Pílulas para o Silêncio (Parte CCLXXXVII) – Confidências a Verlaine

Estes lamentos
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.
(Paul Verlaine, em “Canção de outono”.)

É triste o pedestal, onde o nome do artista
Já mal se pode ler à luz da ramagem.

A ramagem alta encobre o nome altivo do poeta esquecido? Membro da trindade simbolista, pouco importa se pleno de glória, mas que, até hoje, me cativa com o seu estro; segundo alguns, formas mais musicadas do que escritas.
Haverá luz em seus versos, Verlaine?

No velho parque frio e abandonado,
Dois vultos evocaram o passado.

— Paul Verlaine? Artur Rimbaud? — indago.
Tanta evocação redimirá tamanha ofensa a tudo que nos condiciona e estigmatiza? O ouropel dos costumes, o mofo da mesmice, o repúdio às formas de amor padronizadas.
Olho para o lado e, neste parque imenso, há um vazio indizível e opressor.
Volto para casa, cabisbaixo. No quarto onde resido há um violão mudo; ele nunca acompanha “a voz dos botequins”, as canções dos apaixonados, porém sabe reclamar, em tom jocoso, dos deslizes que advêm dos sussurros assonantes.

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Sonhemos: é hora.

Os homens, com seus compromissos insensatos, me impelem a abarcar a contumaz rotina. Carrego nos meus ombros eras de repetições, tradição que me pesa e me escraviza.
Na esquina seguinte, o crepúsculo — “O lar, a estreita luz…” — invoca os meus segredos impublicáveis e… resolvo me rebelar, sonhando.

A tudo isso o meu sonho terno dedicou-se
Sem tréguas, contra vãs dilações cotidianas,
Devorando, impaciente, os meses e as semanas!

Some no tempo uma estrofe caduca; eu me esqueci de sua rima límpida, lá por detrás de tudo e, hoje, apenas a solfejo, ridiculamente. “O ridículo tem limites, como todas as boas coisas…”

A enxurrada entupindo o esgoto, o asfalto liso,
Eis meu caminho — mas no fim há um paraíso.

& & &

Mais do que o poema escrito, Verlaine, o instante; neste momento ímpar em que a rima pulsa sem a palavra incômoda, sem o sentido concreto, apenas e tão só com a perfeição da música dileta, a cativar os enamorados da harmonia.

Essa alma que se lamenta
Nessa queixa sonolenta
Não será a nossa, ai de nós?

Mordo a língua e colho o asco da lembrança de um poemeto meu distante. Nele, a presunção rimária, aliada ao vazio da forma.
Eu me inibo, e me constranjo poeticamente, quanto mais releio os mestres. E tu, Verlaine, não te queixas de mim?

É a maior dor — dói tanto! —
Não se saber por quê,
Sem ódio ou amor, no entanto
O coração dói tanto.

E a minha dor se encobre com o manto do silêncio e se ressente — mal necessário —, pois se apresenta gloriosa, mesmo sem saber o porquê.

O sino, sob o céu ao lado,
Dobra bem lento,
Um pássaro, na árvore ao lado,
Canta um lamento.

Sino de Licânia? Pássaro de minha terra? Lamento meu?
Todos os poemas — arte poética — que nos alumbram, fatal missão, revelam o nosso próprio eu.

É bom também que saibas medir
Teus termos, não sem certo descuido:
Nada melhor do que o poema fluido
Que ao Indeciso o Preciso unir.

& & &

Seja o teu verso a boa aventura
Esparsa ao áspero ar da manhã,
Que vai cheirando a giesta e hortelã…
E tudo mais é literatura.

Ficarei por aqui, Verlaine, na palidez desta manhã desterrada, “sem outra regra além do instinto”, longe dos meus, cativo nesta invernada, sem prenúncio de uma anunciada primavera, que teima em não vir, visto que é tão somente fastio e lágrimas.
— “Precisamos de frases para lutar por alguma coisa!”
— Verlaine! Volte aqui, seu maldito-bendito!

Fonte: A voz dos botequins e outros poemas, de Paul Verlaine (São Paulo: Hedra, 2014).

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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