PONTO DE RUPTURA

Todo cidadão tinha que provar que não era judeu, nem era descendente de judeu. O totalitarismo nazista mal havia sido notado pelos homens cultos porque pertencia à corrente subterrânea da história europeia, onde, longe da luz do público e da atenção dos homens esclarecidos, pode adquirir virulência inteiramente inesperada”. (Hannah Arendt)

“With God on our side”.

 

Uns poucos podem tudo, outros muitos podem nada. Os eventos fundamentais do nosso tempo preocupam do mesmo modo tanto os que acreditam na ruína final, com seu desespero temerário, como os que se entregam ao otimismo temerário. Com tais palavras a cientista Hannah Arendt dá início a uma de suas clássicas obras, Origens do Totalitarismo.

Com o referido estudo a autora buscou compreender “como os fenômenos insignificantes, banais, desprovidos de importância na política mundial, como o antissemitismo”, transformaram-se em agente catalisador do violento movimento nazista e dos campos de extermínio de humanos. Para Arendt, compreender significa encarar a realidade e suportar conscientemente o fardo que os acontecimentos colocam sobre nós.

Segundo a autora, o real poderio do homem moderno aliado à sua incapacidade de viver no mundo criado por este mesmo poderio, e de lhe compreender o sentido, obteve como resposta o totalitarismo, o domínio total, ligando de modo bastante estranho o bem e o mal, com a emergência de um Mal Absoluto, um mal realmente radical.

Uma política totalitarista usa e abusa de seus próprios elementos ideológicos até que se disperse quase que completamente em sua base, inicialmente elaborada partindo da realidade e dos fatos – por exemplo, a luta de classes ou os conflitos de interesses entre judeus e seus vizinhos – que forneciam aos ideólogos nazistas a força dos valores propagandísticos. Assim, era fundamental o uso da MENTIRA (fake news) e do TERROR para a obtenção dos seus fins, visando tornar natural suas atrocidades.

O Terror ataca sem provocação preliminar e suas vítimas são inocentes, até mesmo do ponto de vista do perseguidor. Por exemplo, qualquer pessoa negra nos EUA, também no Brasil, como estamos testemunhando acontecer atualmente no estado de São Paulo, no governo de Tarcísio de Freitas, pode subitamente tornar-se vítima do terror policial, pelo simples fato de ser preta e pobre. E um dos objetivos desse terrorismo de Estado é imprimir medo nos corações e mentes das pessoas, além de lhes reforçar uma condição inferior no estrato social.

Exatamente como está ocorrendo na Faixa de Gaza, onde o governo nazi-sionista do primeiro-ministro israelense Netanyahu deflagrou uma ofensiva militar para dizimar o povo palestino. Em 9 de outubro de 2023 o ministro extremista da Defesa, Yoav Gallant, ordenou o cerco total à Gaza, bloqueando o suprimento de eletricidade, água e gás para uma população de 2,3 milhões de pessoas, bombardeando escolas, hospitais, templos religiosos, mulheres e crianças, com o total apoio do império estadunidense. Segundo o sionista Gallant, “o povo palestino são meros animais”.

Portanto, o estabelecimento de um regime totalitário requer a apresentação do terror como instrumento necessário para a realização de uma ideologia específica, que visa obter a adesão de uma massa de militantes, antes que o terror possa ser explicitado. Sua vítima não pode ser escolhida arbitrariamente, porque essa ideologia precisa tornar-se um dogma político, numa espécie de luta do povo de Deus contra o povo do Inimigo.

Como ocorreu no Brasil no período recente (2019-2022), quando o bolsofascismo esteve no poder. Durante aqueles quatro anos, ininterruptamente, foi colocada em marcha uma tentativa fraudulenta de construção de um dogma político, mediante a Mentira e o Terror, com amplo apoio de setores militares e religiosos cristãos, agora paulatinamente desvendadas as falcatruas por meio das investigações da Polícia Federal.

Emblemáticos foram os atos finais daquele desgoverno. No dia 12 de dezembro de 2022, segunda-feira, enquanto ocorria a diplomação no STF do presidente Lula, num verdadeiro cenário de guerra, militantes bolsofascistas, vestindo camisas verde-amarelas, tentaram invadir a sede da Polícia Federal em Brasília – DF, ateando fogo em ônibus e veículos particulares, espalhando o terror no centro da cidade, pedindo intervenção militar com discursos contra o Supremo Tribunal Federal (STF).

Em seguida, no dia 24 de dezembro, véspera do Natal, um Plano desalmado para detonar um caminhão carregado de explosivos na área de embarque do aeroporto de Brasília, do qual participou deste atentado Wellington Macedo, que trabalhou no Ministério da Mulher, durante a gestão de Damares Alves, foi desbaratado a tempo pela Polícia Militar do DF, evitando a morte de muitos inocentes.

Por fim, no dia 08 de janeiro de 2023, houve invasão e depredação dos prédios dos Três Poderes, com a participação inclusive de militares, seus familiares, além da articulação de alguns “kids pretos” (tropa de elite do Exército) nesse ato de terror. Somente após o malogro dessa sabotagem, é que os militantes acampados por mais de 70 dias nos muros dos quartéis foram dispersados.

Como lembra Arendt, para escapar do horror totalitário, não basta refugiar-se na nostalgia por um passado moral que por ventura ainda possa estar intacto. A dignidade humana precisa da elaboração de novas garantias, somente encontráveis em novos princípios políticos materializados em uma nova Lei e Ordem Mundial, cuja vigência alcance rigorosamente toda a humanidade, cujo poder deve permanecer estritamente limitado, estabelecido e controlado por entidades territoriais novamente definidas. Uma democracia global substantiva, muito mais atuante, vigilante e responsável, que faça chegar a todos os humanos os bens, materiais e imateriais, produzidos coletivamente pela espécie humana, por meio do desenvolvimento de uma Cultura Mundial da Partilha dos Bens e da Paz.

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

Mais do autor

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

1 comentário