POR QUE NÃO FALAR DE EDUCAÇÃO E CULTURA EM MEIO À PANDEMIA?

Em artigo publicado sob o título de A cultura da cidade e o desaparecimento do flâneur discutia, naquele momento, a importância dos espaços citadinos e como estes haviam feito sumir o flâneur. A posição exposta naquele escrito continua válida e, cada vez mais, reforçada. Entre um escrito e outro, uma leitura e outra, vimos o Brasil ser atingido pelo coronavírus. Pode o leitor começar a se perguntar se este é mais um artigo da área de biologia, medicina ou de algum infectologista a discutir as problemáticas apresentadas pelo vírus. Não, de forma alguma. O advento da pandemia expôs o homem a somente flanar no espaço físico de sua própria casa, para aqueles que detém um teto a chamar de seu. Devemos considerar a quantidade de pessoas sem moradia. 

    As ruas de metrópoles como Londres e New York ficaram vazias no sentido literal da palavra. Atendendo as determinações da OMS os governos locais agiram em seus espaços olhando de forma global. O que pode parecer banal, não o é. Trata-se, sim, de uma questão a envolver educação e cultura. Os países onde a educação sempre foi levada a sério como Noruega, Dinamarca, Finlândia, Alemanha, EUA e Inglaterra as ruas ficaram vazias, as pessoas flanaram em seus espaços caseiros, os governos acolheram aqueles sem condições materiais de sobrevivência e foram, assim, superando aos poucos este primeiro momento da pandemia. Caso de Noruega, Dinamarca, Finlândia e Alemanha. EUA e Inglaterra determinaram tardiamente o isolamento social, mas de forma alguma isto significou uma ausência de educação da população em cumprir aquilo a trazer benefícios à saúde do cidadão. O investimento em educação nestes países vem demonstrando a outros países o quanto pesa não investir em educação e cultura.

 

    O olhar para ruas vazias não é um olhar de paz, mas de angústia. A angústia da liberdade tolhida em nome da vida. O pombo no asfalto londrino passeando tranquilamente não significa que o homem se tornou mais humano e consegue, assim, conviver com outros animais não humanos. Ele continua tão desumano quanto antes da chegada do vírus. O pombo ali está porque o Estado determinou o recolhimento das pessoas às suas casas como forma de combater o contágio pelo vírus. Ao tempo que as imagens de Londres e New York assustam pelo vazio das ruas o das cidades brasileiras assombra pelo livre caminhar das pessoas em época de pandemia. 

    Mesmo com decretos estaduais e municipais determinando que apenas espaços comerciais de estrita necessidade continuassem funcionando e dentro das regras de segurança sanitária as pessoas não ficam em casa. Comerciantes lutam para ver seus comércios abertos, seus funcionários trabalhando, o transporte público funcionando e as pessoas a lotar estabelecimentos comerciais como se estivéssemos no Natal. A ausência de educação da maior parte da população brasileira associada a uma lógica consumista, mesmo estando sem dinheiro, demonstra o quão a vida tem um valor pequeno para o ser humano brasileiro.

    Enquanto o mundo está recolhido, angustiado e com medo, o brasileiro aparenta ter uma coragem suicida. A maior parte não atende ao Estado por desconhecer que, enquanto cidadão, a vida do Outro depende de suas atitudes como cidadão. Neste momento, ficar em casa é uma atitude mais que revolucionária. O brasileiro, não. O brasileiro está nas ruas e isso assusta porque o contágio ocorre de forma invisível e pelo ar, por tocar em equipamentos de uso comum ou numa simples aglomeração. O mundo entendeu. O Brasil, não. Os alemães, finlandeses, norte-americanos e ingleses entenderão. O brasileiro, não. Antes que o leitor venha a criticar não sou defensor que outros povos são melhores que outros. Discussão ultrapassada. 

