Para Ler Durval Aires

Para uma compreensão de Ficção Reunida (Fortaleza: Casa de José de Alencar/UFC, 1994), de Durval Aires, vários caminhos podem ser escolhidos, porque muitas são as sugestões que a sua obra oferece. Penso, no entanto, que a melhor maneira de penetrar no seu universo criativo, é ler o conjunto da sua ficção como se fosse uma unidade, as quatro novelas que escreveu como partes superpostas de um romance, que ao final da leitura se completa e materializa.

As personagens projetadas pelo novelista são as mesmas, e são idênticas as similitudes do contexto existencial e da realidade contingencial e histórica que permeiam o trajeto do discurso e investem contra os surrados recursos narrativos dos seus contemporâneos.

É espantoso que entre os seus colegas de geração no Ceará, seja Durval Aires possivelmente o escritor que menos conviveu com os círculos estéticos eruditos, protagonizados pelo Grupo Clã de Literatura, e aquele que, contraditoriamente, de forma mais decisiva, contribuiu para instaurar, entre nós, uma maneira diferente de contar, o que, sem dúvida, lhe garantirá um lugar de destaque na renovação da nossa literatura.

Esse sopro de modernidade a que me refiro se traduz basicamente na reinvenção da técnica do romance e no deslocamento da temática da ficção cearense para além dos limites do convencional, compatibilizando, assim, a nossa evolução literária com os avanços experimentados pelas artes visuais, isto sem perder de vista os lineamentos poemáticos da nossa mais autêntica e viva tradição. Reporto-me não apenas aos “poemas da vida real” que foram os livros de José de Alencar, mas também e fundamentalmente à contribuição de Oliveira Paiva e àquilo que Moreira Campos, em termos de ars poética, acrescentou ao destino do conto, reformulando a sua dicção.

O que Durval Aires representou, em essência, foi a expressão de um grande espírito de poeta, que a sua reconhecida timidez não permitiu que viesse a ser explorado, mas que a prosa de ficção arrebatou das mãos do jornalista, que talvez por um ato de excessiva modéstia preferiu subintitular cada uma das suas criações simplesmente de “novela-reportagem”, como se o labor da vida jornalística fosse capaz de sufocar o ficcionista em que se transformou.

Não se pense a sua obra como se fosse um raciocínio linear ou sistemático, quer na sua totalidade, quer em cada uma das partes em que se encontra dividida. Enquadrando-se nas exigências da obra aberta, “o momento existencial captado (ou inventado) pelo ficcionista já flui sem argumento fixo, definido, constituindo-se mais uma montagem de quadros, em disposição aparentemente arbitrária, do que uma sequência biográfica urdida nos moldes da ficção tradicional. Como um jogo de dados, os acontecimentos afloram ao plano objetivo de modo imprevisível, inconsequente, livre, sem ordem preestabelecida”.

A transcrição acima, extraída de A Estrutura Desmontada, de F. S. Nascimento (Fortaleza: Imprensa Universitária, 1972), que representa uma substanciosa leitura das duas primeiras novelas publicadas por Durval Aires, corresponde a uma síntese possível que se pode inferir da sua produção.

A constatação do que afirma o conhecido crítico cearense, por exemplo, pode ser feita na abertura da novela Barra da Solidão, onde o autor começa com uma referência a um incerto “12 de julho”, a um indefinido espaço temporal, aos percursos em torno dos quais faz gravitar a sua proposta de ação. Assim também no momento inicial de Os Amigos do Governador, onde o cenário e a movimentação das imagens abstraem a presença das personagens e segmentam o discurso compacto do narrador.

E já que fiz alusão a estas duas novelas, devo dizer que a elas se associam O Manifesto e Uma Estrela na Manhã. Se se quer dever obediência ao tempo cronológico em que foram protagonizadas, em detrimento da ordem em que foram escritas ou vieram a lume, O Manifesto, apesar de publicado em 1984, pode ser tomado como a primeira novela da série, sendo anterior, portanto, a Uma Estrela na Manhã, que neste volume se divulga pela primeira vez, a ambas seguindo-se Barra da Solidão e Os Amigos do Governador, em que pese ao fato de ter sido esta última novela aquela com a qual o autor estreou no mundo das letras, mais precisamente em 1967. Ainda que o editor de O Manifesto tenha afirmado que o livro foi “escrito em 1953”, esta informação deve ser tomada sob reserva, pois em notícia veiculada no nº 23 da Revista Clã consta que Durval Aires “inicia-se na ficção com Os Amigos do Governador que é, no entanto, a segunda novela-reportagem de um ciclo que começa com Barra da Solidão e tem prosseguimento com O Manifesto de Agosto, em preparo”.

