Polícia e “show”, uma relação de simbiose

Dependência da polícia como fonte e percepção de uma audiência com visão maniqueísta da sociedade impede o programa de narrar os acontecimentos como de fato eles são

“Porque, se ele atirou, é porque o bandido tava armado. E ele fez muito bem, porque, repara: ele tem que defender a vida dele”. Com essa frase, o apresentador da Record Marcelo Rezende narrava uma perseguição policial que terminou de forma violenta, com um policial atirando contra dois homens no chão. As imagens, que também foram exibidas ao vivo pelo “Brasil Urgente” da Rede Bandeirantes, levantaram em muitos a dúvida: Como pode um programa exibir esse tipo de conteúdo?

Para entender um episódio como o do mês passado, a pergunta deveria ser: o que pensam os produtores dos vespertinos de crime urbano? Que função eles acreditam que servem?

Quando perguntados sobre o “porquê” do programa existir, os produtores e diretores respondiam duas coisas: porque a audiência “quer” e porque a audiência “precisa”. A primeira é uma versão repaginada do velho ditado: “se tem sangue, vende”. A segunda explicação, mais problemática, reflete sobre o que eles acreditam que a sociedade brasileira necessita quando se trata se segurança e justiça.

O que vem primeiro: o programa ou a audiência?

O conceito de “audiência imaginada”, definido pelas acadêmicas Danah Boyd e Alice Marwick, é útil para entender essa dinâmica. Elas explicam: “Todo participante em um ato comunicativo tem uma audiência imaginada. Quando falamos, pensamos que estamos falando apenas para as pessoas em frente de nós ou do outro lado do telefone, mas este é, em muitos aspectos uma fantasia.”

O apresentador, quando decide transmitir uma perseguição policial ao vivo e vibra com o policial atirando em supostos bandidos, tem uma construção social de quem é a sua audiência e como ela vai aceitar esse produto. Essa percepção é, por definição, fantasiosa. Não é possível isolar toda a audiência de um programa antes da sua existência e afirmar com certeza que tipo de conteúdo determinado público quer ou necessita. A audiência interage com o conteúdo do programa, modificando e sendo modificada pelo show.

Para o apresentador ou repórter dos programas de crime urbano, a audiência não somente deseja assistir a uma eletrizante perseguição policial, mas também anseia vê-la de uma forma distanciada de um modelo jornalístico que enfatiza a objetividade e imparcialidade. A audiência imaginada desses programas quer e precisa, acima de tudo, de “justiça”.

O grande desafio do programa de crime atual é se adequar a audiência imaginada que parece se tornar cada vez mais conservadora, mais frustrada com o “aumento da criminalidade” (ainda que sem dados que confirmem isso), mais disposta a apoiar medidas extrajudiciais para conter a onda de violência, incluindo execuções, linchamentos, pena de morte e redução da maioridade penal.

Nessa visão maniqueísta do mundo, o jornalista se insere no “nós” contra “eles”, os bandidos, o mal, o crime. Ao jornalista, a sua audiência está disposta a fazer vista grossa para violações de direitos humanos na luta contra a bandidagem. Quando o repórter aponta a câmera na cara de um preso e o zomba acusando de estupro, a audiência imaginada sente-se vingada. Vingada por ter medo de andar na rua livremente, vingada pela sensação de insegurança que vive no dia-a-dia. Naquele momento, a mesa vira e o bandido é quem está acuado, com medo.

Para os produtores e apresentadores, a função do programa de crime é personificar esse sentimento. Eles se tornam, portanto, vigilantes eletrônicos.

Nas minhas entrevistas, os repórteres e apresentadores de programas criminais relatam sentirem que cumprem um dever público, mediando a relação entre a população e o Estado. Eles se inserem na pauta, identificando culpados, motivos e defendendo punições específicas e medidas públicas para conter a violência.

No caso de muitos estados do Norte e Nordeste, a função de vigilante se torna ainda mais evidente: apresentadores são frequentemente eleitos para cargos legislativos e executivos com a promessa de combater duramente o crime, trazendo para o legislativo o trabalho iniciado na televisão.

Qualquer desvio dessa função é entendido como uma traição a audiência imaginada, fenômeno amplificado pelas redes sociais. No caso da perseguição policial, ao final do programa, Datena levantou a possibilidade de a polícia ter agido de forma irregular, e foi imediatamente reprimido nas redes sociais: “agora vai defender bandido”?

Polícia e o show: uma relação simbiótica

Questionar o trabalho da polícia não é somente algo passível de repreensão pela audiência, mas também arriscado para o processo de reportagem. Uma outra grande caraterística do programa de crime urbano é a dependência das fontes oficiais. O trabalho do repórter criminal começa e termina na polícia. É a polícia que garante acesso quase irrestrito a prisões, suspeitos, cenas de crime e grandes investigações. Questionar o trabalho da polícia põe em risco o relacionamento com a principal fonte de conteúdo para o programa.

Enquanto a polícia fornece informações necessárias para a construção da notícia, o jornalista fornece a divulgação necessária para os trabalhos da polícia. Essa relação simbiótica entre jornalista e fonte oficial não é única aos programas policiais, mas pode ser observada em todas as esferas do jornalismo: o repórter de política precisa ter uma boa relação com o assessor de imprensa do deputado, o repórter de esportes precisa agradar ao técnico.

Essa dependência, somada a percepção de uma audiência com visão maniqueísta da sociedade, impede o Cidade Alerta e o Brasil Urgente de narrar os acontecimentos como de fato eles são:  uma tentativa de execução de menores de idade transmitida ao vivo na TV aberta a tarde.

Se as vítimas eram bandidos ou não, se estavam rendidos ou não, isso é irrelevante para a audiência imaginada e pode fechar portas com a polícia em futuras reportagens. Ainda que o policial tenha sido afastado administrativamente, o incentivo para se questionar a polícia é, portanto, mínimo. Arrisca-se perder a audiência e perder a parceria.

Ao programa, o que resta é continuar retratando o crime de forma pontual e randômica, enfatizando-o como uma manifestação do “mal” que precisa ser contida a qualquer preço diante de audiência imaginada fica cada vez mais conservadora. Ao público, o programa criminal vespertino insere-se na como parte vital da política de “mão-dura” no combate ao crime, visto de forma simplista e descontextualizada, e que defende uma polícia (e cidadãos) que fazem justiça com as próprias mãos.

(Trecho do artigo de  Rachel Mourão, publicado em http://www.cartacapital.com.br)

 

 

 

Franzé de Sousa

Repórter Fotográfico/Videomaker, colaborador do Segunda Opinião.

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