Perdoem-nos, autóctones americanos

“No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade.” Chico Mendes

​Sempre fico me perguntando qual foi o sentimento daqueles seres humanos ao verem chegar pelo mar, no nosso litoral, naus gigantes no ano de 1.500 da nossa era.
Seria o mesmo caso víssemos hoje aterrissar uma nave espacial com seres interplanetários?

Sim, é bem possível que tivessem tido um sentimento de curiosidade e medo perante aqueles milhares de homens cobertos com vestimentas desconhecidas, barbudos (muitos deles doentes por escorbuto), falando um idioma desconhecido, e trazendo nas mãos estranhos objetos que cuspiam fogo e outros cortantes como facas e espadas, e que representavam para os autóctones tipos diferentes, ainda que de uma mesma espécie humana.

Surpresos, ingênuos, desconfiadamente receptivos, não tinham para com os estranhos visitantes e suas embarcações nenhuma animosidade e nada mais do que curiosidade.

Por seu turno os visitantes, sempre se considerando superiores, olhavam e tratavam aqueles hominídeos como seres quase humanos, em face de que tinham saberes desconhecidos por aqueles a quem consideravam destituídos de qualquer saber mais evoluído.

Qual o sentimento social dos visitantes?
Seria muito diferente dos que hoje saqueiam a Amazônia via garimpo predatório e ilegal de minérios?
– dos que cultivam o plantio de plantas alucinógenas e processamento destas para a comercialização dos seus derivados pelo narcotráfico?
– dos que promovem a pesca predatória e ilegal?
– que são responsáveis pela devastação madeireira que ao mesmo tempo em que avança celeremente no desmatamento, provoca incêndios e emissão de gás carbônico poluente na atmosfera, competindo com os grandes emissores industriais?

Guardadas as diferenciações de tempo, ou seja, de um capitalismo iniciante naquele final de século XV e albores do século XVI, para o capitalismo desenvolvido de hoje, o sentimento de saque é o mesmo, e a diferença é que as armas de hoje dos visitantes da Amazônia são bem mais letais.

Somos, hoje, a resultante de uma civilização escravista e, portanto, incivilizada. O nosso exemplo de civilização para os autóctones não apenas se mostrou covardemente escravista e assassino, como estruturalmente perverso.
Assassinatos, escravização, opressão econômica e política, misoginia, racismo, homofobia, entre outras mazelas humanas, são traços marcantes de uma civilização moralmente decomposta, dita “moderna”, e que tentou e tenta impor para os autóctones ainda remanescentes os seus valores decrépitos.

Como seria o convívio com os autóctones se ao invés de saques e comportamentos segregacionistas que se evidenciaram logo nos primeiros contatos, demonstrássemos espírito solidário de troca de informações e partilha, ao invés de trocas de espelhos por ouro;
– de mandar que se ajoelhassem diante de um Deus antes desconhecido;
– de ensinar-lhes e impor-lhes o sentido econômico-jurídico de propriedade;
– e se os tratássemos como seres humanos iguais?

Os autóctones, mesmo sem os conhecimentos da ciência de ontem e de hoje, têm para com os seus uma relação social verdadeiramente humana, solidária e comum, ou seja, são comunistas no sentido superior do termo.

Eles, desde ontem e ainda hoje, não escravizam;
– não batem nas suas mulheres;
– protegem suas crianças e idosos;
– não acumulam de modo excludente riquezas abstratas e materiais;
– e partilham tudo que produzem e consomem, menos quando são contaminados e corrompidos pela ganância dos ditos civilizados que os iludem com álcool e falsas riquezas.

Mas há seres humanos que mesmo tendo nascido e tenham sido criados na civilização ocidental originalmente feudal, e posteriormente capitalista, insurgem-se contra todas as suas mazelas, como é o caso de Bruno Pereira e Dom Phillips.

Estes são reconhecidos facilmente pelos autóctones como um dos seus; interagem com estes últimos; estabelecem relações humanas de trocas de informações indispensáveis à vida numa região tão bela quanto inóspita; enfim, ensinam a boa lição e a aprendem e apreendem do mesmo modo.

Imaginemos que se ao invés de homens armados e financiados por um reino que tinha interesses econômicos nas expedições marítimas em busca de novos territórios onde pudessem fincar suas bandeiras e propriedade, afirmando o poder então instituído (do mesmo modo que o faz o crime organizado na Amazônia de hoje), por aqui chegassem milhares de Brunos Pereiras e Dom Phillips com o mesmo espírito respeitoso e solidário destes últimos?
É evidente que construiríamos uma sociedade profundamente diferente da que temos?

Como seria se nos Estados Unidos e no Canadá, os colonizadores europeus ao invés terem promovido a matança genocida de peles vermelhas pelos cowboys e cavalarias, tivesse prosperado uma civilização solidária firmada nos princípios de civilidade ao invés da guerra fratricida, tão comum ontem como hoje?

Quando vemos um presidente da República, afirmar do alto de sua ignorância, que o indigenista e o jornalista assassinados na região do Rio Javari, fronteiriça com a Amazônia peruana e a colombiana, foram imprudentes ao se aventurarem numa região conflagrada, e que quando sabermos que os organismos ambientais de fiscalização e combate aos crimes ambientais e econômicos ali existentes foram precarizados, podemos inferir disso algumas deduções estarrecedoras:
– que há um reconhecimento oficial de impotência governamental diante do crime organizado que atua na região;
– que há uma premeditada intenção oficial de desarticulação dos organismos oficiais de combate aos crimes ambientais e econômicos;
– que há uma visão oficial equivocada de “integração” humana da Amazônia, como desculpa esfarrapada de um fantasioso (ou mesmo presumidamente real) combate à “entregação” da Amazônia ao internacionalismo ganancioso;
– que a culpa do assassinato dos dois ambientalistas recai em parte a quem ousa defender a Amazônia dos criminosos, pois, afinal, para o governante atual é melhor não se aventurar em tal defesa, porque ela é, sobretudo, perigosa!!!!

A conclusão final é de que começamos mal e ainda estamos no estágio inferior deste processo e, pior, agravado por uma crise de saturação do modelo capitalista decadente instituído. A conquista das Américas pelo mundo “civilizado” europeu, com sua transição do feudalismo para o capitalismo ao tempo de tais conquistas, trouxe no seu interior todas as mazelas que se constituíam como seu ethos fundamental.

Entretanto, o processo histórico dialético está a demonstrar que, enquanto os humanos estiverem sobre a face da terra, não haverá mal que dure para sempre e, como uma flor que nasce da lama, há os que se insurgem contra o status quo degradante estabelecido e oferecem a própria vida em sacrifício e testemunho simbólico e material do anúncio da resistência capaz de promover a superação e a transcendência.

​Bruno Pereira e Dom Phillips, como tantos outros que vêm sendo assassinados na Amazónia, representam o que há de melhor na humanidade e a certeza que o ainda poderemos caminhar no sentido da verdadeira civilidade.
​Portanto, perdoem-nos todos os autóctones americanos!

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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