Os velhinhos de Piracicaba

Com efeito, escrever sobre o Amor é tarefa não fácil de realizar. Explico. É tema já tão mastigado, que procurar uma ótica original de fazê-lo chega a parecer impossível. Mas, como neste instante em que deparo com a ‘página’ em branco, às vezes nos sentimos tão provocados a retomar o tema eterno, que impossível mesmo é nos furtarmos ao desafio. Vamos a ele.

De início, contudo, devo ter a honestidade de revelar uma coisa, que, sendo de foro íntimo, talvez não coubesse numa página de jornal, assim, tão sem pruridos e gratuitamente (risos). Estou em estado de paixão! Sim, com exclamação.

E, assim estando, o homem vê poesia em tudo, e sobre tudo o que pode ser o Amor, sente-se motivado a falar, ainda que se trate de duas folhas que serenamente caem de uma árvore ao sabor dos ventos, um fato qualquer, sem maior significado ou relevância. Tudo, como em milagre, transforma-se em poesia no coração de um apaixonado.

De novo, explico-me: andando pelas ruas de Piracicaba, de onde escrevo esta crônica, como que à procura do tema para a coluna de hoje, na página de um jornal distante, deparo com um casal de velhinhos que me chamam a atenção e deixam-me, como que, sob incontido lirismo, como numa extensão daquilo que, posso perceber, inunda seus corações neste instante.

Têm algo em torno dos 75, 80 anos, pouco mais ou menos, e, todavia, de tão “apaixonados”, é o que me dizem a ternura de suas mãos entrelaçadas e a cumplicidade de seus olhares cansados, mais parecem dois jovens no mais pleno vigor de suas vidas enamoradas. A uma dada altura do tempo em que os observo, e que não deve extrapolar o espaço de um instante, ela quer arriscar-se a fazer a travessia de uma rua movimentada. Chove uma chuvinha fina e constante. Segurando-lhe a mão, ele resiste. De repente, parece esse desencontro de intenções desencadear uma discussão dos dois. A uma pequena distância, não contenho a curiosidade e fico a observá-los naquela “pugna” imensa. Chego a ficar apreensivo, posto que os dois velhinhos estão entre o meio-fio e a faixa que indica a área de pista por onde passam carros em velocidade.

O que parecia ser uma discussão entre rabugentos, coisa de resto compreensível na vida de um casal de idosos, torna-se, de repente, uma pública demonstração de carinho e proteção recíproca. Os dois velhinhos entreolham-se, e, como num comercial da tevê, entregam-se num beijo fremente, desses como só se veem beijar os jovens amantes.

Eu tenho amado tanto e ainda não conheço o amor, ocorre-me o verso de Bilac. Discretamente, levo o indicador à face, a lágrima a correr límpida e quente, e continuo minha caminhada pelas ruas da cidade.

Que beijo tão doce e tão terno.

Já se tem falado tanto sobre o Amor, dizia eu, há pouco. E, no entanto, como me disseram novidades sobre o tema esses velhinhos de Piracicaba.

(Texto extraído do livro “Do Amor e outras crônicas”, de Alder Teixeira)

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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