Os incomodados que tapem os ouvidos, por EMANUEL FREITAS

Suas Excelências, os nobres vereadores de nossa capital, aprovaram ontem o texto do Código da Cidade, em mensagem do Executivo substitui, a partir de agora, o antigo Código de Obras e Posturas do longínquo ano de 1981.

O que gerou debate caloroso foi uma emenda do vereador Jorge Pinheiro (DC), membro da Comunidade Católica Shalom, que excluía templos religiosos da Lei do Silêncio. Segundo ele, caso a Lei se estendesse aos templos haveria uma enxurrada de “limites” às celebrações, e fez suas alegações amparando-se na “liberdade de culto” prevista no texto constitucional.

27 vereadores acompanharam o voto de Jorge; apenas 2, Guilherme Sampaio (PT) e Larissa Gaspar (PPL), votaram contra, o que servirá de munição virtual para que o vereador carismático propague a oposição “do PT” à religião, é só esperar.

Eron Moreira (PP) justificou seu voto afirmando que as igrejas, além de “evangelizar”, cumprem “também função social, fazendo aquilo que é obrigação do Poder Público”. Ora, ora: três coisas escondem-se na declaração do vereador. A primeira: ao falar de “evangelizar” deixa claro que é o interesse das Igrejas Cristãs que estavam a defender; segunda: a “função social” que Igrejas fazem (distribuir alimentos, cuidar de idosos e crianças, “recuperação” de viciados etc) faz-se durante o dia, não à noite, quando se tentou legislar acerca da quantidade de decibéis permitido, e muito menos se faz com microfones e caixas de som à incomodar a vizinhança; terceira: como um parlamentar, representante, por suposto, do interesse público, o nobre vereador deveria cobrar do Poder Público que faça o que deve ser feito, não incentivar que particulares, como são as Igrejas, o façam.

Pinheiro sabe o que é ser admoestado por pessoas que sentem-se incomodadas por barulhos feitos por eventos religiosos. Sua Comunidade é alvo de reclamações reiteradas por parte da vizinhança onde existem Centros de Evangelização Shalom. Tanto causam incômodo com som quanto por reiterados engarrafamentos provocados nos dias de “casa cheia”, sobretudo na Maria Tomázia. O leitor pode passar por lá, às quintas-feiras à noite; ou tentar trafegar pela avenida Silas Munguba, nas proximidades da Canaã, e ver o que passam os pobres “mortais” durante os horários de cultos nos finais de semana.

Há exatamente um ano os jornais cearenses noticiavam um desabafo da deputada Silvana, ligada à Assembleia de Deus. Após ver o TJCE suspender liminar que retirava os templos religioso do Ceará da necessária fiscalização de alvarás e fiscalização de ruídos, a deputada reclamou do fato de que “ruído de missas e cultos incomodam, mas de boates não”. Isso não corresponde aos fatos. O leitor pode atestar a veracidade da afirmação. Igrejas desrespeitam limite de som, causam engarrafamento e, reiteradas vezes, burlam até mesmo a proibição de estacionamento de veículos em determinados locais.

O que estamos vendo, na verdade, é atores do campo religioso que, ao tornarem-se políticos, passam a defender os interesses de suas denominações; na verdade, privilégios. Logo eles que, em sua maioria, opõem-se às cotas, à criminalização da homofobia e a outros dispositivos aos quais taxam de “privilégios”.

O sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) afirma, em seu texto “As rejeições religiosas do mundo e suas direções”, haver uma dificuldade de convivência fraterna com o mundo por parte de religiões soteriológicas, como o é o cristianismo. A legislação “dos homens” não lhes serve; devem elas ser “servidas”. “O Estado é laico, mas nós somos cristãos”, diriam elas, parafraseando nosso ilustre presidente.

Estranhamente, ou não, afastam-se da recomendação de Jesus: dar a César o que é de César. Respeitar a lei, o silêncio do outro. Não, isso não é para eles! Apesar de, lamentavelmente, não serem “donos do mundo” (que pena!), são “filhos” dele, como lemos em diversos carros.

Nada mais afeito à nossa cultura autoritária que insiste em dizer que “os incomodados que se retirem”, não os que incomodam. Pois bem: incomodar-te-á o barulho feito pelos templos, sobretudo após às 22hs? Lamento dizer-te: os incomodados que tapem os ouvidos!

 

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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