OS MORNOS SERÃO VOMITADOS

NEM ÉS FRIO, NEM ÉS QUENTE, e porque és morno, hei de vomitar-te da minha boca. Judaísmo, cristianismo e islamismo são religiões monoteístas que defendem a ideia de que somente depois de transitado em julgado, ou seja, do cumprimento total da existência humana, haverá a proclamação da sentença por parte da divindade, a partir da seguinte questão ética: por que se deixou de fazer o que era para ser feito e por que se fez o que não era para ser feito? Ou seja, ninguém pode ser condenado aprioristicamente em razão da cor, da baixa renda, da pouca escolaridade, do sexo, das referências ideológicas, das preferências afetivas, do território onde nasceu ou habita. No caso do cristianismo a advertência é um pouco mais grave, uma vez que para esta religião, conforme o livro do Apocalipse, Deus vomitará os mais ou menos, os indiferentes, os que não tomaram posição diante dos conflitos da vida, aqueles que quiseram agradar a Herodes e a João Batista simultaneamente.

 

Desde fevereiro de 2015 iniciei essa desafiadora aventura de escrever algumas palavras sobre o cotidiano político, a convite do site Segunda Opinião, por entender que o conhecimento – assim como o afeto – só cresce a partir do dom, da partilha, da comunicação. Da primeira fase, que envolveu os anos de 2015 e 2016, resultou um livro PARA ENTENDER O TEMPO PRESENTE, pela Paco Editorial. Buscava-se compreender os primeiros movimentos do Golpe híbrido em construção, pouco percebido ou publicado por algumas cabeças pensantes naquele momento. Tanto que o texto inaugural é bastante emblemático: NÃO VAZIO EM POLÍTICA.

 

Alicerçado na categoria do cotidiano como uma fonte de informação política e sociológica, busco desvendar, dentro de minhas limitações de tempo e de fontes de informação, o aparentemente irrelevante, oculto ou ocultado pela visão do senso comum. É um trabalho artesanal e sequencial, uma oficina de leitura de fatos políticos no dia a dia, buscando coligá-los para encontrar, a partir de minha perspectiva, não apenas o que se repete na estrutura, mas também identificar acontecimentos novos, produtores de novos cenários. Por exemplo, já naquele artigo inaugural de fevereiro de 2015, no início do segundo governo Dilma Rousseff, analisei o perigo que foi a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara Federal. Infelizmente, naquela análise, eu tinha a razão.


Neste início de mês de junho
de 2020, dois fatos me trouxeram uma mensagem muito encorajadora a este meu trabalho. Primeiramente um sacerdote amigo comunicou-me que num grupo de whatsapp do qual ele participa com outros padres diocesanos católicos, meus artigos não poderão ser mais publicados em virtude de incomodar alguns clérigos membros do grupo alinhados com o bolsonarismo. Apesar de eu não conseguir captar a justeza da proibição, uma vez que para mim, como registrei acima, o conhecimento só cresce mediante a dádiva e a circulação, talvez fosse mais producente, em vez de proibirem, exercitarem a crítica aos conteúdos publicados, uma vez que para o membro que os postou deve haver alguma relevância nas reflexões apresentadas naqueles artigos. A conversa naquele grupo muito provavelmente poderia propiciar uma ampliação de novas visões e compreensões para o seus membros, além do exercício do diálogo entre posições políticas assumidas e diferentes.

 

Em segundo lugar, um grande amigo meu, árduo defensor de Sérgio Moro, em sua fraterna discórdia por whatsappao meu recente artigo “Por que Moro e Bolsonaro são uma coisa só?” (https://segundaopiniao.jor.br/por-que-moro-e-bolsonaro-sao-uma-coisa-so/), afirmou que a minha crítica, quando coloca no mesmo patamar Moro e Bolsonaro, é partidária e carece de fontes e argumentos confiáveis porque, segundo ele, Sérgio Moro é um idealista por querer reeditar no Brasil a operação ManiPulite (a operação italiana na qual Moro se fundamentou para realizar a Lava Jato).