    A questão crucial reside que os países citados, exceto o Brasil, investiram pesado em Educação e Cultura e, portanto, não enfrentam dificuldades quando o Estado precisa do apoio de sua população para combater um vírus mortal. As questões ideológicas, políticas, político-partidárias e quaisquer diferenças são postas à margem em nome de um bem maior: a vida. Se entende ser necessário abrir mão, temporariamente, da liberdade de circular pelas avenidas e parques para salvar vidas. O distanciamento social é visto como uma prática educacional e cultural. É ensinado nas escolas desde a mais tenra idade, caso da Finlândia. Havendo necessidade a criança não terá dificuldade em entender o significado do distanciamento social e do momento onde a liberdade espacial de circulação está restrita à sua casa.

    No Brasil, não.

    No Brasil alia-se um individualismo com a manutenção das diferenças políticas e ideológicas e a ausência, de longo prazo, de investimento em Educação e Cultura e o resultado são ruas lotadas na contramão do que o mundo está a fazer. Quer se lutar pela liberdade sem a manutenção da vida, defende-se o direito de ir e vir quando o vírus é, neste momento, detentor absoluto da ida e vinda de todos os seres humanos. Falta ao brasileiro, além de ações do Estado, entender o valor da educação e da cultura em momentos de crise. Afinal, a pandemia é uma crise. 

    Estamos ensinando as pessoas a ter o hábito de lavar as mãos como fator sanitário de higiene. O lado cultural da pandemia no Brasil pode ter maior letalidade que o próprio vírus. Nos demais países o vírus encontrou na população uma oposição, no Brasil ele tem encontrado uma parcela da população como aliada ao ocupar as ruas, ficar em aglomerações e descumprir questões sanitárias. O distanciamento social no Brasil é demonstrado nas redes sociais em fotos de visitas a amigos e parentes. A ausência da prática educativa e do traço cultural de respeito ao Outro é presente no cotidiano da viagem do vírus ao território tupiniquim. 

    Não existe como não comparar que nos demais territórios a ciência tomou à frente apoiada pelo Estado e com a confiança da população no investimento feito em Educação, Cultura e Ciência. No Brasil a não presença do Estado no campo da Ciência fez com que cientistas fossem ameaçados em redes sociais pelo fato de estarem pesquisando uma forma de combate ao vírus. Pessoas vão às ruas e afirmam que isto (o vírus) não irá nos atingir porque a sua crença (respeito todas as crenças) protege a todos os brasileiros. 

    Estamos, no caso do Brasil, a viver a Peste Negra medieval e não a pandemia do coronavírus. O comportamento das pessoas andando normalmente pelas ruas, os comerciantes gritando pela abertura de suas lojas, pesquisadores sendo perseguidos, governante afirmando que pessoas vão se contaminar e isso ser visto como normal reafirma, com todas as letras, o quanto a Educação e a Cultura fazem falta em um país. Muitos, infelizmente, irão morrer contaminados pelo vírus e, outros tantos, de forma triste, irão falecer por ausência de educação e cultura. 

    No momento em que termino este passeio pelo teclado são, em números oficiais, 2.575 mortos no Brasil. Não sei, confesso, se enquanto escrevia este mais alguém veio a falecer. Que o leitor me perdoe pela não atualização dos números por não ser este o objetivo deste escrito. 

Medeiros Júnior

José Flôr de Medeiros Júnior é Mestre em Direito Econômico - PPGD/Unipê e em Ciências Jurídicas - PPGCJ/UFPB, Pós-Graduado em História (UEPB), graduado em Direito - Unifacisa – PB e em História - UEPB. Professor de Direito e Consultor em Educação. Autor de livros, capítulos de livros e artigos sobre meio ambiente, cidadania e o tempo enquanto discussão filosófica. Apaixonado pela literatura com especial olhar aos escritos de Dostoiévski, Camus, Kafka, Borges, Saramago, James Joyce, Mário Vargas Llosa, George Orwell, Umberto Eco. Leitor de Nietzsche, Foucault e Certeau, mas prefere conversar com Walter Benjamin.

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