O que nos parece importante, contudo, é que se possa observar, como de fato se observa em Ficção Reunida, o encadeamento acima sugerido, pois o mesmo, quando nada, posiciona a trajetória da vida política cearense em dois momentos distintos: o primeiro, que corresponde ao período de atividades do Partido Comunista, no Ceará, que vai de 1946, época da legalidade, até 1957, quando Durval Aires filia-se ao Partido Socialista Brasileiro e encerra a sua militância revolucionária; e o segundo, que rigorosamente podia ser situado entre 1958 e 1962, um momento certamente propício à instauração da ambiência que o novelista buscou retratar, todo ele marcado pela escória da dubiedade e das tergiversações governamentais e caracterizado por uma imprensa submissa e inescrupulosa, nos seus altos escalões de direção e comando, a par do sentimento de romantismo e criatividade que ilustrou a história de toda uma geração de jornalistas.

O tempo cronológico em que o fluxo da narrativa se fragmenta e desenrola corresponde, na obra de Durval Aires, ao processo de maturidade por que passou o jornalista Ricardo Menezes, o memorialista que vai articulando o alargamento da visão de mundo da personagem principal, quer quando utiliza os argumentos do discurso direto e se faz narrador dos acontecimentos e situações que o envolvem, quer quando se deixa inserir no espaço novelesco e se apanhar pelos instantâneos cinematográficos que se intercruzam com as licenças poéticas que o autor gradativamente vai minutando, como é o caso desta belíssima passagem da novela Uma Estrela na Manhã:
“Saímos às quatro da manhã. Eu, Cristina, os dois meninos e meu pai. Num Jipe de aluguel. Uma estrela muito branca correndo à nossa frente. Prateando o capim seco dos pastos. Lavando as várzeas, os carnaubais. Azulando as grotas, os socavões das serras. As mãos de Cristina encrustadas nas minhas. Aquecendo-me todo. Manchas vermelhas aclarando os vultos que passavam. E o vento carregando as nuvens. Pássaros pousando nos fios do telégrafo. Ricardinho e Beto dormindo. O motorista fumando”. Ou ainda, linhas adiante: “Uma ternura imensa se apossou de mim. Meu pai estaria vivo quando eu voltasse? Quantos anos iriam se passar? E eu voltaria? Vontade de ficar conversando. Relembrando coisas: uma infância que certamente eu não poderia dar aos meus filhos”.

A partir deste reencontro do narrador com suas origens, o novelista se deixa seduzir por todo um elenco de restaurações e relembranças que insiste em saltitar por entre as muitas artimanhas do seu depoimento-ficção: o universo lúdico e simbólico da Rua do Brejo, em Juazeiro do Norte, onde Durval Aires nasceu, a ourivesaria do pai, a paisagem misto de verde e encanto e o fanatismo religioso do Cariri são referências que se vão construindo e alegorizando a contagiante beleza discursiva da sua proposta textual.

Nas novelas O Manifesto e Uma Estrela na Manhã, o que exsurge do texto é o perfil do militante comunista que crê no imperativo da organização burocrática como forma de realização da conquista do poder, mas que defende a preservação da liberdade e da instância da crítica como formas de manutenção da dignidade, circunstância que o levará à expulsão das malhas do partido. Neste ponto, diga-se de passagem, a ficção, no caso particular do novelista, sucumbiu à manifestação do testemunho e do depoimento pessoal. Aliás, como já se afirmou alhures, “é isso o que O Manifesto é: um depoimento, como testemunho também o é o inédito Uma Estrela na Manhã”.

Em Barra da Solidão, o cidadão Ricardo Menezes se abre para uma nova expansão da sua sensibilidade e da sua ingenuidade também contagiante. O jornalista sufoca o militante político, retoca a sinfonia do amor paternal e sublima o tirocínio revolucionário para dar vazão ao exercício da grande reportagem. O material jornalístico ele vai coletar numa colônia de pescadores no município de Aracati, onde a chacina de uma família se conjuga à mística de pretensos milagres ali presenciados pela população, garimpando de tudo o jornalista uma série de reportagens que sacodem os escaninhos da velha política estadual.

Já em Os Amigos do Governador, o que Durval Aires coloca em discussão é o mundo da pistolagem política acobertada pelas altas esferas do poder, onde as portas das penitenciárias se abrem e se fecham para que a facção dominante possa resolver as incômodas questões municipais, utilizando uma mão-de-obra barata e de comprovada eficiência, capaz, por conseguinte, de produzir baixos arranhões.

