Picasso — Arte e contradições

Pode-se chorar pedras/lágrimas como gotas de pedras/dentes que caem dos olhos/como se os olhos chorassem dentaduras de pedras/Nunca a dor chorou tão grande dor/lançando blocos de pedras/dentes e molares de dor/de pedra. (Poema de Rafael Alberti sobre a tela Mulher Chorando)*

O cinquentenário da morte de Pablo Picasso, maior nome da arte moderna mundial, em 2023, enseja a retomada de um debate extremamente rico em torno da relação artista/obra. Em meus tempos de cátedra nas disciplinas de história da arte e introdução à filosofia da arte, na universidade, muitas vezes deparava com questionamentos dessa natureza: “Professor como se deve lidar com essas diferenças?” O caso de Pablo Picasso era recorrentemente levantado, e os olhares sobre a questão, objeto de enriquecedoras polêmicas.

Em sua obra “Picasso, o Minotauro”, a jornalista Sophie Chauveau, explora as contradições homem/artista e conclui: Picasso era “ciumento”, “perverso” e “destrutivo”. Não sem razão, portanto, na esteira dos grandes eventos que marcam os 50 anos da morte do artista andaluz, para ficar num exemplo de maior relevância, a relação dele com as mulheres será objeto de importante discussão no Brooklin Museum de Nova York.

Para dar ao leitor ou leitora uma ideia do que está por trás da polêmica, recuo no tempo e reporto-me a dois fatos envolvendo o pintor de “Les demoiselles d’Avignon” e sua quinta mulher, a fotógrafa, pintora e poeta de origem croata, Dora Maar. Vamos ao primeiro deles.

Conhecendo-a superficialmente (fora apresentada a ele pelo poeta Paul Éluard), um dia Picasso a encontra brincando de fincar um canivete entre os dedos sobre a mesa de uma taberna. Numa das muitas repetições, eis que Dora Maar fere um dedo e o sangue logo encharca-lhe a luva. Picasso se aproxima dela e pede-lhe para guardar como lembrança sua luva suja de sangue, ao que Dora responde: “Por que não leva com você minha mão?” Saíram da taberna juntos, e assim viveriam por longos anos uma relação extremamente tóxica. Possuidor de uma personalidade doentemente vaidosa, machista e violento, Picasso submeteria Dora Maar a uma vida em nada condizente com o que fora antes de conhecê-lo. Passemos ao segundo fato.

Um dia, em 1945, Dora Maar pede ao pintor e a um amigo que se ajoelhem diante dela para adorar a Deus. Vitimada pelos maus-tratos do amante, Dora Maar enlouquecera e jamais se recuperaria de todo da doença. Eis um novo gancho para se levar adiante a polêmica.

Picasso realizaria numerosos retratos de Dora Maar, entre os quais destacam-se dois cujos traços fortemente inspirados no expressionismo revelam para além dos conflitos sociais tão recorrentes no conjunto de sua obra. Se, numa perspectiva é nítida a visada dramática sobre a Guerra Civil Espanhola, a exemplo do que fez na monumental “Guernica”, 1937, noutra, traz à tona as crises de relacionamento que marcaram sua vida com as muitas mulheres com quem se relacionou, nomeadamente com Dora Maar.

Em “Retrato de Dora Maar”, 1937, óleo sobre tela exposto no Museu Picasso, Paris, deparamos com uma mulher sentada dentro de um ambiente claustrofóbico, como a sugerir um tipo de prisão a que está condenada, em que pese a serenidade de sua expressão a um tempo elegante e pensativa. Do ponto de vista formal, no entanto, a obra assenta-se num admirável equilíbrio entre o traçado geométrico e a força decorativa da imagem. Veem-se linhas em que se combinam o perspectivismo (pontos de fuga) e a centralidade da figura retratada. Ainda que intencionalmente deformada, a fatura estética resulta num registro belo e sedutor, como a dizer da mulher talentosa e inteligente que foi Dora Maar.

