As palavras e sua veracidade, por Emanuel Freitas

Desde Maquiavel aprendemos que na “política real”, aquela que não expressa “o que deve ser”, mas “o que é”, aprendemos que a política desenrola-se, sobremaneira, no plano do “simbólico”, uma vez que compete ao homem político uma boa dosagem de “parecer ser” aquilo que o público-eleitor deseja que um homem público seja. Performance, pois, constitui-se como uma dos elementos-chave da ação política; sobremaneira, a performance linguística (o “cacarejar” ao qual FHC referiu-se há poucos dias, numa recomendação ao candidato tucano ao Palácio do Planalto), o “saber falar às massas”, o saber comunicar-se (seja com palavras, seja com sua própria persona) é um importante meio para mensurar-se a potencialidade política de um ator do campo. Mas, sobretudo em tempos digitais, não dá para se falar qualquer coisa a qualquer tempo em qualquer lugar; os “desmentidos” logo podem aparecer para desmerecer o “falado” pela liderança em questão. Antes, porém, desse auxílio das redes sociais, contávamos com o registro e o conhecimento histórico de alguns (como, nós, os pesquisadores que nos ocupamos da Política) para, em certa medida, não nos empolgarmos com discursos empolgados, feitos no “calor da hora” e sem nenhum compromisso com a verdade histórica pronunciados (manietados, na verdade), por alguns.

Pensei nisso ao acompanhar dois discursos recentes do senador cearense Tasso Jereissati (PSDB) e que me fizeram compreender os modos como a História é semantizada (mesmo a “sua própria” história, como veremos mais adiante) a partir dos interesses mais pragmáticos que os homens políticos incorporem.

No discurso que pronunciou durante a convenção do PSDB que oficializou Geraldo Alckmin como candidato do partido ao Palácio do Planato, Tasso disse o seguinte: “Eu quero dizer uma coisa como testemunha. Eu não conheço nenhum, nenhum outro candidato que possa dizer isso. Nenhum… nem que possa dizer que tenha governado seu estado com tanta competência. Alguns governaram por três anos, no máximo. Outros foram até prefeito menos de um ano e nunca sequer conseguiram acabar as suas administrações em lugar nenhum”.

É claro que o tucano se referia, indiretamente (será mesmo?) ao candidato pelo PDT ao mesmo cargo, Ciro Gomes, ex-aliado para todas as horas de Tasso. Enquanto aliado, Ciro foi elogiado e cantado em prosa e verso pelo tucano; tanto assim que, por ele mesmo, foi lançado como candidato a prefeito de Fortaleza (1988) e a governador do Ceará (1990), sendo eleito nas duas vezes. Assim, é verdade que Ciro não conseguiu acabar suas administrações “em lugar nenhum”, como disse Tasso; o senador, porém, esqueceu de dizer ao distinto auditório que escutava-o (e a nós, que depois ficamos a saber do teor de sua fala) que Ciro assim procedeu por ordem e desejo expresso de seu fiador, ele mesmo: Tasso Ribeiro Jereissati, e de seu grupo. Se hoje Ciro pode ser acusado de não ter “acabado suas administrações” isso se deve ao fato de ter cedido a apelos de Tasso, líder único do grupo político que hegemonizou a política cearense por quase duas décadas, a chamada “geração cambeba”.

Por sua vez, quando da oficialização da candidatura do General Theóphilo ao governo do Ceará, Tasso afirmou o seguinte: “Temos hoje o Estado do Ceará dominado pelas facções criminosas. E não é que elas estejam em toda parte. Elas dominaram o Estado do Ceará. E são mais fortes do que o Governo do Ceará porque o Governo do Ceará é frouxo e não tem coragem”. Ora, ora: o domínio do crime organizado deve-se à “frouxidão” do governante? Podemos concluir, pois, a partir das palavras de Tasso que, dada a existência de facções em São Paulo (o PCC, sobretudo), nesses anos todos em que seu partido governou-o deve-se à “frouxidão” de seus correligionários (Covas, Serra e Alckmin)? Tasso, então, fará campanha em 2018 por um político “frouxo”?

Além disso, segundo Tasso, “governo que tem autoridade não deixa o Estado ficar dominado pelas facções […] A questão das chacinas, da queima de ônibus, que acontece e volta a acontecer, e o Governo fica omisso. Se tivesse um governo mais ativo, mais agressivo em relação a isso, com certeza, as circunstâncias seriam diferentes”. Ora, se, a julgar pelas palavras de Tasso, o que ocorre também em São Paulo (chacinas, assassinatos, queima de ônibus etc) deve-se à “falta de autoridade” do governante, como, pois, pode nos convencer de que Geraldo é um candidato digno de confiança? Se o argumento serve para legitimar a crítica a Camilo Santana (PT), deslegitimando-o para um novo mandato frente ao “estado da arte” da violência no Ceará, como, sob a mesma realidade, não deslegitimaria, também, o governador paulista? Por acaso, as “aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como as de lá?”. Se o Ceará tivesse tido um “outro governo”, diz Tasso, estaríamos em outra situação; de fato, São Paulo, também, seria outra se não houvesse um predomínio (bem maior do que o famigerado “plano de poder de 20 anos do PT” que os tucanos gostam de “acusar”) dos tucanos por lá.

Palavras. Palavras ditas, com as quais, como dizia Austin, se pode fazer coisas. Muitas dessas coisas, porém, prestam desserviço tanto à História como à verdade dos fatos, semantizando realidades ao bel prazer dos sujeitos enunciadores.

À propósito, foi também por palavras (como está na “moda” fazer) que a existência do sangrento regime ditatorial brasileiro (1964-1985) foi desmentida: “não houve ditadura no Brasil”, disse ninguém mais, ninguém que o candidato de Tasso ao governo do Ceará. Tasso que, como sabemos, chegou ao poder derrotando os “coronéis”… de onde mesmo? Da ditadura militar. Mas, se ela “não existiu”, a quem foi mesmo que Tasso derrotou?

Emanuel Freitas

Doutor em Sociologia

emanuel.freitas@uece.br

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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