Os lusíadas alencarinos       

Dentre os piores pecados que um ser humano pode cometer, a ingratidão tem lugar de destaque. Esse mau costume de não reconhecer esforços de outros em seu benefício, direta ou indiretamente, impinge aos seres a desagradável fragrância do egoísmo. Tal atitude envergonha a própria espécie, habitante do reino social, com algo de incivilidade e soberba, por desconsiderar a alteridade como merecedora de reconhecimentos, louros, panegíricos. 

 

Ademais, quando somada à falta de memória, tem-se uma injustiça que chega às raias de ação criminosa. E se a este “crime” ainda for incluído o qualificativo de esquecer-se de elementos locais, artistas conterrâneos, o réu teria acrescentada, em muito, sua pena. Pois bem, não tendo vocação para ave, busco então evitar ao máximo meus delitos de tal natureza. 

 

Foi-nos demandada uma crônica final sobre algum artista cearense. A tarefa, embora sendo simples e direta, exigia algo de memória, algo de seleção, algo de escolha e embaraçosa exclusão que petrificou este seu amigo, querido leitor/a. Sendo assim, talvez por astúcia, covardia ou prudência, escolhi um breve comentário sobre este ser coletivo fantástico: o “Artista Cearense”. 

 

Considerei todas as hodiernas condições adversas. Nosso mundo globalizado, efêmero, segregando continentes e povos é mais arisco do que se pensa. Esconde, atrás do falso glamour de artistas triunfantes, seres que nunca povoam as vitrines digitais e écrans onipresentes. Muito além dos consagrados do momento, bem longe do Olimpo artístico ao qual ascendem grupos seletos por criteriosos especialistas supostamente sábios… Distante até daqueles que alcançam os 15 minutos de Warhol… Bem na periferia de um disco simbólico cujo centro compõe-se daqueles permitidos pelo mercado… É ali que residem aqueles aos quais me refiro. 

 

Falo de artistas em sentido duplo: artistas no ofício e na dura tarefa de viver. Anônimos que saem de uma periferia que é, ao mesmo tempo, centro-celeiro de todos os artistas emergentes. Pois é… Creio que ninguém nasce grande (pelo menos não sem a concessão dos já estabelecidos ou da máquina mercadológica). Entre o anonimato e a tão pouco compreendida glória há anos – talvez décadas – de uma peregrinação torturante pelo gélido deserto da incerteza. 

 

Salas vazias, ausência de público – ou pior que isso: público indiferente – competições desleais entre os pares à cata de notoriedade, autossabotagem e dúvidas acerca do próprio talento, empresários desonestos, vácuas promessas, uso forçado e indigno do próprio exercício de sua arte com o rebaixamento de qualidades pessoais em busca de trocados. Em suma: a miséria da arte!

 

Entretanto, os cearenses surpreendem. Fazem brotar em seu solo – ou em estufas do eterno sul maravilha – grandes personagens artísticos vencedores da batalha em dois flancos: da miséria da Arte e da miséria da Vida. Da periferia do mundo recalcitram, gritam por atenção, dignidade e projetos de autorrealização. 

 

Não deixa de ser incrível observar os artistas dessa terra, longe de todas as capitais, lutando sem desvanecer contra o clima, contra a ignorância, falta de incentivos políticos – quando não perseguições e censuras de todos os matizes – cientes do triunfo de recorrentes exemplos de arte ruim, lixos culturais pasteurizados, etc. Abre-se a percepção de que fazer arte aqui – e viver dela – parece algo ainda mais desafiador. 

 

É isto, porém, o elemento que aumenta o valor de nossa arte: nosso povo luta contra tantos inimigos, tantas adversidades, sem arredar o pé de uma louca convicção. Aquela que faz-nos crer que a vida sem arte é pouco, mesmo sendo perseguidos pelos fantasmas econômicos de sempre. 

 

É por essas tantas questões, então, que busco aqui falar do artista cearense no sentido geral, abstrato e concreto ao mesmo tempo. O artista essencial, resumo e síntese de todos nós. O ser plural, protagonista desta humilde e mal traçada crônica. Bravos navegadores dos mares turbulentos e incertos da matéria e do simbólico: desbravando, inovando, resistindo e existindo por talento e teimosia, convicção e ontologia. 

 

Ao final deste belo projeto de crônicas e poesias aproveito para agradecer todas as oportunidades e felizes encontros. Um brinde e felicitação a todos os artistas cearenses! Aos que já foram, aos que estão sendo, e àqueles que serão, a manterem hasteada, no mastro de nossas naus de resistência, a bandeira de nossa arte: tão própria, tão singular e tão valorosamente bela.

 

    Sursum Corda! Ao alto grandes corações cearenses de todas as artes!

 

Renato Angelo

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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