Do mesmo ano, no entanto, “Mulher Chorando”, coleção particular, Londres, constitui um dos mais dramáticos, tensos e comoventes quadros de Picasso. Nele é visível o desprezo por qualquer correspondência entre as formas adotadas pelo artista e a realidade anatômica de Dora Maar: as mãos crispadas sobre o rosto em pranto convulsivo, os dentes como a escorrer dos olhos como blocos de pedras, no dizer poético de Rafael Alberti sobre a tela. Embora se saiba que essas distorções estão relacionadas com a percepção que Picasso tinha do mundo, marcada pelo que levaria críticos a defender a presença de elementos surrealistas em sua obra, o que considero uma subjetivação improvável, a expressão monstruosa da mulher reflete as dores de Dora Maar sob a masculinidade tóxica do amante.

Gênio, mulherengo, narcísico, dono de um temperamento ciclotímico, Pablo Picasso morreu em 8 de abril de 1973. É nome inconteste do ponto de vista estritamente artístico, tendo transitado com igual competência da fase Azul (1901-1904), passando pela fase Rosa (1905-1907) e pela Africana (1907-1909), até chegar aos dois cubismos, o analítico e o sintético, entre 1909 e 1919. Os quadros, no entanto, que mais dizem de sua personalidade flutuante, embora extraordinários como objetos rigorosamente estéticos, situam-se entre o surrealismo improvável e o expressionismo pungente com que imortalizou mulheres lindas e talentosas com as quais viveu.

No Março da Mulher, a um mês da data exata, qual o Picasso para o qual se devem voltar nossos olhares no cinquentenário desde o seu falecimento? O dos olhos amendoados de Fernande Olivier, o do rosto ovalado de Olga Khohlova, o da cabeleira abundante de Françoise Gilot, o da loura terna e doce de Théresè Walter, a da angustiada e bela Dora Maar, da indefinível feminilidade de Jacqueline (todas retratadas por suas pinceladas desconcertantes), ou o do machista ranzinza e indefensável de que nos falam seus melhores biógrafos?

*Tradução livre minha.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

3 comentários

  1. Maria José de Andrade Souza

    Para qual Picasso dirigir o olhar? Pa4a os dois – artista e narcisico respondendo sua pergunta, Álder. Mas se quisermos ir além, olharemo também para os muitos outros eus que o habitavam ou constituiam sua personalidade polifacetada. Parte da riqueza do homem está na sua incompletude como afirmava MBarros mas também na sua capacidade camaleônica . Criatividade/destrutividade, beleza e feiúra, amor e ódio, vida e morte estão sempre se entrelaçando, em composições ora belas ora grotescas num intercâmbio constante que abrange a srte e seus criadores. Então Álder se olhamos para o mundano Picasso flagramos o homem de ego hipertrofiado e vulgar com as mulheres mas também contemplamos o ser complexo e genial que ele foi;

  2. Osvaldo Euclides

    COMENTÁRIO DE PAULO ELPÍDIO MENEZES…

    A leitura deste discurso impresso (resisto à redução da criação do pensamento à categorização banaliza dora de “texto”), trouxe-me de volta algumas reflexões entre o autor e a “sua” obra.

    Fui puxado pela sua arguta leitura de uma relação que, se ganha expressão literária, muito mais parece produto de uma engrenagem psicológica que faz de cada criador destruidor em potencial da sua criação — no conflito entre o artista e a sua obra. Ou a distância entre a inspiração e a linguagem que o criador abre na configuração do seu trabalho.

    Tenho Picasso como a expressão maior da arte contemporânea (nesta datação, incluo o moderno e tudo o que representam a suma de várias épocas, as numerosas escolas e um acúmulo de vaidades dispersas). Associaria a escolha escolha, nos limites destes critérios temporais e artísticos — Goya, Matisse e Van Gogh…

    Picasso, no plano das suas íntimas cogitações, sabe-se lá quais eram, foi um destruidor de afetos. De amigos e paixões transitórias. A sua técnica é, como deveria ser, a linguagem dos seus significados estéticos, permita-me a licença…

    Todo este atrevimento para dizer ao Mestre como este escrito mexeu comigo. Dei-me vontade de mais dizer sobre a leitura concluída em dois lances acurados de quem procura colher com avidez os bons ensinamentos do crítico.

    Forte abraço.