OS CAVALOS DE BRASÍLIA

O FASCISMO EM SUA forma mais pura é o somatório de todas as reações irracionais do caráter da classe média. E o tempo presente infelizmente continua preso a um passado que insiste em ser futuro. Essa é uma passagem do psicólogo Wilhelm Reich (1897-1957) em seu livro “A psicologia de massas do fascismo”, em 1933, sobre o estudo de três anos no contexto de ascensão do nazismo na Alemanha. Seu objetivo de base foi o de buscar compreender as razões pela quais cidadãos medianos respaldavam o discurso fascista que, em última instância, atacava suas necessidades humanas. Em sua conclusão, o autor atesta que uma situação de forte crise econômica não coincide necessariamente com um pensamento reflexivo capaz de levar a classe média a identificar as causas estruturais que alimentariam sua condição de explorada. Na verdade, ocorre uma não correspondência, porque a ideologia que alimenta a exploração material continua a voltar-se sobre esta. Afinal, a aquisição da consciência da realidade não se dá de forma mecânica; requer a formação contínua e exercício do pensamento crítico sobre as contradições das relações que se dão na base material.

A classe média não sendo detentora dos meios de produção, nem se organizando em sindicatos de trabalhadores, apresenta-se como uma força social motriz particular e temporária da história, conforme provaram os fascismos italiano e alemão. Assim, quanto maior for o peso e a dimensão de camadas de classe média em uma população, tanto maior é sua importância como força social de ação decisiva na ação de massa num ambiente de crise econômica. A posição da classe média é determinada pela sua posição no processo de produção material: nem é capitalista nem é proletária. Sabendo que não conseguirá chegar ao topo da pirâmide, sua ideologia de classe abomina com pavor a possibilidade de vir a decair na escala social e proletarizar-se, principalmente em países como o Brasil com fortíssima concentração de renda, massa salarial muito baixa e condições sociais de vida muito precárias para grande parte da população.

Diante disto, como tática ideológica, o fascismo engana sob a máscara modernizadora da economia, pelo discurso do crescimento econômico juntamente com uma dimensão moralizadora dos costumes, para esconder o seu perfil autoritário: hierarquia, disciplina, autoritarismo, armamentismo, beligerância, eugenia, homofobia, racismo. A classe média é o depositário primeiro deste discurso porque retém e conserva, com todas as suas contradições, os vários séculos da cultura e dos regimes patriarcais. Mas ao mesmo tempo, como tática de mobilização de sua militância, a ideologia fascista convoca à liberação dos impulsos reprimidos da classe média para moverem a sua mobilização subversiva da ordem democrática. Por exemplo, os seguidos “porra” que Bolsonaro emite abertamente diante das câmeras de televisão e redes sociais não ocorrem por acaso; visam justamente a reforçar essa liberação dos impulsos reprimidos, numa espécie de legitimação e provocação de sua militância a romper com seu recalque para liberar a violência com fins a mobilizar-se para a revolta fascista.

Hoje, no século XXI esta tática ideológica fascista é potencializada pela chegada da inteligência artificial e dos algoritmos. Em linguagem simples, um algoritmo é conjunto de diretrizes que descreve como executar uma tarefa. Por exemplo, o algoritmo de alguém que vai ao trabalho pode ser: 1) acordar, 2) forrar a cama, 3) escovar os dentes, 4) tomar banho, 5) vestir-se, 6) tomar café, 7) pegar o ônibus. Mas em sua fase atual, por meio da tecnologia da informação, os algoritmos possuem a capacidade de decidir aquilo que vemos e como vemos quando usamos a internet. Todos os lançamentos que realizamos na rede, quantitativos e qualitativos, são catalogados e armazenados, fornecendo os dados dos nossos gostos, nossas preferências e nossas reações diante de temas diversos. Consequentemente, os algoritmos das redes sociais são programados para oferecer ao usuário qualquer conteúdo CAPAZ DE ATRAÍ-LO COM MAIOR FREQUÊNCIA E POR MAIS TEMPO À PLATAFORMA. E é nessa faixa que os operadores fascistas atuam com o objetivo de sustentar temas e formas, não importando se razoáveis ou absurdos, realistas ou irreais (fakes), desde que eles consigam identificar os valores, as aspirações e os medos – PRINCIPALMENTE OS MEDOS – dos eleitores.

Um exemplo clássico da ação dos algoritmos é a campanha do BREXIT, relativa à saída do Reino Unido da Comunidade Econômica Europeia. Dominic Cummings, diretor da campanha, contratou uma equipe de cientistas de dados – data scientists – para atingir milhões de eleitores indecisos cuja existência os adversários de Cummings jamais imaginavam existir. Com esse catálogo, dirigiram de forma intensiva as mensagens que eles precisavam receber, no momento adequado, a fim de manipulá-los a votar a favor do BREXIT, que saiu vitorioso.

Domingo passado, 31 de maio, Bolsonaro conduziu mais um espetáculo. E não o fez por acaso. Primeiramente subiu aos céus, com o ministro da Defesa à sua direita. Em seguida, desceu dos céus e montou um cavalo, ladeado por outros cavalos e éguas, desfilando pelas ruas de Brasília, numa simbólica que lembra os filmes dos mocinhos de bang-bang, defensores da “justiça”. É o espetáculo, o carnaval populista a alimentar a irracionalidade dos setores medianos da sociedade. Importante é investir no mítico, no irracional. Contraditoriamente, os blocos na rua portavam cartazes, faixas, músicas e cantos, justamente contra a JUSTIÇA, pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal (SFT), guardião da Constituição Soberana, e contra a LIBERDADE, pedindo o fechamento do Congresso Nacional, justamente o Poder limitador dos eventuais desvios autoritários do Poder Executivo, clamando por intervenção militar. Apesar de pouca densidade, esse gado sabe fazer barulho e divulgar o espetáculo pelas redes sociais de todo o Brasil. Os cavalos de Brasília parecem continuar a conduzir o processo, atentando contra a Constituição e às Instituições Democráticas. Até quando?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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