidade, a propriedade nada mais é do que a representação moderna do absolutismo escravista antigo, sem escrúpulos de consciência.

Ora, se o Estado depende da economia, de onde retira os seus recursos sob a forma de impostos para o seu equilíbrio financeiro, e essa economia roda em falso graças às contradições dos seus próprios fundamentos, é evidente que o desequilíbrio é inevitável. Esta é a razão da falência estatal generalizada; não se trata de uma questão de boa ou má gestão financeira (a esquerda precisa compreender isto em seu afã de administrar politicamente o Estado).

O resultado desta realidade social que atingiu o estágio de falência de um modelo, e que clama pela sua superação, confronta um momento épico de um embate entre o pensamento conservador capitalista que quer se manter vivo a qualquer custo, e sua inviabilidade demonstrada pelo processo dialético social em constante movimento.

É exatamente neste embate que o capital se torna assassino.

Quando um governante insensível ao drama humano afirma “vai morrer muita gente, e daí?”, e propõe a imunização de rebanho como forma de superação da crise sanitária, mesmo sabendo que isto representaria a morte de cerca de 3% da população mundial, por contaminação virótica, ou seja, 225 milhões de pessoas (até agora já temos quase 3 milhões, que é pouco mais de 1% disto), ele está convergindo, mesmo sem o saber, por conta de sua ignorância primária, com a ideia da eliminação daquela parte da população que não produz valor, mas o consome.

Mas o capital é uma lógica de relação social, que apenas usa as pessoas e as mercadorias numa relação social reificada; é graças a isto que são os seres humanos os agentes inconscientes e cegos em relação ao comando abstrato da forma-valor a que obedecem, aqueles que funcionam como carrascos executores de suas ordens insanas e assassinas.

O coronavírus não foi previsto pelos que anunciavam um período de recessão mundial para 2020, e que já havia ocorrido em 2019 fixando o PIB mundial em 2,4%, o seu pior desemprenho desde 2008; e veio de tal forma avassaladora que representa a exposição de uma crise conjuntural e estrutural que não pode ser resolvida sob os mesmos critérios anteriores (como do Plano Marshall, da restauração do pós segunda guerra mundial).

Não será a injeção de dinheiro sem valor na economia, como está sendo proposto e efetivado por Joe Biden, aquilo que sanará o problema. Não se cura a doença com a causa de sua existência.

O capital fictício a ser injetado na economia como forma de reavivá-la, não ataca os fundamentos da debacle da própria economia e, portanto, não representa solução efetiva e duradoura, e somente pode ser implementada com sucesso temporário num país emissor da moeda internacional. Como tudo no capitalismo tal solução não pode ser linear, nos financiaremos este pretenso bom modelo de solução.

Somente os critérios de uma produção e apropriação social dos bens e serviços produzidos socialmente, racionalmente distribuídos, aliados aos ganhos da ciência na profilaxia da pandemia poderá evitar o genocídio em curso da humanidade, seja pelo aspecto do empobrecimento causado pelo limite interno de expansão capitalista, ou seja pela avanço surpreendente das infecções viróticas, inclusive com o surgimento de novas cepas cujos alcances vacinais ainda não são conhecidos.

O capital é assassino.

É por isto que eu escrevo este libelo acusatório do genocídio por ele patrocinado, e evidentemente, considero que os que defendem o capital são coautores dessa tragédia humanitária, sejam cidadãos civis ou políticos, juristas ou militares, trabalhadores incautos ou empresários de grande porte ou de pequeno porte.

Como disse anteriormente, as mortes do coronavírus conspiram contra o capital nos seus silêncios sepulcrais!

O capital é assassino e seus defensores estão no banco dos réus como coautores, e se faz necessária a instalação de um TRIBUNAL DO GENOCÍDIO JÁ, como exigência que a consciência cívica nos impõe.

Dalton Rosado.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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