Os horrores do Circo: cunhagens de um parlamentarismo de redução

Nas primeiras horas da madrugada de hoje tive a oportunidade de vivenciar um daqueles momentos especiais que permitem que séculos se revelem em segundos, e trazem à tona complexas relações políticas, sociais, econômicas, culturais, psíquicas, morais e éticas inventadas ao longo da história de uma “sociedade”, um “povo”, que embora latentes, se diluem no poço sem fundo do emaranhado das lutas cotidianas pela sobrevivência.

A votação da redução da maioridade penal foi um desses momentos, o Aleph, que como ensina Jorge Luis Borges: é o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do universo, vistos de todos os ângulos! Não a votação toda, apenas sua imagem final, seu último instante, a derradeira cena dos prováveis (porém ainda evitáveis) próximos horrores do circo antidemocrático que se tornou a democracia brasileira.

No centro da Mesa da Câmara dos Deputados estava o Medalhão, o “figurão”, o “Homem”, o Presidente Eduardo Cunha; sagaz, cordial, grave, altivo, “como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas”(Nelson Rodrigues); artífice e maestro de uma releitura contemporânea da eterna má sorte (caiporismo) que persegue a vida social e politica brasileira desde o dia – como disse o Oswald de Andrade – que os portugueses vestiram os índios, pois aqui chegaram num dia de chuva, e lamentava o poeta, por não terem chegado num dia de sol, assim teria o índio despido o português!

Essa má sorte, hidra de mil cabeças, rediviva através de novos cunhadores, é tão ardilosa e dissimulada, que fez um raro momento que as maiorias brasileiras (87%, pobres, ricos, jovens, idosos, analfabetos, “doutores”, segundo o DataFolha) intoxicadas de ódios, ressentimentos, ignorância e desesperança, têm (ou pensam ter) suas reivindicações ouvidas pelo parlamento, ocorrer por um motivo totalmente equivocado!

Nosso “Cunhador-mor da má sorte” não estava sozinho, na Mesa era ladeado por umas dezenas das mais abomináveis mentes da república, representando as bancadas da bala, do boi, da bíblia; muitos homofóbicos, sexistas, delegados aposentados, policiais fardados, apresentadores de programa de violência (lacaios e cúmplices dos barões da mídia, que oferecem morte para vender planos funerários ou estimulantes sexuais), mas estavam lá também os tucanos (Saudade do tempo que o PSDB tinha uma bancada progressista, de alto nível intelectual e lutava contra os reaças. Hoje são um bando de doidim-raivosos)!

Uma deputada vestida com uma camiseta com a foto do filho que foi assassinado (habilmente colocada na hora do vale-tudo da votação ao lado do Cunha), galerias vazias (o povo atrapalha, desconcentra), gritos descontentes (PT, PC do B, PSB mesmo tendo atitude coerente nessa votação, a culpa também é de vocês! E claro o PSOL, mais uma vez do lado certo!) abafados pela “ditadura da maioria” e suas frases, desculpe insistir no trocadilho, cunhadas nas melhores oficinas de ideias medíocres dos gabinetes do Planalto Central!

Confundido justiça com vingança, ódio com ação, estratégia com manobra e política com futebol, 323 parlamentares comemoravam a vitória de uma mudança feita para manter as coisas como estão (e quem sabe piorar), uma ilusão nefasta, jogo de cena para ganhar a plateia enfurecida, que acrescenta mais um capítulo ao nosso recém-inventado parlamentarismo de redução – de ideias e direitos! Enfim, a voz do povo é a voz de Deus, já diria Barrabás!

João Paulo Bandeira de Souza

João Paulo Bandeira de Souza

Cientista político, Doutor em Ciências Sociais (UFRN), Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (MAPPS/UECE), membro dos grupos de pesquisa Marginália-UFRN e Democracia e Globalização-UECE.

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