OS NOSSOS ABRANHOS NA PRAÇA DOS TRÊS PODERES

Abranhos chegou a ministro da marinha sem jamais ter posto os pés em uma embarcação. Sequer um galeão ou corveta. Levou-a ao comando da esquadra portuguesa a política, alguns arranjos e compadrios bem sucedidos. Nunca soube distinguir, sem ajuda prestante, bombordo de estibordo. Esta falta de ciência náutica não lhe fez falta. Subiu o Tejo, jusante acima e sempre encontrou a torre de Belém no seu lugar.

No Brasil, não correríamos este risco. Nossa esquadra não caberia no lago Paranoá, de Brasília.

O risco corremos agora com tantos ministros “in fieri”, em espera paciente e patriótica para assentar o traseiro triunfante nas cadeiras da República. Tantos sendo os candidatos, o almoxarifado do Planalto já se apressou para criar novos ministérios, aos quais possam ser recolhidos tantas vocações políticas, paisanos aprovisionados de muita ciência, juristas togados e patentes dotadas de muitas estrelas.

Grande movimentação dá conta das novas oportunidades de emprego: motoristas, ajudante de motoristas, togueiros, consultores, redatores de pautas e de discursos, jornalistas em penca que uma democracia não se constrói sem fabricantes de releases e de comentaristas juramentados. Jatinhos públicos e privados, que ministro é como pássaro, sacode as penas e bate as asas. Por pura vocação cívica. E os parentes à espera de demonstrar o seu talento nas beiradas do erário…

Mudança de governo é, na essência, uma revolução ministerial. Estamos na iminência de iniciarmos uma.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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