Peixinhos do Mar

A autora é psicanalista, especialista pela USP – Dpto de Psicologia, Psicóloga Clínica formada pela USC, responsável pelas páginas Cinema e Arte no Divã e Auguri Humanamente.

 

No dia 1 de janeiro assistimos a posse do novo presidente. Foi inesquecível ele subindo a rampa da esplanada acompanhado de pessoas que representam a maioria em nosso país. Um ato democrático e humanizado!

Depois de uma semana assistimos no mesmo local um ato de barbárie onde pessoas que estão desacreditadas com os resultados nas urnas depredaram obras de arte, o espaço público, um local de trabalho mantido por todos a serviço da democracia.

Por manifestação se entende o ato de exprimir e se pronunciar publicamente, de revelar pensamento, ideia e expressão. Um ato constitutivo que se espera ser realizado sem violência e danos aos outros e ao espaço público.

Já por vandalismo se entende ação de vândalos que consiste em atacar produzindo ruína, devastação, estrago e destruição de monumentos públicos ou particulares, ato de atacar coisas belas ou valiosas com o propósito de arruinar.

A palavra hostil vem de hoste, ou seja, grupo ou bando de pessoas orientadas para o alcance da violência coletivamente instrumentalizada como nas tribos de vândalos.

Lembremos que os vândalos eram bárbaros germânicos que chegaram ao norte da África no século V fundando um Estado que antes havia sido a cidade de Cartago, e chegaram em Roma saqueando e destruindo inúmeras obras de arte. Vândalo quer dizer errante, sem destino, e foi introduzido por um bispo francês em 1794 para denunciar a violação do patrimônio artístico cultural promovido pela Revolução Francesa no contexto do ódio. Os vândalos receberam uma carga de força histórica proveniente de um conjunto de lendas e mitos, quase sempre atrelado a destruição e sem base ideológica.

Em 1915 Einstein foi convidado pela Sociedade das Nações, hoje ONU, para iniciar uma conversa entre intelectuais sobre o sentido da violência e da guerra entre os homens. Ele escolheu Freud como seu interlocutor e lhe enviou uma carta convincente sobre como os homens deveriam se entender pois para ele o ódio e a violência não pareciam serem inatos.

Freud respondeu que isto lhe parecia demasiadamente improvável e que a violência partia de um certo modo de funcionamento da cultura ou da incidência da cultura sobre a subjetividade, sendo muito difícil de superar enquanto não houvesse uma imersão que proporcionasse ao indivíduo entrar em contato com a origem de sua agressividade, esta que dificulta pensar o porquê quando os homens estão sob o domínio da irracionalidade são capazes de exercer atrocidades que se potencializam nos fenômenos grupais.

Estamos diante de qual situação no Brasil?

Quando Freud fala da subjetividade, estamos diante de uma evidência pertinente aos homens. Nascemos com potencial para ao decorrer de nossa existência termos acesso a experiências que nos validem como seres humanos, exercendo nossa subjetividade pela ação da construção do pensamento, que ao entrar em contato com as experiências emocionais, deveriam nos fazer capaz de ter o entendimento necessário na busca da construção e não da destruição. Este seria o cenário almejável como seres humanos quando nossas experiências desde o nascimento nos tornam capaz de usar nossa potencialidade constitutiva na sobrevivência de nossa própria espécie. Do contrário, estaríamos vivendo sob o domínio do olho por olho, do dente por dente, da destrutividade.

Quando traçamos um paralelo na subida da rampa do dia 1 de janeiro e na barbárie que assistimos no dia 8 de janeiro, nos fica claro quem está sob o domínio da pulsão de vida, e quem está sob o domínio da pulsão de morte. Quero deixar claro aqui que devemos pensar em indivíduos e grupos e sua agressividade e não somente em partidos políticos, pois no caso da barbárie que assistimos domingo, trata-se de um grupo que se empoderou do vandalismo.

