*OS BENS NÃO SE MOVEM SOZINHOS*

Uma mãe fervorosamente cristã, um pai autenticamente socialista, perseguido pelo fascismo italiano nascente. No coração um desejo imenso de encontrar-se com a Verdade. No entretempo dessa busca, uma Guerra Mundial a provocar-lhe uma questão existencial central: haverá alguma realidade que bomba alguma não possa destruir? As consequências da Guerra se faziam palpáveis por todos os lados: pobreza e desesperança. Mas no coração uma voz lhe respondia suave e firmemente: Deus!
Alimentada por essa estupenda descoberta, vê sua vida revolucionar-se com a chegada de mulheres e homens dispostos a segui-la na trilha que se iniciava. Aos poucos, na cidade de Trento, em 1943, uma pequena comunidade se formava tendo como alicerce de suas vidas o amor concreto, revelado por Jesus: amai-vos como eu vos amei. Essa era a medida, nada de menos. Um amor que deveria encarnar-se em todas as dimensões da vida humana.

Em 22 de janeiro de 2020 os membros do Movimento dos Focolares em todo mundo comemoram os 100 anos do nascimento de sua fundadora: Chiara Lubich. Criadora de uma ampla e complexa obra a qual envolve mulheres e homens, adultos e jovens, das mais variadas crenças religiosas, condições sociais e culturais, etnias e nacionalidades, empenhados em colaborar na atuação do testamento de Jesus: “Que todos sejam um”. Uma proposta de unidade, como se viu, nascida num momento histórico de extrema desunidade humana. Um paradoxo em movimento.
Para Chiara a unidade não é algo abstrato; pelo contrário é realidade extremamente concreta. Em um trecho de uma de suas reflexões encontra-se uma afirmação muito singular sobre isso: “Existem várias maneiras de ser um. Dois italianos, por exemplo, se forem um, darão um determinado testemunho; um italiano e um alemão, se forem um, darão outro; um italiano, um alemão e um inglês, se forem um, darão um terceiro testemunho ainda”. Portanto, a diversidade humana tem importância fundamental no processo para a realização do amor que conduz à unidade, porque cada pessoa é em um só tempo diferente e complementar ao outro. Por isso é preciso estar totalmente abertos e desprendidos para saber o que acontece com todos os outros na face da Terra. E afirma: “O nosso Movimento seria um círculo fechado se não tivéssemos uma unidade que contém a universalidade. Se o cunho da universalidade não corrobora a nossa unidade, então nossa unidade é falsa. Se não dilatamos o nosso coração para abraçar toda a humanidade, como Jesus almejou, a nossa unidade não é verdadeira. Nosso convento é o mundo”.
O fundamento dessa unidade dinâmica e universal lubichiana encontra-se na concepção da Trindade Cristã compreendida como uma comunicação contínua e recíproca entre as três Pessoas, porque o amor por ser dinâmico cria a circulação dos bens, ininterruptamente. Aquilo que na teologia trinitária agostiniana é definido como “ser-para”: O Pai é ser-para o Filho; o Filho é ser-para o Pai; nessa reciprocidade de dons, circula o Espírito de Amor, esplendor do Pai e do Filho. Portanto, para a humanidade atuar tal unidade na qual os bens circulam plenamente, cada um precisa tornar-se outro Jesus. E só é possível tornar-se outro Jesus, amando concretamente.
Ainda sobre a circulação dos bens, Chiara é sempre firme e luminosa. Diz: “É preciso realizar no mundo a comunhão dos bens, porque não há cristianismo sem que haja bens em comum, porque a revolução evangélica é a mais potente revolução social”. Em 1983, discursando em um Encontro Internacional do Movimento Humanidade Nova, na sua análise das injustas estruturas econômicas que promovem a concentração de bens, foi clarividente: “Hoje o trabalho do operário não tem significado para ele porque, tendo sido pensado por Deus em função do homem, atualmente, não contribui para realizar todo o potencial de criatividade e inteligência da pessoa humana. O trabalho ainda – como se sabe – possui frequentemente um *caráter alienante* e, por vezes, é também mutilante a nível físico, e mais ainda no plano psicológico. Em muitos casos – isto também é notório – o trabalho ainda é opressivo porque explorado em favor de um grupo de homens ou de nações e não em função do próprio homem e de todos os homens”.
Assim, o caminho, segundo Lubich, é ser dom, é dar: “A palavra que pode oferecer um remédio e devolver o equilíbrio ao nosso Planeta é aquela que nos convida a dar. Dar o que temos a mais, ou mesmo do nosso necessário. Dar a quem não tem. Demos sempre, demos um sorriso, um gesto de compreensão, um perdão, uma atenção; demos nossa inteligência, nossa vontade, nossa disponibilidade; demos nosso tempo, nossos talentos, nossas ideias, nossa atividade; demos nossa experiência, nossas capacidades, nossos bens materiais, *revistos periodicamente*, de modo que nada se acumule e tudo circule. Dar! Que seja esta a Palavra que não nos dê tréguas”.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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