OS CADERNOS DE VIDRO (I)

Do título. Modo inconclusivo (I)

O certo era que eu deixasse ao leitor a tarefa de adivinhar as razões que me levaram a dar esse título geral a essa série de escritos que mal imagino a que vai dar ou, melhor, que construísse o leitor explicações que fossem mesmo melhores que qualquer uma que eu pudesse pensar. Mas uma obsessão ruim e estranha me leva a um caminho contrário. A verdade talvez seja que eu não tenha nenhuma razão em especial para usar esse título, que foi apenas o melhor, se não o único, que me ocorreu num dia pouco criativo, e que tudo que nele me agradou era o sabor de coisa inusitada, e o fato de que talvez não havia nenhum outro com o qual eu o pudesse comparar. E ainda assim eu quero falar sobre o título mais que três palavras. Até aqui já vão mais de cem e me pesa a sensação de que ainda não comecei a dizer o que queria dizer. (E de repente tomo um susto quando me pergunto se a sentença de que ainda não disse o que queria dizer pode não dar conta apenas de uma série de textos, mas de toda uma vida. Pois é. Eu sou um pouco, já fui mais, como aquelas pessoas que demoram a conseguir falar numa mesa de múltiplos interlocutores, e é comum que eu desista de dizer o que quero antes que percebam que quis dizer alguma coisa. Também me ocorre com frequência eu fugir de discussões quando sei que dentre os antagonistas há gente com o mau hábito de falar muito alto e de modo agressivo, coisa que muita gente aprecia mesmo que esse gosto não confesse. Tenho contado histórias de ficção em que conto coisas que não aconteceram, eventualmente que não podiam ocorrer de forma alguma, as de si mais esquecidas, mas também artigos com a minha opinião quanto ao desconserto do mundo, e coisas parecidas com poemas em que tento dizer coisas o que percebo e coisas o que sinto, o que talvez não seja a coisa mais adequada a fazer dos versos, mas até hoje não me ocorreu de os versos se vingarem de mim de um modo que doesse na carne. E com tantas páginas e tantas palavras ainda me resta essa sensação tanto na escrita quanto na vida de que não disse o que desejava, aliás, que nem sequer comecei a expressar o que pretendia dizer. A angústia podia vir dessa facilidade de me calar quando, por uma ou outra razão, as vozes ao redor se avolumavam. Mas quando isso disse não fui completamente justo comigo mesmo: muita vez, vaidoso e arrogante, quem sabe, o que ditou o meu silêncio foi mais que não quis falar o que podia falar porque julgava que não seria conveniente ou por indiferença à eventual plateia. Que coisa mais feia de dizer e, além disso, tão pouco civilizada. Ou não? É fato que o meu silêncio externo atraiu para o meu arredor toda a sorte e natureza de faladores e falastrões, de que sempre tive que esperar que algum acaso me salvasse. Quando fico em silêncio e o silêncio não chama a atenção de mais ninguém, quando o silêncio não é um convite para que o outro fale e, assim, silêncio, se multiplica, pode ser mesmo que isso colabore para aquele princípio de paz que dizem que só será alcançado quando de todos nós nada restar além dos ossos ou mesmo do pó dos ossos. Se ensaiarmos bem esse silêncio pode ser que não precisemos concretizar a paisagem triste da nossa morte coletiva e sem consolo (nunca esqueçamos, parêntesis dentro de parêntesis, que os últimos dos nossos mortos ficarão necessariamente insepultos); pode ser mesmo que sobrevivamos como raça alguns milênios a mais, se me perdoam a esperança e o otimismo, se vivermos no mesmo silêncio em que de modo geral nos reproduzimos e tentamos dormir. Referi-me ao silêncio em que imaginam que se dá a reprodução sexual humana e mais uma vez peço perdão, agora pela menção indiscreta, e não deixa de ser curioso eu não ter me lembrado de pedir perdão pela lembrança incômoda e inconveniente de que nós, seres humanos, que somos coisas vivas, fenômenos biológicos, como todos da mesma natureza, um dia morrem. É sábio lembrar a si e ao outro que a morte existe, e depois disso tudo que se dissesse era apêndice e nota de rodapé. Morre-se, o fato é mais forte que as palavras, que aqui nada mais fazem que se protegerà sombra do próprio fato imutável. Morre-se, dizem Os sábios, e mesmo nós, que escrevemos e escrevemos sempre o mesmo “Morre-se” que torna a morte tão duramente impessoal. Morre-se, diz-se no papel e foradele, e somos mesmo, nós que escrevemos, feito os antigos poetas medievais, ainda que mais desajeitados e fora do tom: somos gente que diz sempre as mesmas coisas, confirma as sempre mesmas experiências, variando alguma coisa na forma e ainda assim não tanto. Não importa o quanto angustie a busca da originalidade: os princípios da sabedoria conduzem às mesmas fontes, campo amplo em muitos setores, mas que sobre a morte não pode dizer coisas diferentes de “Morre-se”. Os sábios são sujeitos rabugentos de poucas palavras; as palavras são poucas, mas precisas, e nada mais preciso, parece-lhes, do que esse “Morre-se”. E o que mais ocultam no peito os silenciosos do mundo? Sim, um coração de vidro, como na canção, um coração que facilmente pudesse se quebrar. A ideia tem seu lado piegas, claro, e apenas a doçura da voz certa perdoaria isso, e eu mesmo não creio que saiba cantar, o que não me impediria de ser desafinado, e além disso piegas, no que dissesse por escrito. Seja. Um coração de vidro. Não tem a solenidade da morte nem a indiscrição do sexo, não carrega a loucura dos dois maiores polos da nossa humana tristeza. Além disso, é uma ideia fácil de alcançar. E curiosamente, apesar de não ter propriamente começado, não me livro da sensação de que não cheguei propriamente a dizer alguma coisa, mas já sei, ou imagino que sei sobre o que quero falar. Por menos que saiba agora mesmo o que ainda se possa dizer sobre os corações de vidro, e por menos de vidro que possam ser os corações que batem e que estão condenados não a se quebrar, mas aum dia pararem de bater, um por um. E ainda que não sejam de vidro, penso agora, não é impossível que lhes pese o seu tanto de areia. Pois foi da areia que evitei falar desde o princípio, mas é dela que posso falar durante as muitas páginas transparentes dos cadernos de vidro. E não seria mesmo conveniente começar?)

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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