PARA PRONUNCIAR O MUNDO: PEDAGOGIA DE PINOCHET X PEDAGOGIA DE PIAGET, por Carlinhos Perdigão

O ato de conhecer, de adquirir conhecimento, envolve processos. Inclusive de amadurecimentos. Nesse sentido, em longo prazo, pronunciar o mundo envolve o domínio de linguagens, de capacitação, além do desenvolvimento de competências – como da leitura, da escrita e do universo computacional – que possam funcionar como atributos instrumentais de plena inserção da pessoa no mundo.

Mas não só! Processos educacionais sinalizam responsabilidade, mas também: liberdade. Portanto, em tempos nos quais as pautas de políticas públicas exploram – numa perspectiva ligada a uma possível “Pedagogia de Pinochet” – críticas a pensadores como Paulo Freire e Leonardo Boff, urge pensar a Educação em outros termos, mais conectados à “Pedagogia de Piaget”.

Mais do que um jogo de palavras, antepor Pinochet e Piaget em torno de ações pedagógicas delimita compreensões diferentes sobre o ser humano. Neste ponto, algumas perguntas se impõem em torno dessas questões: O que é educar? Para que serve a Escola? E para quem?

Responder a esses questionamentos prevê escolhas políticas, principalmente. Sobre esse contexto, Freire já afirmou que, enquanto educador, é um ser político, que obviamente pensa em um mundo melhor, onde haja mais gentileza, respeito às diferenças e ao outro, onde seja possível a redução de desigualdades sociais e a busca pela igualdade. No entorno de todos esses aspectos, a educação como prática política deve relacionar-se, portanto, a uma gestão de esperanças. Portanto: a Escola como Esperança.

Boff, por sua vez, um educador/teólogo que enxerga um Cristo libertário, sempre trabalhou para politizar – no sentido lato da palavra – questões relacionadas à fé. Assim, discutindo hierarquias tradicionais, colocou seu olhar para uma igreja mais centrada em questões sociais, que combatesse a pobreza presente em vários contextos humanos e a mercantilização da fé. A partir desse quadro, já situou que ¾ do mundo pagam para que ¼ tenha qualidade de vida.

Em tal conjunto, Freire e Boff inquietam seus leitores. O pedagogo e professor nascido em Pernambuco enxerga o campo educacional como uma arena política, a qual deve estar contextualizada – não há neutralidade! – para que possa, efetivamente, servir. Para ele, “Educação é serviço” e, dessa forma, o espaço escolar só tem serventia quando prioriza construções de conhecimento relacionadas à cidadania e aos direitos humanos. Indo além, pode-se depreender a partir de seus escritos que “Educação é desafio”, no sentido de que é um jogo social, o qual precisa ser desvelado – como já afirmou, inclusive, Pierre Bourdieu. A Escola, portanto, assim como a vida, é ideológica.

O teólogo, por sua vez, alarma seus leitores quando presentifica a paixão de Cristo em outros modos. Para ele, pacificação espiritual é campo de batalha, e nunca de abrandamento de crises ou de catequeses. Em outras palavras, Boff não deseja a “totalização da verdade”. Ao contrário: ele enxerga a fé como um espaço de contradição – e, portanto, de possíveis crescimentos espiritual e humano. Nesses termos, a igreja, para Boff, é um espaço cultural de construção de identidades, ação que envolve desenvolvimentos cognitivos, tão presentes no espaço escolar. Portanto: a Igreja como Escola, política sempre.

Este texto destaca o mundo sendo proferido como um espaço de pessoas articuladas, que nele interferem com competências e sensibilidades. E toda essa situação abrange relações entre cultura, conhecimento e poder. Freire e Boff tematiza(ra)m politicamente o mundo senso norteados por esses vértices, os quais, podem ser compreendidos dentro dos chamados “Estudos Culturais”, vertente que analisa a cultura como prática central das sociedades humanas.

Barker, epistemologicamente, situa os Estudos Culturais afirmando que:

(…) constituem um corpo de teoria construída por investigadores que veem a produção de conhecimento teórico como uma prática política. Aqui, o conhecimento não é nunca neutro ou um mero fenômeno objetivo, mas é questão de posicionamento, quer dizer, do lugar a partir do qual cada um fala, para quem fala e com que objetivos fala (BARKER, 2008, p. 27).

Interdisciplinar em seu âmago, esse campo de investigação – inspirado em teorias de Roland Barthes, afora outros pesquisadores – surge no contexto britânico nos anos 60, e no Brasil, posteriormente, relacionado à resistência, ou seja: como forma de oposição ao status quo estabelecido. Assim, busca afirmar vontades e pretensões no entorno das lutas de classes, assumindo a defesa de grupos que não têm acesso aos meios de produção cultural. Nessa perspectiva, analisa processos humanos situando e instrumentalizando a vida em sua dimensão social, e apondo-lhe formas dialogadas de viver e de ser.

Os Estudos Culturais, desse modo, quando aplicados didaticamente, podem estimular novos conhecimentos, o desenvolvimento de sensos estéticos, críticos e criativos, além de instigarem possibilidades na transformação de ambientes. E, em outros percursos, podem potencializar também sonhos, a ludicidade, valorizando a diversidade como característica basilar da presença humana. Arte-Educação, portanto.

Toda essa conjuntura citada resulta num quadro de se ver/sentir/pronunciar o mundo a partir de processos de tomadas de consciência. Tais tomadas, por sua vez, na visão deste articulista, precisam estar dentro de diversos setores da vida social, sejam na fé, na escola, na arte, nos enunciados linguísticos, literários, e até mesmo nas relações de afeição. Aliás, “fundamental é mesmo o amor”, como já disse Tom Jobim…

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BARKER, Chris (2008). Cultural Studies – Theory and Practice. London: Sage.

Carlinhos Perdigão é arte-educador, linguista, músico, professor de língua portuguesa e produtor cultural. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras (UECE) e Administração (UNIFOR), com pós-graduação em Gestão Escolar (UECE). Contatos: [email protected] Site: carlinhosperdigao.com.br

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigão é arte-educador, músico, docente de língua portuguesa/literatura e produtor cultural. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras (UECE) e em Administração (UNIFOR), com pós-graduação em Gestão Escolar (UECE). É professor da Faculdade Cearense - FaC e da UNIQ - Faculdade de Quixeramobim, além de atuar como revisor textual da Escola Creche Casa da Tia Léa. Site: carlinhosperdigao.com.br

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