PÉS DE VIDRO

Terça-feira, 27/04, tiveram início os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid 19 – CPI do GENOCÍDIOsob a relatoria do senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Por meio de um discurso muito denso e sereno, digno de quem já ocupou por quatro ocasiões a Presidência do Senado, Renan pontuou o trágico quadro de uma morte a cada vinte segundos ocorrida neste mês de abril: dado superlativo que merece séria reflexão por parte dos membros da CPI sobre o direito dos brasileiros à vida e por que está sendo negado.

Outro acento importante firmemente destacado pelo relator: Não somos discípulos de Deltan Dallagnol, nem de Sérgio Moro. Demarcando explicitamente que não agirá como aqueles gatunos e nem tampouco será teleguiado pelo comando do “Deep State” estadunidense que arquitetou e operou o Golpe de 2016, por intermédio da batuta desses dois agentes, como tão bem publicou a reportagem do jornal francês Le Monde do dia 10 de abril, para colocar o inepto capitão na cadeira presidencial por meio do impedimento ilegal do Presidente Lula na disputa eleitoral de 2018.

Renan destacou que CPIs historicamente vicejam quando os canais tradicionais de investigação mostram-se obstruídos. No pior da Covid, em apenas 4 horas, o número de brasileiros mortos pelo vírus foi igual ao de todos os pracinhas do exército que tombaram nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial: “temos que explicar como e por que isso ocorreu, pois os brasileiros estão morrendo numa velocidade avassaladora” afirmou.

Acrescentou que é preciso averiguar fatos e desprezar farsas responsáveis por uma desoladora necrópole que se expande diante da incúria e do escárnio desumano. Basta de mentiras. Não foi o acaso nem a vontade divina que nos trouxe a este quadro. Há responsáveis, há culpados, por ação, por omissão, desídia ou incompetência e eles serão responsabilizados. Os crimes contra a humanidade não prescrevem jamais: o país tem o direito de saber quem contribuiu para centenas de milhares de mortes e eles devem ser punidos imediata e emblematicamente”, concluiu o Relator.

Dito isto, passemos para a percepção da conjuntura externa na qual a CPI do Genocídio é instalada no dia 27. Primeiramente ela se situa no momento em que ao Presidente Lula foi-lhe corrigida uma injustiça histórica pela perseguição a que foi submetido, resultando numa prisão ilegal de 580 dias, sentenciada por Moro (codinome Russo) e confirmada aberrantemente pelos três desembargadores do TRF-4. O Supremo Tribunal Federal (STF), em sessão do Pleno, no dia 22, restabeleceu todos os direitos do Presidente que lhe haviam sido rapinados por aqueles agentes. Destaque-se que nem antes, nem durante, nem após a referida sessão houve tuite do general comandante do exército ameaçando o STF, como ocorreu em abril de 2018.

Um segundo dado conjuntural relevante trata-se do ambiente no entorno do capitão: 1) catástrofe sanitáriacom descalabro econômico; 2) nítido isolamento internacional; 3) desintegração moral, por ele fomentada, da sociedade brasileira, fundada em ódios, fakes, zombarias, necropolítica, ausência de projeto democrático de nação; 4) ausência de partido político, como ocorreu com Collor no passado.

Nesse contexto, registra-se uma grande baixa sentida coma saída de Ernesto Araújo, logo no início de abril, exigida pelo Senado Federal. Araújo era o agente que ligava o capitão diretamente a Donald Trump: enquanto presidente dos EUA, Trump comportava-se como guarda-chuva protetor dos devaneios praticados pelo seu correspondente no Brasil. Araújo era a personificação do olavismo fundamentalista do qual o gado brasileiro se alimenta, cuja importância estratégica ideológica é fundamental para os sonhos ditatoriais.

Consequência direta desse desarranjo foi a mudança ministerial com a qual sacrificou um general amigo: Fernando Azevedo, ministro da Defesa. Em seguida, colocou no lugar de Aráujo um desconhecido funcionário do cerimonial do palácio sem nunca ter sido embaixador ou feito carreira diplomática, apenas amigo dos filhos Zeros. Por fim, chamou um delegado de polícia para ser ministro da Justiça e, no lugar de Azevedo, uma deputada do Centrão para ficar de olho no repasse de verbas. Ou seja, o capitão deixa a entender que não tem muitas cartas de peso na manga para o jogo no momento em que este endurece. Dito de outra forma, ele está sem capacidade de convocação. Está fragilizado, deixando transparecer seus pés de vidro.

Resta saber até quando o Centrão e as Forças Armadas continuarão dispostos a assumir sobre suas costas a responsabilidade de meio milhão de mortos pela Covid19 que se anunciam para o final do mês de maio e início de junho. Lembrando o desastre que foi a gestão do general da ativa Pazuello à frente do ministério da Saúde, motivo da investigação pelos senadores. Atento a isso, o STF já obrigou o governo a realizar o Censo 2021.

Então, vamos continuar de olho na CPI do Genocídio e no ambiente externo a ela. Haverá novidades.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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1 comentário

  1. Gilmar OLiveira

    Gilmar OLiveira

    Pés de Vidro, texto primoroso de Alexandre Aragão de Albuquerque. Retrato bem tirado da caótica situação em que as forças reacionárias de direita colocaram o Brasil. O cárcere será punição leve para todos eles … que são muitos. A justiça na medida certa, embora tardia, virá com os registros históricos.

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