OUTROS CASOS DE POLÍTICA, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

I.

Sinceramente, eu sempre torço – e muito! – para que tudo dê certo.

Infelizmente, eu agora temo – e muito! – pelo futuro de minha pátria.

E de mim mesmo. E o pior (Oh, onipotente Deus!): até de minha família…

Se há polarização, antagonismo, radicalismo, o porvir então se faz incerto!

(Eu, s/título e s/publicação)

II.

Retornemos ao ano de 1985. Em março, o Colégio Eleitoral elegia – pela última vez de forma indireta – um civil de oposição: o mineiro Tancredo Neves, que não chegou a assumir (e um mal quase desconhecido ganhava espaços nos jornais televisivos: a diverticulite); quem acabou ungido, um civil de situação: o maranhense José Sarney, o imortal filho de dona Queola; com a intervenção decisiva de um verdadeiro líder: Ulysses Guimarães, o homem das profundezas, incluindo a dos mares.

Avancemos até o dia 15 de novembro, feriado da Proclamação da República. Sexta-feira. O país ainda dava os primeiros e decisivos passos para a tão desejada redemocratização. Com base em legislação específica, em quase duas centenas de municípios espalhados por este Brasil de meu Deus, os quais atendiam as condições ali dispostas, os eleitores foram às urnas e sufragaram, em larga escala, candidatos filiados ao PMDB e, dessa forma, declararam apoio ao processo, já em andamento, de fundação de uma Nova República, em oposição ao regime militar que se findara com o término do governo do nada saudoso general João Baptista Figueiredo, que gostava mesmo era de cavalo.

Em Fortaleza, houve disputa acirrada pelo direito de substituir o então prefeito, o poeta e contista Barros Pinho, tudo por causa de um desses fenômenos de última hora, que surpreendem até os mais enfronhados no jogo político e, por isso, tidos como os mais entendidos. (Cabe ressaltar, nesse sentido, que em São Paulo se verificou o momento mais emblemático de não-validação das pesquisas, com a vitória do ex-presidente Jânio Quadros – que já fora “o homem da vassoura” – sobre o então senador Fernando Henrique Cardoso, que viria, alguns anos depois, a ser presidente do Brasil.).

No nosso específico caso, válido é que relembremos os fatos. No curso das campanhas, as pesquisas apontavam larga vantagem para o peemedebista Paes de Andrade sobre o pefelista Lúcio Alcântara. Já o consideravam eleito. Seria mais uma das quase vinte capitais entregues pelo voto popular ao domínio do PMDB. Ocorre que havia uma terceira via, uma terceira margem (só pra lembrar Guimarães Rosa, o inventor de línguas e sua terceira margem do rio). Havia, sim, uma mulher de raça que empunhava a bandeira de um partido jovem, nascido no chão de fábrica e nos movimentos eclesiais de base, com raízes fincadas em ideologias bem populares.

O meu sogro adorava jogo. De qualquer natureza. Fazia as suas bem amadoras análises e arriscava alguns valores em apostas. Para ele, o jogo político era um deleite. Discutia como gente grande. Ele “andradou”. Naquela época, eu já adotava posturas contestatórias, mais no sentido de não enveredar por caminhos bem aplainados (nada na vida se faz assim tão fácil), de não apoiar propostas cantadas em verso e prosa (o que me importa mesmo é quem as fez), de não enfiar-me em vagões de trem superlotados (o que me interessa é o nível de competência e o grau de honestidade de quem conduz a locomotiva). E eu só não votei em Maria Luíza Fontenele, a “mulher”, porque meu domicílio eleitoral ainda era Baturité, município em que não houve eleição.

Cantinho Maluju, 17 de novembro, domingo. Como sói acontecer, tivemos um dia de intensa movimentação. E a política compôs, na qualidade de prato principal, o cardápio das nossas discussões. O meu sogro sempre se comportava como um vitorioso. Muitos – ou quase todos – o acompanhavam. E isso o fortalecia. Eu resistia no limite das minhas possibilidades. Propuseram-me apostas, algumas até com vantagens que quase me atraíram. Resisti bravamente, embora não perdesse a esperança. Alguma estrela certamente brilharia naquele céu sem nuvens de qualquer gênero ou espécie.

