camila leite

Os fotógrafos das comunidades virtuais: a fotografia entre a arte, o amadorismo e o profissionalismo

Dentre os questionamentos sobre a imagem digital, está aquele voltado aos que se dedicam àquilo que alguns interpretam como arte, outros como lazer e, mais comumente, como forma de ganhar dinheiro.

Na verdade, os duelos internos das práticas fotográficas sempre existiram, mesmo antes da efetivação no campo pelo fotógrafo. Em “A pequena História da Fotografia”, o filósofo Walter Benjamin nos apresenta alguns dos discursos vigentes nos anos contemporâneos ao desejo da fotografia e pouco após sua invenção.

temática princesa

Assim, somos apresentados a uma série de depoimentos que consideravam a invenção fotográfica como uma verdadeira mentira e uma profunda afronta à vontade divina sobre a proibição da idolatria imagética. Além do que, a imagem humana, e, portanto, divina (já que havia sido feita à imagem e semelhança à de Deus) não poderia ser recriada, clonada, no máximo poderia ser feita por um artista, por meio da inspiração celeste.

Parte desse discurso iconoclasta, anti-técnico, se apoiava no fato de que essa cópia do rosto de Deus e dos homens se dava por meio de uma técnica, de uma máquina. Surge aí, nos anos pré-fotografias, os primeiros indícios de uma discussão que até hoje perdura: a fotografia é uma imagem técnica, cientifica, “servil” às coisas do mundo, mero índice.

15 15 anos

A fotografia desprovida da originalidade e da genialidade do artista tentou defender, durante toda sua história, seu campo como um terreno que também era do artístico. Inúmeros profissionais contribuíram para a luta e p para o reconhecimento da fotografia como arte, e especialmente se opunham àqueles que viam e utilizavam a fotografia como um mero instrumento comercial. A divergência entre os dois campos era imensa, desde o tempo, o estudo e a dedicação até à própria estética da imagem e seus diferentes padrões de qualidade e originalidade.

Semelhante conflito, como comentado no texto anterior, deu-se com o surgimento do digital. O digital trouxe fotógrafos com uma diferente bagagem daqueles que se dedicavam ao analógico. Muitos se adaptaram e conseguiram desvendar o programa da máquina digital. Depois de vários anúncios sobre a morte da fotografia, o digital chegou, e a fotografia continuava viva. Alguns chegaram a acreditar que não havia tanta diferença entre as duas imagens, fora o suporte e o arquivamento.

Entretanto, mais de 30 anos se passaram desde a chegada do digital. E as reflexões não param. Todo dia acontece algo de novo, ou pelo menos uma nova abordagem a respeito de um debate antigo. O que hoje vamos focar é o limite entre o amador, o profissional e o artístico.

fotos san

São cada vez mais comuns histórias de jovens amadores da fotografia vencerem festivais renomados, ou de amadores ganharem notoriedade via comunidades virtuais com suas imagens. Eu conheci um desses jovens que adentraram o mercado da fotografia pelas portas da cibercultura. Trata-se da história da Sanara Carvalho. Aos 13 anos, ela se encontrava mensalmente com as amigas para “atualizarem” seus álbuns da comunidade Orkut. Com o tempo, Sanara percebeu que gostava mais de fotografar do que de aparecer nas fotografias, e que suas imagens eram muito boas. Vale ressaltar que tudo isso era feito com uma câmera cybershot básica.

Aos quinze anos, ganhou sua primeira câmera semi-profissional. Seu pai é um designer gráfico e o photophop nunca foi um mistério para ela. Um dia, uma amiga pediu para que ela fizesse um ensaio seu. O resultado foi bem sucedido e outros pedidos vieram seguidos da pergunta “quanto você cobra?”. Sanara percebeu pela primeira vez que podia ganhar dinheiro com fotografia e assim começou cobrando preços baixíssimos, apenas o suficiente para que uma menina de sua idade pudesse se divertir no fim de semana em Sobral, sua cidade.

Aos 18 anos, começou a levar a fotografia mais a sério, e, percebendo que podia e queria trabalhar com fotografia,  montou um espaço com mais três fotógrafos, alugaram uma casa com três quartos e cada um montou o seu estúdio. Mais ou menos nesse período, viu o surgimento da comunidade e das “celebridades” do Instagram, a sua entrada no mercado e, assim, propondo fotografar as “it-girls” de Sobral em troca do compartilhamento do seu nome e das suas imagens.

Camila Leite

Fotógrafa-Pesquisadora, Doutora em Comunicação pela UFPE, Mestre em Comunicação pela UFC onde desenvolveu projetos e pesquisas em Fotografia.

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