Também em Os Amigos do Governador reside uma vitoriosa tentativa de caricaturar o enredo da bajulação oficial, que a sutilidade presente no título da novela já deixa antever e prosperar. Embalado na camarilha do supremo poder estadual e após abocanhar 30% (trinta por cento) das nomeações para o quadro da administração e defender o quinhão dos desembargadores, ao líder do governo é dada pelo novelista a oportunidade de trazer ao debate argumentações como esta:
“Estou inclinado a aceitar a presidência da Assembleia. Mas apenas para atender a imposições do meu partido e dos meus correligionários. Devo dizer, no entanto, que não me afastarei, um milímetro sequer, do princípio da mais completa autonomia dos Poderes. O Governador conhece o meu pensamento. Esposado, aliás, em trabalhos largamente difundidos pela revista Jurisprudência e Doutrina”. Isto, para em outra oportunidade arrematar: “A independência dos Poderes é talvez a principal característica do Estado Democrático. Nos regimes de exceção, além da supressão de todos os órgãos legislativos – lídimos representantes da vontade popular – a Justiça não passa de um órgão de repressão, embora devidamente institucionalizado”.

Os fatos narrados nesta última novela, talvez pela induvidosa similitude com a realidade onde foram colhidos, levaram inclusive o autor a antecipar esta advertência: “Certos acontecimentos e situações, nomes de lugares e pessoas (não todos), ficção – eis que novela. Mas os fatos aconteceram e os personagens existem – e isto é reportagem. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, ou mortas-vivas, não terá sido coincidência, posto que intencional”. Se esta confissão não comporta um dado estético relevante, se presta, pelo menos, como pano de fundo sociológico e interpretativo, e isto já configura um belo motivo para que se possa alargar a curiosidade da recepção das suas narrativas.

Costurando o entrecruzamento das ações que se deixam colher na tessitura das quatro novelas, está a câmara cinematográfica que o jornalista Durval Aires / Ricardo Menezes carrega sempre nas mãos. É impossível ler esse romancista e não assistir às imagens que se mesclam com as palavras numa simbiose bárbara e feliz. É impossível que alguém leia Durval e não se sinta maravilhado pela objetiva dos seus instantâneos fotográficos, pela sutileza do seu enxugamento textual, pela disposição harmoniosa e congenial do estilo, pela aliciante linguagem poética que, como ficcionista, soube utilizar como ninguém.

Em trabalho publicado no Caderno de Domingo do jornal O Povo, de 14 de janeiro de 1979, o escritor Durval Aires Filho chama a atenção da crítica para referida objetividade cinematográfica. Adiantando que na história da nossa ficção é Durval Aires o escritor que efetivamente decreta a falência dos métodos antigos de concepção e de carpintaria do romance “quando situa, tecnicamente, sua obra em um universo de rápidas transformações aceleradas pelos avanços tecnológicos”, leciona em seguida que o novelista cearense “não costuma, em sua ficção, narrar ou descrever, com uma linguagem especificamente literária, os seus personagens”. E mais: que “podemos identificar, como decorrência de sua expressiva vivência cinematográfica, dois processos utilizados nos planos de narrativa de suas novelas”. O primeiro, esclarece, “é o que chamamos de materialização visual”, cujo exemplo mais consistente (concordamos com a observação) está na abertura da novela Os Amigos do Governador. Já com relação ao segundo, argumenta, “trata-se de uma técnica mais apurada que se opera, inicialmente, na tentativa de fixação de um fato ou acontecimento perdido no passado para, no final, dar-lhe vida e movimento no curso do espaço ativo”.

Muitos outros aspectos poderiam ser avaliados na apreciação da aventura criativa desse grande escritor cearense, porque múltiplas são as sugestões que afloram da flagrante literariedade dos seus textos, como é o caso da superposição dos planos narrativos, das dimensões espaciais e temporais por onde transita a figura do narrador, da revolucionária montagem dos diálogos, enfim, da temática insólita que o ficcionista ousou abordar.

A análise feita por F. S. Nascimento, em A Estrutura Desmontada, a par de haver consagrado uma estatura de crítico, diz de perto da necessidade e da atualidade da reedição da obra de Durval. Compre-me, portanto, louvar a feliz iniciativa do Professor Antônio Martins Filho em publicar o conjunto da sua produção, quando não para promover a uma maior divulgação da obra desse novelista, pelo menos para resgatar do esquecimento a sua novela inédita, Uma Estrela na Manhã.

A publicação de Ficção Reunida faz justiça a um escritor de que a história literária cearense não pode prescindir, sendo para mim uma honra a oportunidade de ter organizado a sua edição. E que a divulgação sirva para pagar um tributo a quem, estando vivo, sempre o mereceu, e que, morrendo, instaurou o ensejo para que possamos honrar o compromisso com os adicionais de juro e correção, especialmente em face do seu centenário, a se perfazer em de fevereiro de 2022.

 

Fonte da imagem:https://www.tjce.jus.br/noticias/literatura-e-toga-as-duas-faces-de-durval-aires-filho/

Dimas Macedo

Poeta, jurista e crítico literário. Professor da UFC.

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