Outras versões da mesma rua – Heliana Querino

De peito aberto e disposta a começar outras versões de mim, a contemplar cada centímetro da rua, por onde caminhava pela primeira vez, deixando para trás o Liceu de Thomas Pompeu, Barão de Studart, Farias Brito, Juvenal Galeno e Maria Luíza Menezes Fontenele, ainda era cedo para saber se a Guilherme Rocha era uma rua envelhecida ou uma criança distraída.

Pelo cenário e na sua essência, a mesma rua e um paradoxo.

Eu estava no ano dois mil, e aqui do presente há muito o que se recordar.

O triunfo de uma cigana, com a decência das crenças e mistérios de sua cultura e seus hábitos nômades, nas travessias da Guilherme Rocha, beirando as feiras do centro.

O menino da cola maluca.

Os manequins, de fio dental vermelho e o vendedor de lingeries.

As placas dos carros, os sonhos, o susto e o jogo do bicho.

De calçada em calçada da Guilherme Rocha, chegava-se ao miolinho do centro, as primeiras praças de feira de tudo: do chão ao céu havia sandálias de dedo customizadas, panelas de alumínio barato, cocada de coco, rádio de pilha, milho verde cozido, pneu de carro e de moto, gente, e a trilha sonora da Furacão 2000, funk de popozão e cerol na mão reinava em primeiro lugar. Em segundo, eram as fitas de brega, Bartô Galeno e c&a.

Bastavam alguns passos para transitar das ruas São Paulo – Liberato Barroso e Pedro Pereira. Bastava também suspender a respiração para girar a trezentos e sessenta graus e contemplar lojas de aviamentos e bijuterias, feira de barraca e feira de chão, um Theatro, muitas calçadas e uma cigana com saia rendada, toda cheia de flores coloridas e bicos de diversas tonalidades.

Ainda tentava entender as transformações de uma cidade que eu nem conhecia, o seu projeto urbanístico, e a rua Guilherme Rocha foi o meu Portão Mágico. 

Era um dia de feira cheia, cheia de menino com tabuleiro a tiracolo, e não era um suspensório, era a sua “loja de cola maluca” pendurada no pescoço… Ninguém escapava, quem andava pelo centro sabia, em cada esquina, emendava um pequeno menino, como regente de uma orquestra: “um real cola maluca um real, quem vai querer? Se quiser colar o sapato ou o chinelo, cola tudo, tá aqui o remédio”…

Pedi logo a Deus para  poupar e segurar os solados dos meus sapatos, bem pregados, pelo menos até os primeiros salários.

A medida que eu passeava, o desenho do centro começava a se esboçar na minha mente. Quando vi, estava em frente ao Theatro imponente. 

Imponente era também a cigana, o vermelho cortante do batom, o amarelo do brinco que parecia ouro e os braços estendidos para mim. Naquele dia passei o primeiro susto. O escritório dela era a sombra de qualquer árvore. E lembro que desde os meus dezesseis anos, tenho cisma com uma cigana que olhou para mim e fez profecias de namorado, lá no cariri, sem eu nem pedir. E se aquela fosse a mesma cigana?

 

  • Dá licença dona Maria, eu só quero ver o Theatro.

 

  • Vem cá, filha, eu vejo algo diferente nos teus olhos, e tá escrito na palma da tua mão. 

De braços cruzados, na minha pequena ignorância ou defesa, eu não quis saber, me desviei daquela frase contida de mistério, simples e sem razão de ser. Ela, a cigana, elegante e sem se preocupar em fixar território, vagava errante de um canto a outro daquelas calçadas, na sua balada, batendo de alma em alma.

E como se não bastasse, ao contrário da Guilherme Rocha vizinha do Liceu, na Guilherme Rocha do Centro,  as pessoas andavam apressadas e algumas pareciam não enxergar quem ou o que estava a sua frente. Um homem, com corpo tatuado, carregava embaixo do braço, um manequim de fio dental vermelho.

  • Olha aí jovem, aproveita a promoção, é dois por cinco reais.

Me dei conta, era realmente o progresso… Ilusões achadas e perdidas. Os ambulantes, os passantes, os ricos e os pobres me habituaram, em questão de minutos, a observá- los como se quisesse preencher um pequeno grande questionário. 

Por alguns minutos esqueci o meu lugar do coração, o sítio de vovô Chico, a cacimba, o pomar de bananeiras. Era a primeira vez num grande centro. Era lindo o Theatro. E era espantoso o pequeno infante de camisa gigante e canelas nuas, de olhos grandes e flanela vermelha com cheiro de acetona no pingo do meio dia. 

Era mundo novo. Vias de uma capital.

Para me sentir segura, a cada duas ruas, eu retornava a Guilherme Rocha, como ponto de referência. Escolhia, cuidadosamente, uma placa de loja, um prédio ou um amontoado de homens e mulheres que iam e vinham, em círculo, mas não saiam do lugar.

A quantidade enorme de carros me impressionava, se ao menos já existisse whats App, eu teria mostrado simultaneamente, para o povo lá de casa, como era a modernidade.

Depois de explorar algumas curiosidades de emergências, no Centro, eu voltei para casa feliz, tudo era novo para mim, dos palácios as bugigangas…

Eu queria viver tudo ao mesmo tempo. Na noite daquele dia, conheci o Cais Bar. No calçadão, um homenzinho de cabelos retorcidos que nem cordas entrançadas, com voz débil, sem demonstrar frio ou calor, oferecia pulseiras artesanais. 

Com recordações irretocáveis do sítio de vovô Chico e longe de me reclamar de alguma coisa, traguei o primeiro gole no bar, enquanto meu corpo, de longe, se atraía pelo movimento retumbante do mar, me deliciei com a voz da Elis cantando assim:

Eu vou ficar nesta cidade

Não vou voltar pro sertão

Pois vejo vir vindo no vento

Cheiro de nova estação…

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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