PELO ESGOTAMENTO DA PASSIVIDADE

Violência e mais violência, sempre produção de ameaças, misérias e mortes. Se olharmos para frente, temos a impressão de que com o passado se foi o nosso melhor. Uma violência incessante não tem trégua, é sempre um recomeço, uma bolsonarização mortífera constante. Se da Bolívia e do Chile surge um sol radiante, empurrando os ventos sombrios, no Brasil, a maldição neopentecostal usa o nome de Deus em vão, anulando as benções de Deus. Além disso, o ministro Ricardo Sales, a ministra da Agricultura e os militares abrem as porteiras, destruindo o que era bonito por natureza. No nosso país, ao contrário do que pensava Caetano, para quem “a força da grana ergue e destrói coisas belas”, o capital é manco; não ergue, só destrói as coisas belas.

Diante de tempos tão sombrios e do protofascismo no governo militarizado de Bolsonaro, enquanto os pobres se ocupam em garantir condições mínimas de sobrevivência, os ricos focam em acumular riquezas e violentar a sociedade; a classe média intelectualizada em berço esplêndido lê os seus livros e participa de lives; a outra classe média, a que bateu panela em favor do golpe contra o governo Dilma, movida, também, pelo ódio aos pobres, não pode mais pagar um plano de saúde, tampouco a escola privada que promete obter o primeiro lugar no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) para os seus filhos e atrasa o pagamento da taxa de condomínio, mas continua acreditado que a violência e a corrupção diminuíram e que privatizar tudo é preciso.

O nosso pessimismo e a nossa sensação de impotência perante os que acumulam riquezas reside no fato de que os que controlam o poder estatal no Brasil acabam neutralizando a nossa capacidade política transformadora, impedindo-nos de criarmos espaços novos de respostas políticas e outras visões de mundo. Em vez de partimos para a ação mobilizadora como sujeitos políticos arriscando outros horizontes, estamos ancorados em ideias esgotadas, à espera de uma mágica que traga de volta uma realidade recente, como se de nada melhor fôssemos capazes.

Será que os nossos hábitos midiáticos e os nossos vícios tecnológicos não estão determinando, em algum grau, a nossa imagem de mundo e nos acomodando a uma condição de sobrevivência? Então, resignar-se ou agir?Tenho um sentimento de que a sensação de passividade precisa dar lugar a uma ação ativa não pacífica, que a realidade pede uma desobediência epistêmica e civil. Será que é só um sentimento ou uma necessidade?

Uribam Xavier

Uribam Xavier - gosta de café com tapioca e cuscuz, peixe frito ou no pirão, de frutas e verduras, antes de ser hipertenso era chegado a uma buchada e a um sarapatel. Frequenta o espetinho do Paraíba, no boêmio e universitário bairro do Benfica [Fortaleza], e no pré-carnaval segue o bloco Luxo da Aldeia. É professor, ativista decolonial e anti-imperialista, escrever para puxar conversa e fazer arenga política. Seus dois últimos livros são: “América Latina no Século XXI – As resistências ao padrão Mundial de poder”. Expressão Gráfica Editora, Fortaleza, 2016; “Crise Civilizacional e Pensamento Decolonial. Puxando conversa em tempos de pandemia”. Dialética Editora, São Paulo, 2021

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.