 

Foi excelente receber o retorno deste meu amigo, a sua leitura  do referido artigo, porque uma das funções da sociologia do cotidiano é colocar em luz as contradições de comportamentos e pensamentos, mergulhando na observação das circunstâncias como também dos circunstantes, com seus bloqueios e suas dinâmicas. No confronto das contradições, torna-se possível uma investigação mais adequada como também a possibilidade de explicações mais justas.

 

Duas questões. Primeiramente este amigo, ao fazer a defesa calorosa de Moro, não se considera partidário do ex-juiz; mas sente-se livre de atribuir a mim uma visão partidária quando exerço a crítica em relação ao desempenho daquele agente público. Em segundo lugar, apesar de defender Moro ardorosamente, esse meu amigo não apresenta as fontes objetivas para legitimar a sua defesa e me permitir estudar os fundamentos de sua defesa calorosa do ex-juiz, mas ao mesmo tempo não realizou uma análise das diversas fontes que lhe expus contra Moro, entre estas dois artigos publicados no site Segunda Opinião em outubro de 2019:https://segundaopiniao.jor.br/gangsters-e-torturadores-alexandre-aragao-de-albuquerque/ e https://segundaopiniao.jor.br/lavajatismo-militante-alexandre-aragao-de-albuquerque/ .

 

Entendo que todo conhecimento parte de algum lugar existencial. Sendo assim, não há conhecimento neutro, afinal como humanos somos limitados pelo nosso estar no tempo e no espaço, como diria Paulo Freire.  Nossa forma de ver e de pensar, a realidade é condicionada pela nossa posição na base material, pelos nossos valores, sentimentos e crenças adquiridos em nossa viagem pela vida concreta. A verdade, por definição, é infinita. Como não tenho pretensão de ser representante da Verdade Total, busco investigar manifestações de fragmentos de verdade, ofereço minha contribuição com base nos fatos e dados coletados com muito rigor por mim em minhas pesquisas, sabedor de que posso me equivocar a cada momento e, consequentemente, corrigir-me no momento seguinte.


Por fim, o
ntem o Jornal Nacional (JN), durante 07:04(sete minutos e quatro segundos) entre imagens, análises e depoimentos, comportou-se como advogado de defesa pública de Sérgio Moro, em virtude da notícia da reabertura da delação premiada do advogado Rodrigo Tacla Durán contra Carlos Zucolloto, amigo pessoal e padrinho de casamento de Moro, sócio da advogada Rosângela Moro, por haver sofrido uma extorsão de US$ 5 milhões (cinco milhões de dólares) exigida por Zucolloto em troca de proteção na Lava Jato de Curitiba – PR.

 

Na primeira parte da reportagem o JN tratou de desqualificar a pessoa do advogado, chamando-o de fugitivo quando na verdade ele, por ter nacionalidade espanhola, está protegido pela Lei daquele país, além de gozar do status de testemunha protegida nos termos das Convenções das Nações Unidas. Durán já havia feito a denúncia há dois anos, em 05 de junho de 2018durante audiência na Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, mas Raquel Dodge, procuradora geral de então, fez ouvidos de mercadora. Sérgio Moro, mais conhecido como Russo no submundo jurídico, homem forte da Rede Globo, nem é mais juiz nem é mais ministro de Bolsonaro, está no ostracismo e precisa radicalmente da Globo para sustentar a semiótica construída sobre ele. Para a defesa de Rodrigo Tacla Duran, o Jornal Nacional em sua edição concedeu apenas 20 segundos de um texto lido. Uma tremenda disparidade de armas. A simples constatação deste fato já nos permite perceber a qual partido a Globo pertence. Esse foi o modus operandi da Globo durante todos os anos da orquestração condenatória aprioristicamente do Presidente Lula.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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