Padres

Era meio-dia e ri-me às gargalhadas. Ou, melhor, foi de partir o coco. Eu cheguei atrasado a casa, por ter feito escala entre dois voos. Além do mais, não podia esquecer que o serviço de bagagem pecara, como se peca num Domingo. Mas, em casa, com a mala aberta à minha frente era impossível não gargalhar ou coisa que o valha. O logótipo mostrava-se descolorado. Como na minha mala. Por sua vez, a sua forma fazia lembrar um sacrário. E, por acaso, já nem me lembrava…
Encontravam-se no seu interior sete pares de meias, sete pares de jeans, uma cueca ou outra, a Bíblia, um crucifixo, uma série de t-shirts, um blusão e algo que estava num bolso. Não era a minha mala. Eram muito parecidas. Porém, o seu conteúdo nem por sombras. Eu lancei a luva a mim mesmo. Achei-me capaz de criar um dono.
“Há mais igrejas do que padres.”
Na verdade, não fazia sentido aquela frase cosida no bolso. Mas já alguma vez fez sentido o que entra e sai de um aeroporto? Uma pessoa sente-se sempre sozinha lá nos corredores, perdida numa espécie de ziguezague de sistemas e bagagens. Mil ruídos e sinais, um ou outro ouvido negando-se ao corpo. Era um lugar que me cheirava a fruta desidratada; foi lá inventada, aposto. Aquilo tem cara de invenção de aeroporto. Para não dizer mais nada. Apenas os colaboradores do serviço de bagagem é que se divertirão; aposto. Ou seja, aqueles imaginavam uma troca de malas a qualquer hora e, depois, tal coisa podia acontecer. Rir-se-iam na certa, já colados às paredes de casa. Não seria quase como ganhar o Totoloto? O Euromilhões, não. Ninguém ficaria a trabalhar num aeroporto com aquela fortuna nas mãos. A menos que comprasse aquilo tudo. Ou benzesse antes de o enviar directamente para o inferno.
Eu esmaguei o conteúdo da mala. De facto, os sete pares de meias eram de cor preta. Aliás, meias, jeans, cuecas, Bíblia, crucifixo, t-shirts, blusão era tudo preto. E foi parar ao chão. Depois, de um momento para o outro, e a fungar sem saber porquê, enfiei a mão no tal bolso e trouxe de lá uma corrente. Era um cilício no qual parecia respirar um ou outro vestígio de sangue. Meu Deus. Tremiam-me as mãos. Valha-me Nossa Senhora!
Havia sempre alguns infernos ao longe. Uma pessoa jamais os queria tocar. Mas à minha frente parecia resfolegar um. O dono da mala era padre. Um crente do caraças; aposto. Até diria um elemento ou quadro superior da Opus Dei. Quem é que usava cilício naqueles tempos? E onde raios é que estava a minha mala? Talvez estivesse a chegar à Praça de São Pedro. Ou a Ribeirão, uma vila muito religiosa e na qual as gentes passam a vida a açambarcar a mala de outrem.
Jaime Soares
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Jaime Soares

Jaime Soares nasceu a 14 de Janeiro de 1987, em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas (Português/Inglês) e mestre em Estudos Anglo-Americanos (Literatura e Cultura), pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 2016, foi-lhe atribuída uma bolsa pela Associação Luso-Britânica. Por um período de um ano trabalhou no CETAPS (Centre for English, Translation, and Anglo-American Studies), Universidade do Porto, ajudando a desenvolver actividades culturais e académicas como, por exemplo, seminários com docentes e escritores, assim como sessões de cinema. Jaime Soares apresentou algumas comunicações em conferências no Porto, em Braga e em Boston (neste último caso, in absentia). A revista da Don DeLillo Society inclui um artigo da sua autoria intitulado “Don't blame the players, blame the 'system': a systemic reading of Don DeLillo's The Names” (2017). Em 2018, ganhou o Prémio Literário Germano Silva com a obra A cor verde (edição Editorial Novembro). Atualmente trabalha na indústria têxtil e lê e escreve nas horas vagas.

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