PACTO DE MORTE ENTRE IGUAIS!

Conta-se que o Capitalismo perverso ia caminhando devagar, cansado, cheio de desalento, e viu o COVID-19 (no masculino) sentado debaixo de uma árvore frondosa. Aproximou-se e, com arrogância e desdém, perguntou:

$ – O que estás fazendo aí, Corona?
* – Estou repousando e pesquisando: 1) quais as nações mais ricas e com maior concentração de renda; 2) quais os países que, embora ricos, se deixaram colonizar.
$ – Já encontrou algum? indagou o Capitalismo.
* – Dois, respondeu o COVID-19, satisfeito com os resultados que vem obtendo.
$ – Pode dizer quais?
* – Não. “O segredo é a alma do negócio”

Depois de muita insistência, o COVID-19 resolveu fornecer algumas pistas ao Capitalismo, sem dizer nomes, evidentemente:

* – Um desses países era muito pequeno e iniciou sua jornada de expansão sanguinária no fim do século XV, mediante grilagem de terras e dominação brutal, até tornar-se territorial e economicamente grande. Hoje é uma super potência. Tecnologia de ponta e foco em dinheiro, dinheiro e mais dinheiro. Saúde pública zero e educação tecnicista para o povo. Prepara as mãos do homem para apertar parafuso e esquece de cuidar do seu coração. Isso é ótimo para mim. Lá, bati todas as metas de óbitos sem esforço.

Nesse país, as regras do jogo mudaram recentemente e creio que vou ter algumas dificuldades. Mas como você mora lá, amigo Capitalismo, com certeza terei bons resultados.

* – O outro país é também um campo muito fértil; mata-se com facilidade. Governo autoritário, bobo e falastrão. Afeito à corrupção, gosta de extermínio, diz que eu não existo e tem um grupelho que o segue sem pensar. Prevenção zero. Ótimo. Estimula aglomerações e é aí que fazemos a festa. Peço ao Capeta, meu líder maior, que ele perdure. O seu sucesso será a certeza de que todas as minhas metas de óbitos serão batidas.

$ – Irritado, o Capitalismo falou: Por quê você não vai embora e me deixa em paz?
Vá pra Cuba ou pra Venezuela. Você, Corona, está me atrapalhando. Quero crescer.

* – Se você entender que nós não somos inimigos e, sim, forças que se complementam na arte de destruir pobres e facilitar a vida de ricos, podemos fazer boas parcerias.

$ – Como assim? Explique melhor, por favor. Negócio é comigo mesmo, desde que eu tenha grandes lucros.

* – Onde você cresce, Capitalismo amigo, a miséria prospera, a pobreza aumenta e podemos matar mais. Só escaparão os mais fortes que servirão de peças da máquina de fazer dinheiro para os ricos que é 1% da população. Meus resultados são surpreendentes onde você comanda.
Entenda que você tem um inimigo forte, que não sou eu. É o tal de Socialismo, que eu odeio e você também.

Você mandou que eu fosse pra Cuba ou pra Venezuela. De lá eu já vim. Trabalhei muito e tive resultados pífios. Seu inimigo, o Socialismo, mora lá, tem um sistema de saúde e de educação poderoso que blinda o povo de doenças. Em Cuba, até 28 de janeiro só consegui matar 257 pessoas e na Venezuela 1.267. Triste, não?!

Senta aqui, e vamos conversar baixinho, pois se essa notícia se espalhar, você perderá a peleja pro seu inimigo e vai ficar ruim pra mim também.

$ – Entendo. Podemos fazer uma boa parceria, então. Tenho uma estrutura de dominação forte, composta por três poderes formados de pessoas moralmente frágeis, mas tecnicamente bem treinadas e orientadas para me entregarem os resultados que quero. A grande imprensa é também cúmplice das minhas maldades e submissa aos meus caprichos. Conto também com um apoio discreto de instituições auxiliares e das Forças Armadas. Tenho um grupo de pessoas sem caráter e obedientes que me seguem à risca. No passado, eram chamadas de lacaios. Novos tempos, mudei o verniz, mas o conteúdo é o mesmo. Dou a eles alguns privilégios, crio cargos e funções com nomes bonitos e isso confere a essas pobres criaturas a impressão de importância. Contudo, quem manda é minha alma impiedosa, o Capital rsrsrs.

Como você percebe, COVID-19, tenho todo esse aparato pronto, para uma destruição em massa. Quero que você contamine e tire de circulação todos os inativos e inadequados: idosos, deficientes, analfabetos, negros, índios, LGBTs etc, que são peças gripadas nas minhas máquinas de fazer dinheiro. Só dão prejuízo. Quero me ver livre dessa gente.

* – Combinado, amigo. Cheers!

$ – Cheers!

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira, Professor Universitário.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.