E o sol adormeceu, recolhido aos seus reais aposentos. A lua despejou sua luz prateada pelos campos e cidades, para o encanto de quantos se enamoravam. E todos se foram. Ficamos nós – eu, mulher e filhas –, os da casa. Desliguei-me completamente de tudo. A segunda-feira me reservava muitos afazeres. Desde deixar filha em colégio, bem cedinho. A rede armada na área me oferecia conforto e me convidava ao repouso. Não quis ouvir rádio, nem ver televisão. A apuração não se dava na velocidade que ora se faz. Era escrutínio mesmo, no sentido mais apropriado do termo.

Recordo-me apenas que, aí pelas dez da noite, alguém abriu o portão de madeira do sítio e um carro à meia-luz avançou até aproximar-se da calçada da casa. Ao volante, o meu sogro, que já desceu a mim se dirigindo:

– Eu fiz questão de vir agora. Só para reconhecer a sua estrela. A mulher está eleita.

Montamos uma roda de cadeiras na área. E conversamos longamente. Ele, fiel consumidor de uma cachacinha, admitiu repartir comigo uma cerveja bem gelada. Quis saber o porquê da minha certeza na vitória da “mulher”. Desconversei. Já era quase manhã. Logo, logo o sol reassumiria o seu posto. No céu, uma estrela insistia em manter seu brilho. E a segunda deixou-se ser mais um feriado. Agora, bem particular, com uso de abono assiduidade.

Notas do autor: 1) A professora Maria Luíza Fontenele (PT), tendo como vice o também professor Américo Barreira, elegeu-se com 34,3% dos votos; a dobradinha do PMDB, Paes de Andrade e Narcélio Limaverde, obteve 31,91%; e os pefelistas Lúcio Alcântara e Evandro Ayres de Moura chegaram ao terceiro lugar, com cerca de 26%. 2) Para Lúcio Alcântara, Maria Luíza encarnara “como ninguém o sentimento da redemocratização” e “o eleitorado queria mudança, mostrar ter independência”. 3) A “administração popular” comandou uma das gestões mais polêmicas e conflituosas, com a prefeita alegando falta de apoio, perseguições e até divisões no próprio partido; para o cidadão fortalezense, um verdadeiro caos.

III.

É comum, no trajeto para o colégio ou no de retorno às suas casas, os meus netos me fazerem perguntas sobre temas os mais diversos, quase todos me surpreendendo pela natureza da questão, muitos deles me levando a quase nocaute – nada que um humilde e verdadeiro “não sei” não resolva (embora o assunto fique pendente, e isto “eu sei”) –, eis que admito não saber/conhecer tudo de tudo.

Diletos leitores, vejam o que eles exigiram de mim às vésperas do primeiro turno do atual processo eleitoral:

– Vô, o que é um cordão de três dobras?

– De onde você tirou isso, menino? – Confesso que a minha reação era assim como um pedido de “fôlego adicional”.

– Ah, vô, e o que é dar a sétima volta ao redor da torre?

A segunda questão serviu para me situar no tempo e no espaço.

– Muito bem. Agora sei do que se trata. Vocês ouviram ou viram essas coisas em horário de propaganda política, não foi?

– Sim. São dois candidatos… uma mulher e um homem.

– Isso. Um casal. Mulher e marido. Ela pretendendo ser deputada estadual. Ele se propondo ser deputado federal.

– Ela aqui. Ele lá. É como dizem.

– Perfeito. Percebam, meus amores, como se dispõem a agir os candidatos. Para impressionar o eleitorado e conquistar o maior número de votos possível, eles apelam pra tudo. Mudam até de nome.

– É o caso do Miseriqueima, vô?

– É, sim. Um jeito apelativo de ligar a pessoa ao que lhe dá alguma popularidade. Mas voltemos ao casal… que deve ser de evangélicos… devem ser pessoas que conhecem a Bíblia, pois as expressões que usam – cordão de três dobras e sétima volta ao redor da torre – se contêm, com certeza, em livros do Velho Testamento… não me perguntem quais, pois eu não saberia responder. Meus poucos conhecimentos bíblicos datam do meu tempo de aluno salesiano e de coroinha na capela de Cristo Redentor, lá na minha saudosa Baturité. Não renovados, restam na memória-velha-cansada apenas alguns resquícios, dos quais ora me valho para tentar desvendar os mistérios que tais expressões encerram.

– Vô, agora você falou bonito, sabe?

– Mas até agora não respondeu nada…

– Só enrolei, né?

– Não quis dizer isso não, vô!

– ‘Stá bem. Desculpa aceita. Agora prestem atenção. Todo cordão serve para atar, juntar, unir. O casamento, sob o entendimento religioso, resulta numa união de corpos e almas que pode ter como símbolo o cordão de duas dobras: ele e ela; o marido e a mulher; o esposo e a esposa. Juntos, unidos, eles podem enfrentar as provações da vida a dois, sem risco de ver desfeita a união, de ser quebrado o cordão que os une. A terceira dobra é Deus. O casal que submete sua união aos desígnios divinos torna-se bem mais fortalecido. Já não serão apenas dois, mas três… com esse terceiro oferecendo aos dois a mais perfeita das proteções. Com três dobras, o cordão se torna bem mais resistente.

– Eita, vô! Tudo isso?!

– E a torre, o que ela tem a ver com eleição?

– A torre… Esperem um pouco… Deixem-me ver…

– Vô, se quiser… deixa isso pra lá…

– Não. Faço questão de enfrentar a torre. Ouçam-me. A torre tem uma ampla simbologia, incluindo a de sentinela e, por extensão, de defesa. A Bíblia nos revela que o povo de Deus vivia sob constantes desafios. As cidades nos idos tempos eram guarnecidas de muralhas contra invasores destemidos. Acho que Deus prometeu dar uma cidade de presente ao seu povo, que ainda caminhava sonhando com a terra prometida. Ele impôs algumas condições. Uma delas exigia que o líder do povo desse uma volta completa em torno das muralhas em seis dias consecutivos. No sétimo dia, o povo devia segui-lo nessa caminhada. Atendidas, assim, essas condições, parte dos muros ruiria, cairia por terra. A queda da torre. A invasão e o domínio facilitados.

– Qual a relação com eleição…?

– Certamente a ideia de que com a renovação de seus representantes, o povo reassumiria o poder, pondo ao chão a torre que ora protege a corrupção, por exemplo.

– E o senhor acredita nisso?

– Nem tanto, queridos netos. Nem tanto.

IV.

Um dia eu fui escrutinador.

Lá pelos idos de 1970, o ano do tricampeonato do futebol brasileiro na Copa do México e em que os baturiteenses elegeram o médico Marcelo Holanda (Arena), com o dobro de votos dados aos seus dois adversários (MDB).

Ainda jovem – com apenas dezoito anos completos –, chamaram-me à responsabilidade.

Tenho certeza de que dei conta do recado.

Os trabalhos se realizaram no auditório do Instituto Nossa Senhora Auxiliadora, pertencente às irmãs salesianas.

Lembro-me de um fato curioso em que acabei me envolvendo.

A apuração do pleito de Capistrano, município que, com Itapiúna, compunha a zona eleitoral sediada em Baturité, transcorria tranquilamente. Já estávamos computando os votos dados aos candidatos à Câmara Municipal. Um deles dominava a votação de algumas urnas localizadas na sede do município. Numa das fases do trabalho, o nome do votado era lido em voz alta, inclusive para facilitar o acompanhamento de fiscais. O do senhor Francivaldo – acho que era esse o nome do candidato mais votado – se repetia em todas as fases. Quando chegou a minha vez de agir, adotei o famoso “idem”, certo de que todos entendiam o que isso significava; afinal, também assim agira com a apuração dos votos de Baturité. E a minha voz ecoava no entorno da grande mesa apuradora: idem, idem, idem…

No intervalo seguinte, o juiz eleitoral fez-me uma advertência com base em pedido de esclarecimentos formulado por um fiscal meio enjoado. Ele queria saber que candidato era aquele “Idem” tão bem votado, sob pena de formalizar um pedido de impugnação das respectivas urnas, caso restasse provada a ocorrência de algum fenômeno extraterreno.

E o meu “idem” teve de desaparecer dos mapas; aliás um lugar onde ele jamais esteve.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.