A subjetividade tem como característica ter todos os fenômenos psíquicos entrelaçados ao indivíduo e considerados por ele como seus, fazendo-o pensar sobre sua maneira de ser e agir a fim de estabelecer uma relação individual consigo próprio que dê conta de se conhecer e saber sobre suas próprias atitudes. Na psicanálise a subjetividade é dividida em duas ordens de funcionamento, relativas ao consciente e ao inconsciente, sendo essencialmente constituída pela sintaxe inconsciente, sujeito do desejo, delineado por Freud através da noção de inconsciente.

Desde o nascimento, trazemos a marca do amor e do ódio, e se ao longo da nossa trajetória temos experiências humanizantes, nos tornamos capaz de optar por escolhas de amor e pulsão de vida, domando nossos instintos de ódio e pulsão de morte: apatia, alienação e angústia são marcas em que a falta não se instala de maneira efetiva.

Quando leio uma carta de Einstein para Freud e me deparo com uma leitura de 1915 onde a ONU pede entrelaçamento entre pensadores sobre os dramas da humanidade como a violência e a guerra, eu só posso crer estar no caminho certo quando escolhi a psicanálise, quando escolhi o amor, a humanidade, a democracia, e pensar e conviver com as dores do ser humano.

Penso que precisamos ter coragem para nos manifestar e sermos protagonistas das verdades que acreditamos, e quando vemos atos humanitários x atos de vandalismo, independente do partido e em quem votamos, termos a coragem de repudiar atos que não visem a construção e sim a destruição, assim como aplaudir atos que predominam construção e a inclusão.

Estar em sintonia com o modelo humanitário de sobrevivência é sobretudo ser capaz de olhar além dos privilégios e em nosso quadrado, para poder subir a rampa junto com aqueles representantes massacrados pela história.

Será que a Humanidade caminha para a triste realidade que vimos dia 8 de janeiro?

O que assistimos dia 1 de janeiro nos dá esperança, desejo de melhorar, de incluir, de olhar ao redor, de respeitar as diferenças, de não impor mantra aos outros, e de ser protagonista da sociedade que queremos para todos e nossos descendentes.

Não se trata de ser de um partido ou de outro, trata-se de ter clareza para entender a linha tênue que divide o normal do patológico, e lutar pelo mundo que pretendemos construir.

No caso das permissões, por vezes não falar e fazer nada é a coisa mais violenta que podemos fazer e pretender enquanto seres humanos. O que aconteceu dia 8 não pode acontecer nunca mais.

Há situações em que a única coisa realmente prática a se fazer é resistir à tentação de ação de revide imediato, e lutar por meio de uma análise crítica e paciente que seria capaz de nos levar ao caminho de uma nova humanidade, imitando, aprendendo ou pensando as ideias de Freud, Einstein, Bion, Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Abbé Pierre, Chiara Lubich, Martin Luther King, e todos ou muitos que pensaram e fizeram tantas coisas por nós e para nós.

Onde existe prazer em destruir, a construção e o amor está longe de existir, não havendo aspiração justa e indiscutível para a paz.

Quando a paz universal entre os homens for o horizonte de conclusão da declaração dos direitos humanos, estaremos entrando no esboço da democracia que tanto almejamos, estando a partir de então, praticando a civilidade como cidadãos que inclui a cultura, a educação, o respeito, o amor, a liberdade sem destruir o direito dos outros, e quem dirá o patrimônio público.

Em tempo, este texto foi escrito ao som da música “Peixinhos do Mar”, de Milton Nascimento.

 

 

 

 

 

Claudia Zogheib

Claudia Zogheib é Psicanalista, Psicóloga Clínica, especialista pela USP- Departamento de Psicologia. responsável pelas páginas Cinema e Arte no Divã, Auguri Humanamente www.claudiazogheib.com.br / www.augurihumanamente.com.br

Mais do autor - Website

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.