PETRÓLEO NÃO É HAMBÚRGUER

Talvez alguns ainda guardem na lembrança o episódio, logo no início do governo Bolsonaro, quando seu filho Eduardo, vulgo Zero Três, postulava a titularidade da Embaixada do Brasil nos Estados Unidos, um dos mais altos cargos da diplomacia brasileira, fundamentando-se, como seu pré-requisito qualificante, na zombaria de haver fritado hambúrgueres no frio do Maine (EUA) e numa montanha do Colorado, tratando a Embaixada brasileira como se fora extensão do quintal de sua casa.

O primeiro embaixador (1905-1910) da república do Brasil nos Estados Unidos foi o intelectual, diplomata, historiador, jornalista, abolicionista e jurista pernambucano Joaquim Nabuco, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e da Sociedade Antiescravidão Brasileira. Entre as suas muitas ações diplomáticas e culturais, Nabuco propagou amplamente a obra “Lusíadas”, de Luís de Camões, tendo pronunciado em inglês diversas conferências sobre o poema. Em 1908, recebeu o título de Doutor Honoris Causa em Letras pela Universidade de Yale (EUA).

Lembremos também outro episódio, no início do governo, em 17 de março de 2019, setenta e cinco dias após a sua posse, em jantar com representantes da extrema-direita estadunidense, o capitão admitiu haver chegado ao poder para levar adiante um projeto de desconstrução de inúmeras conquistas nacionais. Afirmou: O Brasil não é um terreno aberto onde iremos construir coisas para o nosso povo. Nós temos de desconstruir muita coisa”.

Juntos, os dois episódios de Pai e Filho, indicam exemplarmente o grau da total desqualificação profissional do bloco de poder eleito em 2018, bem como sua maldosa orientação política predatória do patrimônio nacional.

Na segunda-feira passada, 22, soube de um amigo de Santa Catarina que sua empresa havia faturado em 2020 o montante de R$10 milhões (dez milhões de reais), auferindo um lucro líquido de R$1,2 milhão (um milhão e duzentos mil reais). Mesmo assim estava preocupado. Auditoria externa por ele contratada havia detectado pagamentos indevidos da ordem de R$50 mil (cinquenta mil reais), porque um de seus compradores combinou com fornecedores preços acima dos praticados pelo mercado, ocasionando esta perda. Ele estava a me indagar se deveria fechar a empresa devido a este prejuízo correspondente a 0,5% do seu faturamento.

Primeiramente disse-lhe que muito provavelmente esses R$50 mil deveriam ter sido diluídos nas operações de venda, ocasionando uma redução de lucro e não propriamente um prejuízo. Outra opção de raciocínio poderia ser que, como sua empresa auferiu um lucro líquido de R$1,20 milhão, descontados os R$50 mil, o resultado final do lucro anual líquido ficaria no valor deR$1,15 milhão (um milhão e cento e cinquenta mil reais). Não teria sentido algum fechar a empresa. O correto seria demitir o funcionário corrupto e tocar a empresa para lucrar ainda mais.

Em dez anos, de 2005 a 2014, durante os dois governos do Presidente Lula e no primeiro governo da Presidenta Dilma Rousseff, a receita líquida da Petrobrás foi de US$1,2 (um trilhão e duzentos bilhões de dólares estadunidenses), situando-se entre as 10 maiores empresas do mundo, auferindo neste período um Lucro Líquido da ordem de US$145 bilhões (cento e quarenta e cinco bilhões de dólares). Registre-se: adotando uma precificação baixa dos combustíveis para os consumidores brasileiros, comprovando que é possível ter uma política de preços que viabilize para o mercado doméstico um amortecimento dos impactos da subida dos preços internacionais, ao mesmo tempo garantindo o lucro dos acionistas.

Em 2013, Edward Snowden, ex-agente do serviço secreto estadunidense, denunciou que a Petrobrás estava sendo alvo de intensa espionagem pelo Deep State dos EUA, no governo de Barack Obama. Coincidentemente, em 2014, no Brasil, é instalada a assim chamada Operação Lava Jato, sob o comando de Sérgio Moro (codinome Russo),com o pretexto de investigar suspeitas de corrupção naquela empresa, exatamente no período de 2005 a 2014.

Depois de dezenas de delações premiadas, pressões psicológicas, inúmeras prisões preventivas e humilhações públicas de biografias pela televisão global, a Lava Jato disse haver ocorrido pagamentos indevidos no período compreendido, operados por alguns funcionários da Petrobrás, no total estimado entre US$2,5 a US$6 bilhões, ou seja, no máximo, algo em torno 0,5% da receita líquida da empresa em dez anos. Mas, em vez de punir os funcionários corruptos, a Lava Jato de Russo penalizou publicamente, pela mídia hegemônica, a empresa Petrobrás bem como todo o arranjo econômico produtivo de empresas a ela agregado, promovendouma quebradeira geral e desemprego em massa.

Ou seja, a Lava Jato de Russo não somente abriu as portas para o Golpe de 2016, para a prisão ilegal tirânica de Lula e à eleição de Bolsonaro, mas deu um tiro certeiro para o desmonte da maior empresa brasileira, uma das 10 maiores do mundo, e do arranjo produtivo a ela agregadoA Lava Jato, ao invés de ir atrás dos funcionários corruptos, destruiu a Petrobrás. Russo e Dallagnol sabiam muito bem o que faziam.

Importante registrar que a Polícia Federal não viu, nem a Auditoria Interna da Petrobrás, os Auditores Externos não viram, o Tribunal de Contas da União não viu, a Imprensa não viu. Tudo isso só apareceu depois da espionagem feita pelos EUA.

Segundo o ex-presidente Sérgio Gabrielli, a descoberta do Pré-Sal foi o elemento chave, para atrair a atenção dos sistemas de espionagem dos EUA e do mundo. Não interessava ao império estadunidense permitir ao Brasil consolidar sua forte liderança no BRICS, sua influência na engenharia de grande porte disputando com eficácia os mercados latino-americanos e africanos, despontando como o grande país que utilizaria as riquezas do Pré-Sal para financiar uma transformação educacional nacional para viabilizar sua nova inserção na economia internacional.

Hoje o Brasil, devido ao governo bolsonarista, é um pária no mercado internacional. Perdeu prestígio, perdeu significância e perdeu qualquer papel na política mundial.No governo Bolsonaro, a Petrobrás está sendo dilapidada, quebrada toda a sua estrutura integralizada, pela venda da BR Distribuidora, das Refinarias, dos Gasodutos. Hoje a Petrobrás pagou no trimestre US$6 bilhões de aluguel por gasodutos que na época dos governos Lula e Dilma eram de sua propriedade, ou seja, pagava aluguel zero. Esse é apenas um exemplo do esfarelamento da Petrobrás pela privatização posta em movimento pelo governo Bolsonaro, que reduz fortemente as vantagens sistêmicas de um modelo integrado da Petrobrás construído nos governos do Partido dos Trabalhadores (PT). Hoje o gás de cozinha está custando R$90,00 (noventa reais) e a gasolina flerta com o preço R$6,00 (seis reais). Petróleo não é hambúrguer, é geopolítica estratégica e soberania nacional.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .